Expressão · Heterônimos

Vai passar…nessa avenida um samba popular

Por Gabrielli Duarte

Vivemos esperando que a banda passe nos corredores de nossa vida. Mas quase sempre, somos resignados com a apresentação do monólogo de nossa existência, permeada por deveres e obrigações.

Quando somos crianças, não vemos a hora de que a maioridade chegue. Como se nela fôssemos nos metamorfosear em pássaro, cujas asas tão somente se constroem no intuito de transladar para a liberdade.

O que não sabemos é que quanto mais os anos se acumulam, maiores são as amarras que nos prendem.

As relações sociais vão se sedimentando em nosso e ser e, com o tempo, vamos entendendo e assimilando os mecanismos da sociedade, compreendendo o lugar de cada qual no universo.

E os seres humanos são campeões em criarem lugares fixos. Como se fôssemos uma máquina burocrática que administrativamente quer por ordem nas existências, colocando-as em compartimentos pré-determinados.

Se você é assim, deve agir assim, deve falar assim, deve andar assim. E, assim, o arcabouço social individualista em sua coletividade vai se demarcando. Justificando a solidão pelos corredores dos escritórios, das universidades, dos parques e praças públicas. Porque sem outros você não é ninguém. Recusando-se a se submeter ao processo inescrupuloso de padronização, compramos uma briga com nós mesmos. E para os outros é como se você borrasse a própria existência, fazendo de seus caminhos, mistérios.

Ainda jovens, quando apenas o almoço de domingo e os seriados animados na Tv nos preocupavam, não tínhamos dimensão de que a liberdade é algo quase impalpável do mundo das realidades.

Preso entre quatro paredes, livros e equações, acreditamos que a entrada na universidade será a libação do sangue da liberdade. Só, então, poderemos ser nós, em nossa essência pluralista. Longe dos pais, com novos amigos, novos desafios, novos horizonte.

Como se a banda finalmente, depois de uma longa estiagem, tivesse passado na rua de nossa habitação.

O rompante de felicidade toma conta do momento de forma que realmente acreditamos que podemos ser pássaros exóticos com coloração de onça pintada e asas reverberantes sem reprovações. De repente, não estamos mais sozinhos, nossas dores, sonhos e aversões são compartilhadas por, mais ou menos, uns 500 colegas, que fazem acreditar que daqui pra frente tudo vai mudar. De fato, muitas coisas mudam. A vida adulta pode tecer novas e mais resistentes amarras (sobretudo por demandarem consequências, por vezes irreversíveis), mas também traz muitas sensações interessantes, como um vinho cujo sabor só melhora no decorrer dos anos. Não é à toa que, de primeira, quase ninguém gosta de vinho. É uma bebida de trato difícil, uma espécie de luta entre a dominação e  o ser dominado. É o controle do ser sobre as vontades pueris de sabores doces. É subir gradualmente os degraus inexistentes de um íngrime relevo. Parece árduo, difícil, desgostoso, mas, com o tempo, passamos a apreciar cada conquista e a descobrir novos e satisfatórios sabores, que passam a fazer parte do nosso limitado cardápio gustativo. A bebida, então, torna-se imprescindível para determinados momentos, consolidando prazeres suaves, quase oníricos, jamais alcançados nos tempos de outrora. E assim é a nossa vida enquanto gente grande.

Mas voltemos à entrada. O calouro é como a moça triste que vivia calada, de Chico Buarque, sorrindo ao ver a banda passar. Mas o verbo que caracteriza essa presença já diz tudo. A euforia é apenas uma passagem. Como chama que aquece as moléculas de um líquido, fazendo-o agitar-se, mas logo se apaga, dando espaço para que as trocas de calor com o ambiente se incumbam de retomar naturalmente a ordem.

E tudo toma seu devido lugar. Só que agora, os compartimentos sociais são melhor delineados, com regras “fijas”. O modusvivendi não se altera. E os estereótipos são veementemente reforçados. Você tem que fazer parte de algo para ser alguém. Todas a rotulações parecem já estar prontas. Basta vesti-las e defender hipocritamente a bandeira da liberdade. No fim das contas, a menina do grupo de literatura vai continuar sendo a menina do grupo de literatura. O nerd dos grupos de estudos vai continuar sendo o nerd dos grupos de estudos. Os descolados do esporte vão continuar sendo o descolados do esporte. As patricinhas que às quartas usam rosa vão continuar, às quartas, usando rosa. E você? Você vai continuar pelos corredores, espreitando olhares, inquirindo vagos e imprecisos cumprimentos. Porque todos agirão como se não existisse esses institutos.

Mas quando você se interessar por alguém que não é do seu clã, ele não vai querer transpor a redoma de vidro que protege o status quo para perder os preciosos momentos da existência ao seu lado. Criamos nossas próprias limitações. Como se fôssemos aqueles sucos bifásicos que nem os químicos explicam direito. E para meu desencanto, o que era doce acabou, tudo tomou seu lugar depois que a banda passou e cada qual no seu canto e cada canto uma dor, depois da banda passar tocando coisa de amor.12920871_785673794866173_1681992444_n

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