Expressão · Heterônimos

Do meu sobrado

Por Leonardo Lunardelli

Dentro do meu sobrado eu vejo vidas secas. Eu vejo mais que Fabiano, Sinhá Vitória, Baleia e dois meninos. Eu vejo sim uma seca, uma fuga, um mundo e que mundo? Um mundo que eu não conheço, um mundo que você não conhece. Talvez conheça e caso isso seja uma afirmativa, sabe que talvez não seja um mundo. Que mundo que deixa isso acontecer, que mundo que você se comove, mas não sabe como agir? Que mundo em que você se preocupa com o futuro de não só dois meninos, como também de duas meninas (uma ainda bebê) e não sabe o que fazer para ajudar?

Eram eles, distante, de longe, do vidro escuro, pelo vão de persianas, de janelas com grade e cercas elétricas. Deveria haver uma saída, o medo e a escusa de todos não pode ser tão seco,ou seria? Quais as razões de fazer mais indagações que assertivas quando você poderia ter a resposta. A resposta que poderia existir desde Graciliano, desde Rachel, desde Jorge e desde…desde quando vemos Fabianos pelo Brasil a fora, em selvas das mais diferentes, desde selvas sem floresta até as de florestas de concreto.

Que mundo de medo! Para mim? Para eles, eles que não sabem onde vão dormir. Oh Deus, tem pesadelo pior do que saber onde não vou dormir? Tem sim! Sim senhor… quer dizer, é claro… conforme… conforme observamos essa paisagem de “civilização” e encontramos pessoas dotadas com o superpoder da invisibilidade. Quantas crianças não queriam ter esse poder para copiar o tal do Harry, para matar aula, para fazer coisas diferentes, não é? Mal sabe quem almeja a obter esse dom que os que o possuem gostariam de ser visíveis. Queriam que olhassem nos seus olhos, queriam que lhe dirigissem a palavra, queriam poder ver a religiosidade além da superfície dos outros.

Será que vão para a festa de hoje? Será que eles já compraram o primeiro lote para não lembrar de onde estavam e o que aconteceu? Talvez até queiram. Talvez o que eles gostariam de ter era tempo. Dinheiro. Resolução. Uma vida sem problemas para conhecer a transformação de cadeias em aldeído que poderiam se tornar um portal surrealista. É vã. Parece vã. A existência desses, se é que podemos classificar assim. Quantos problemas e perguntas sem resposta encontram a cada minuto. Opa, não daqueles, desses que não tem esperança, se é que os outros tem…. Quanta esperança ainda existe na então real Fabiana e Sinhá Vitória? Gostaria eu de saber dos outros, o motivo de observar ela e ela, pois há quem feche os olhos para os problemas mais profundos desse.

Todavia ainda há esperança. Esperança de quem não sabe o que é a vida e o que seria esperança. Talvez nem saibam, não aprendam, não reflitam. Leves, correndo, brincando, rindo em meio aos carros que passavam e desviavam dos então invisíveis. Há quem tenha passado e tenha visto o único ser dotado e milésima visibilidade, a Baleia. Por meio desse fato conclui que a invisibilidade é para a própria espécie. Baleia não estava só, estava com os meninos seus inseparáveis companheiros. Esses que pelo mesmo motivo de anos, talvez não nos interesse saber o nome pois não conhecemos o futuro. Parece que além de nós, todos os outros não conhecem. Rápido. Curto. Passando. De rodas, de carro, de carroça, nos cruzamos, nos encontramos e tudo passou. Não precisava estar no sobrado para ter reparado, que os enxergava de cima, enquanto eles nem reparavam que outros olhavam para baixo. De frente, menos ainda. Talvez eles saibam, o que é ser livre? Pois nós não sabemos…

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