Além da sala de aula · Alunos · Cansei de estudar... · Expressão · opinião

Daqui de cima do meu muro

Por Marcelo Venturoso

Em um certo lugar e em um certo tempo, as pessoas eram divididas em dois grupos por um muro alto e praticamente intransponível. Sobre esse muro vivia um menino, cujo nome não vem ao caso.

Normalmente, as pessoas viviam suas vidas sempre nos modelos de seu próprio grupo. As verdades já estabelecidas não eram contestadas e tudo seguia bem. Uma das formas de saber o que acontecia do outro lado era olhando por uma pequena fresta no muro que, de tão pequena, acabava por distorcer as visões e demonstrava apenas relances do que era viver do “outro lado”.

A segunda forma era subindo sobre seus próprios companheiros, pisando-lhes os ombros e até mesmo as cabeças. De todo modo, essa visão era também precária, pois a sensação de estar por cima de todos os outros turvava os sentidos das pessoas daquela comunidade tão estranha.

Como não têm ânimo para transpor o muro, os que viram o lado de lá, quando vão contar aos seus as suas visões, pintam o diabo com cores mais fortes do que as vistas realmente viram. E, pior de tudo, tornam-se mensageiros de seus grupos, sempre defendendo, sem filtro, o seu lado.

De tempos em tempos, os ânimos entre os dois lados se acirravam muito. Na época presente, porém, o menino que viva em cima do muro, constatou que a coisa estava mais grave. O motivo era que, nos dias atuais, havia aumentado muito o número daqueles que levantam seus gritos contra o “lado de lá”, porque havia mais meios disponíveis para isso.

Em razão disso, mesmo aqueles que sabiam pouco até mesmo das coisas de seu próprio lado, gritavam e insultavam os indivíduos do lado de lá, considerando-os imbecis, pouco inteligentes e alienados das coisas do mundo.

Vez ou outra, o alvo da ira dos dois lados era o menino que vivia em cima do muro, insultado por nunca escolher o lado em ficar. As pessoas que viviam de cada lado do muro não entendiam como era possível alguém não escolher o seu próprio lado, vendo tantas iniquidades do lado de lá.

Não era fácil sustentar a posição, pois as agressões, algumas vezes, iam além das palavras, chegando a ponto de insultos quase físicos que tinham a intenção de fazer o menino descer e escolher um dos lados. Outras pessoas que viveram em cima do muro com o menino já haviam, há tempos, descido por não aguentar viver sob tanta pressão.

Certo dia, um jovem de um dos lados chegou ao menino e perguntou-lhe:

– Por que não desce logo daí, é acolhido em um dos grupos e para de ser tão agredido?

O menino, com calma, respondeu:

– Realmente não é fácil viver aqui. É preciso muito equilíbrio, além de uma certa frieza para controlar a vontade de ceder a um dos lados. Mas, como tudo, sempre existe um lado bom. É que daqui da cima do meu muro, eu ao menos posso enxergar o melhor e o pior de cada lado, escolher meu próprio caminho e, melhor de tudo, sem pisar em ninguém!

Muro

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s