Além da sala de aula · Alunos · Cansei de estudar... · Expressão · opinião

Se todos são contra a corrupção, por que ela ainda existe?

Por Flávio Felipe (Fião)

Corrupção é, sem sombra de dúvida, a pauta do dia. Operação Lava Jato, delação premiada, juiz Sérgio Moro, Petrolão, Odebrecht…são tantas informações em um ritmo tão alucinante que torna-se uma tarefa hercúlea absorver tudo e, ainda mais difícil, compreender e processar todos os capítulos de House of Cards, digo, da política brasileira.

A presidente Dilma Rousseff corre o risco de sofrer impeachmet; todos os possíveis sucessores à presidência da república eleitos pelo voto popular (Michel Temer, Eduardo Cunha e Renan Calheiros), bem como quatro de cinco ex-presidentes vivos (Lula, FHC e Collor, além da própria Dilma) estão sendo investigados pela Lava Jato; [1].

A oposição também pipoca em denúncias e inquéritos na mesma operação, com destaque para o senador Aécio Neves; Há inquéritos contra 47 políticos do PMDB, PT, PP, PSDB, SD e PTB para apurar sua participação no esquema investigado pela operação Lava Jato, sobre a corrupção na Petrobras. Há senadores, deputados federais, ex-governadores e políticos sem cargo.  [2] [3]

Tamanho desvirtuamento – para usar um eufemismo – da política nacional não é recente, mas algo certamente é: No último dia 13, uma multidão tomou as ruas em diversas cidades do país para pedir o impeachment da presidente, prestar apoio à Operação Lava Jato, alçar o juiz Sérgio Moro à condição de “herói nacional” e, genericamente, pedir o “fim da corrupção” (não entrando no mérito de outras reivindicações, como “intervenção militar constitucional” (sic), pelo menos aparentemente minoritárias).

Tamanha insatisfação popular com a gestão governamental é algo que não se via desde os “Caras Pintadas”. Ora seletiva, ora genérica em seus alvos, a população se diz absolutamente farta de escândalos no poder público. Ao que parece, todos são contra a corrupção…Mas, então, por que ela ainda existe?

Desde Louis de Pasteur, sabemos que as coisas simplesmente não “surgem” por geração espontânea, e isso inclui os políticos. Alguém os colocou lá e, evidentemente, fomos nós, através do voto “direto, secreto, universal e periódico”.

Um dos jargões mais conhecidos sobre políticos é o “rouba, mas faz”, um clássico dos meus pais quando eu censurava a gestão de Paulo Maluf, quando prefeito de São Paulo. Outro jargão muito famoso é o “todo mundo faz, por que eu não?”. Aquele clássico que seu tio dá quando é questionado sobre o “gato” que fez pra ter TV a cabo de graça no condomínio, ou quando sua amiga aparece com um atestado médico falso para poder faltar ao trabalho, ou ainda quando seu colega pede para “bater o ponto” por ele, ou quando…

Quantas corrupções cometemos diariamente? Furar a fila do bandejão, assinar a lista de chamada pelo colega, colar na prova, estacionar na vaga reservada para deficientes, subornar o guarda para não pagar multa, falsificar documentos para ganhar benefícios na assistência social, etc (ou melhor, et caterva).

Quantas pessoas lesamos, direta ou indiretamente? Alguns poderiam dizer que são pequenas “corrupções”, apenas, mas deixam de ser uma forma de corrupção? Desviar verba da merenda escolar ou mentir no imposto de renda; a diferença é tão grande assim para condenarmos uma e não a outra? Ambos são crimes…

Uma coisa é certa: para haver corrupção, é preciso haver o corrompido, mas também o corruptor. De onde surgem os corruptores? É muito fácil culpar os políticos por todos os males do país e nos abstermos dos “pequenos” crimes que cometemos todos os dias, para então, de dois em dois anos, exigirmos ética entre os candidatos. Ora, os candidatos saem da sociedade civil, uma sociedade que efetivamente naturaliza e até mesmo incentiva pequenas corrupções! O que deveríamos esperar? Ruy Barbosa?

Talvez, só talvez mesmo, o cerne do problema esteja em nós. Propor reformas políticas, exigir ética e transparência dos poderes públicos, pressionar por mudanças – seja colhendo assinaturas na subprefeitura do seu bairro ou em uma grande manifestação – tudo isso é essencial ao processo democrático. Mas para ter legitimidade ao exigir mudanças, também é preciso mudar junto. “Ser a mudança que você quer no mundo” é um clichê universal, mas não deixa de ser válido.

[1] http://politica.estadao.com.br/noticias/geral,lula–fhc-e-collor-sao-investigados-por-suspeita-de-levarem-para-casa-objetos-do-planalto,1780298

 

[2] http://g1.globo.com/jornal-hoje/noticia/2016/03/delcidio-do-amaral-cita-mais-de-70-pessoas-em-delacao-premiada.html

 

[3] http://g1.globo.com/politica/noticia/2015/03/ministro-do-stf-autoriza-investigacao-de-politicos-na-lava-jato.html

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s