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Mãe, eu sou de direita por quê…?

Por Tupiniquim

No último domingo o país viveu uma de suas maiores mobilizações, superando em aderência a histórica manifestação pelas Diretas Já. Insatisfeitos com a gestão pública e os numerosos casos de corrupção que pipocam pelo país, uma multidão 77% branca, 57% de homens, 77% com ensino superior e 68% sem preferência partidária[1], tomou uma das principais avenidas do país para demonstrar seus descontentamentos no melhor estilo brasileiro.

Essa visão é tomada como a mais otimista possível por muitas pessoas: a democracia funciona e temos uma população preocupada com os destinos do país e que atuam para a concretização desse sonho de um país melhor.  Contudo, dados marginalizados e pequenas sutilezas despertam em outros temores que nos importa revelar.

Dentre essa mesma multidão, 21% têm o PSDB como partido favorito, 79% votaram no Aécio Neves para presidente no segundo turno e 94% não participa dos grupos organizadores da manifestação[2]. Ou seja, o mesmo grupo que abomina as atitudes do atual governo acredita na atuação de um senador que possui uma problemática relação com o poder judiciário, já tendo seu nome envolvido com situações de tráfico de drogas, desvio de verbas da saúde mineira e no mesmo esquema de corrupções da Petrobrás.

Como se não fosse suficiente, parte da plêiade marchou com os dizeres “In Moro we trust”. Ou seja, o mero mortal juiz federal toma o lugar de Deus na frase e já não é nem mais possível imaginá-lo defecando, muito menos não sendo o salvador que tanto se espera. Ainda é possível visualizar crentes que depositam sua fé na atuação de militares e em uma imaculada ditadura que livraria o país do “caos” agora instalado.

Mimados. Clamam aos céus soluções que não cairão. Querem o fim da corrupção, mas, apesar da alta educação formal que possuem, enxergam o impossível nexo entre gritar na rua e a instantânea retidão moral de pessoas e uma gestão pública eficiente. Mimados.

Isto é, a população que se lançou às ruas no último domingo, apesar de suas inspirações mais nobres (mas que não lhes são exclusivas), crê em santos suscetíveis a paixões (como homens que são) e aposta em um caminho que lhes é apresentado, mas certamente não os levará onde pretendem.

Certamente o leitor já deve estar irritado com o texto que parecia elogiar sua fantasiosa atuação no domingo. “Mas então o que eu deveria fazer? Ficar quieto com tudo isso que está acontecendo?”. Se seus questionamentos são esses, teremos razão novamente em afirmar que também é precipitado em suas conclusões.

Pois bem. Não seja o burro de carga dos 3% que participaram das manifestações e que integram os grupos que a organizaram. Eles são coerentes. Eles discutem o cenário político nacional com base em seus referenciais teóricos, percebem o jogo político com mais sutilezas, encabeçam mobilizações populares e, principalmente, defendem seus interesses com a sua ajuda vestido de CBF.

Democracia não é um desfile bimestral para mostrar o quanto você está insatisfeito com a queda do dólar. Democracia não é limitar-se a reclamar dos atos governamentais na mesa do bar. Democracia não é estar a ler as notícias das mídias que invadem sua casa. Isso é criancice.

A Democracia é alimentada de suor gasto na fila da prefeitura da sua cidade para protocolar explicações de uma política equivocada, é alimentada das dores de cabeça quando esse mesmo ofício não for respondido e estratégias precisarem serem montadas para cobrar esse gestor, é alimentada pelas discordâncias nas discussões que existirão com as pessoas que serão necessárias em qualquer atividade cívica, é alimentada pelo sangue que foi derramado em períodos ditatoriais e que não pode ser esquecido.

Esta é a única forma para que mesmo você, branco, rico e intelectualizado, não seja a jovem menina do vídeo que circula na internet: ela diz da importância de se mudar o país, dos seus desejos para o futuro e da necessidade de que ela mesma esteja se manifestando nas ruas. Então, o entrevistador a questiona sobre questões práticas do processo político e ela, sem saber responder, encontra uma desculpa. Novamente, o entrevistador questiona sobre o seu posicionamento político e ela só sabe responder que é de direita, mas não sabe o porquê. Vira-se para sua mãe: “Mãe, eu sou de direita por quê…?”, assim, consegue uma explicação (mesmo que esdrúxula).

Por tudo isso, não temos receio em afirmar que aqueles que não vivem constantemente o processo democrático papagaiam seus posicionamentos e demandam a outros suas razões. E, por fim, desfilam em uma festa que não é feita para eles, mas por eles. #VemPraRua

[1] Fonte: http://datafolha.folha.uol.com.br/opiniaopublica/2016/03/1749713-maior-manifestacao-politica-da-historia-de-sp-reune-500-mil-na-paulista.shtml

[2] Vide nota 1

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