Alunos · Expressão · opinião

1984

Por Yan Bogado Funck

Esse texto não é sobre o passado, nem sobre o futuro, é um texto sobre o presente e a nossa realidade nessa faculdade de direito. Observo mudanças pela frente, espero-as ansiosamente, porém aqui segue minha reflexão sobre nosso contexto atual após terminar de ler 1984, de George Orwell, na semana de provas, o que me abalou muito:

“Não traí Julia!”

            No livro de Orwell, Julia representa sua liberdade, seus mais profundos ideais e convicções. Assim entramos no partido (se me permitem, assim chamarei nossa faculdade nesse texto), acreditando em mudarmos o mundo, fazer justiça. Pelo menos são essas as respostas que dos membros externos do partido (alunos) nos primeiros dias.

            As pessoas, nesse momento, carregam o sentimento do mundo, por uma Justiça justa, por um mundo novo. São apresentados ao sistema e acreditam que podem mudá-lo, que são sujeitos capazes, pela pretensão de sua posição hierárquica acima dos proletas, de mudar o mundo.

            Com esses ideais que sua vida começa. Aqueles que estão mais amoldados ou são mais amoldáveis se dão melhor mais facilmente, aceitando todos os tipos de afirmações. As peças defeituosas fazem de tudo para não se renderem e não traírem  Julia. Muitos acabam se rendendo, outros conseguem se associar a grupos misteriosos que conseguem absorver essa tensão, mas de alguma maneira, em diversas medidas acabam traindo Julia.

“Liberdade é escravidão”

            Com o tempo, você é obrigado a conviver com a rotina de um período integral, sufocante, no partido, mais as obrigações que são levadas para casa e sua vida pessoal, com aquilo que você gosta de fazer. Os três são impossíveis de serem conciliados, algum deles é necessário abandonar e, assim, apesar de não existir nenhuma lei proibindo, pois nada é proibido, você terá que abrir mão de fazer o que gosta. Já que, pretensiosamente, segundo o núcleo do partido, nossa vida sem tempo para o prazer é sinal de prosperidade e pujança: assim seremos melhores do que a Eurásia, ou seria do que a Lestásia?

            Sequer é cogitada alguma possibilidade de protagonismo desses membros externos do partido, que dirá dos proletas. Tentativas nesse sentido são rechaçadas, como crime de duplipensamento (apesar de não existirem crimes), pois este é um ideal subversivo: “como é possível que os esses tenham protagonismo”, “eles precisam de nós””. Membros externos do partido são meros reprodutores dos pensamentos do núcleo do partido e nunca poderão, sozinhos, construir o próprio, já que não é possível dar protagonismo para 100 pessoas ao mesmo tempo. Quanto aos proletas, bom, a esses é negada até a reprodução do conhecimento – “para que precisam disso?”.

“2 + 2 = 5”

            Esse é o processo de amoldamento do membro do partido. Lhe será imposto, 12 horas por dia, um pensamento: a verdade, a lógica, o que está certo e o que está errado. Não será proposto qualquer forma de pensar e debater sobre o sistema, esse só será mastigado da forma mais conveniente pelo membro do núcleo do partido e engolido pelo membro externo. De tanto ouvir aquilo ele cederá e 2 + 2 será igual a 5. Assim o sujeito começará a ser desconstruído.

            Porém, esse processo não se dá apenas por pressão do núcleo do partido, mas também de seus pares. Os mais amoldáveis ou os já amoldados pressionam constantemente para destruir o ser. Cores, objetos e nomes são impostos como divinos e adoráveis; pessoas são canonizadas e o sujeito se desespera.

“Ponha Júlia em meu lugar”

            Como já disse: “todos traem Julia”, em algum momento, de alguma forma, você vai trair Julia. É impossível sobreviver a esse caos sem estar minimamente amoldado. Ou você se amolda, ou terá sérios problemas.

            Aquilo que você pensava e tinha convicção se torna fluido e muitas vezes desaparece, não porque estava errado ou porque lhe foi somado conhecimento, mas, sim, porque lhe foi impedido de pensar diferente, lhe foram apagados tais pensamentos. Você se torna aquele quem mais odiava. Nesse momento, sua subjetividade desaparece e, como uma voz subversiva me disse: no final temos até o velório do ser, todos de preto, estarão um ao lado do outro sérios e iguais. Mais uma vez, qualquer tentativa de mudança será vista como subversiva é impensável, afinal: “essa é a tradição” e “para a foto ficar bonita você tem que aceitar”.

“A esperança está nos proletas”

            Sim! É neles que reside a esperança de algo melhor. Que eles venham e, um dia, quiçá um dia, teremos um partido plural. Aparenta que já melhoramos muito desde tempos que estão ficando num passado distante. Porém, essa melhora foi superficial. Aromatizamos a merda e pensamos, durante algum tempo, que ela não estava mais lá.  Ainda está, em diversos aspectos e em diversas medidas, todos os problemas continuam presentes. A única forma que vejo para sairmos disso é ampla democratização, de toda a sociedade, mas em especial, do ensino.

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