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Confissões De Um Cinéfilo Amargurado

Por Thomas Henrique Kohler Garcia (Palmirinha)

 

A Mostra Internacional de Cinema de São Paulo chegou a 40ª edição. É incrível que o cinema arte continue sobrevivendo ao tempo, mesmo com tantas dificuldades. Nada supera a emoção assistir um filme na Telona. Assistir series descontinuamente com o laptop deitado na cama realmente é mais fácil e esses novos tempos estão realmente dificultando quebrar a rotina. Estamos cansados demais para se deslocar para ver um filme. Não é todo dia que temos duas horas e meia vagando para poder gastar tranquilamente em um filme. Mesmo assim, a Mostra continua sendo um sucesso. Por mais reduzido que seja, ainda há espaço para quem quer filmes de qualidade, para quem prefere a tranquilidade do escuro, para quem prefere a experiência compartilhada à solidão individual.

Os últimos anos foram marcados por perdas enormes em todos os sentidos. Perdemos Abbas Kiarostami. Goddard uma vez disse que o cinema começava com Griffith e terminava com Kiarostami. O que será dessa pobre arte agora com esse vazio? O cinema teima em continuar, teima em continuar trazendo novas histórias e novos modos de contas histórias. O último grande construtor de uma linguagem cinematográfica pode ter sido mesmo Kiarostami, mas ainda existem bons diretores e ainda existem bons filmes.

Perdemos Manoel de Oliveira.

Que perda!

(…)

Que perda!

Não tem como exprimir em palavras o sentimento de abandono. A tristeza que isso provoca. Manoel em vida desafiou a morte. O cineasta português viveu até os 106 anos e se dedicou ao cinema até o final, seu último trabalho, o curta O Velho do Restelo, foi filmado quando o diretor tinha 105. Nos cinéfilos tivemos a vaga ilusão que ele viveria para sempre nos presenteando com seus filmes. Não aconteceu. Mas uma coisa é certeza. No embate com a morte, Oliveira eternizou-se.

Perdemos Andrzej Wajda, Ettore Scola, Hector Babenco, Michael Cimino, Alain Resnais e Andrzej Zulawski. Com certeza houveram mais perdas tão grandes quanto essas, diretores desconhecidos em seus próprios países que não alcançaram o estrelato mesmo produzindo filmes extraordinários. Acho porém que mostrar esses nomes ajude a se ter uma ideia do tamanho do buraco. Não é só diretores que perdemos, a própria Mostra perdeu seu fundador, Leon Cakoff.  Eu nunca cheguei a conhecer profundamente seu trabalho, minha primeira mostra foi a que veio logo após sua morte. Isso não quer dizer que não senti sua presença. Leon estava em todos os cantos, que nem um espectro. Seja nos textos dos críticos saudosistas como o Inácio Araújo e o Sergio Alpendre, seja nas conversas pôs filmes com os cinéfilos experientes, com várias mostras nas costas.

Perdemos a 2001 Video. Essa perda talvez não tenha sido a mais importante, mas para mim com certeza foi a mais sofrida. Por alguns anos eu vivi em uma ilusão. O tempo das locadoras já tinha passado, mas eu continuava me recusando a aceitar. Não que eu tivesse algum tipo de repulsa ao Streaming, ele tem seus méritos (principalmente quanto a facilidade de acesso aos filmes). Agora para um cinéfilo como eu, nada substitui a locadora. A locadora te dá mais obrigações, principalmente o deslocamento físico e a atenção aos prazos. E isso é ótimo, porque aumenta o valor que damos aos filmes. Aumenta o compromisso para que o filme seja visto de fato, com a atenção devida e não seja somente uma caixa abandonada na estante. Dos melhores filmes que eu vi na minha vida, a grande maioria foi alugada na 2001. Lá eu tive acesso a pessoas que me fizeram ver a vida com outros olhos como Fellini, Polansky, Kurosawa, Scorsese, Friedkin, Bergman, Frassbinder, Ozu, Trouffaut, e muitos outros. A diferença da 2001 foi que no caso da locadora a perda não veio em um susto, foi um processo. Primeiro a filial perto da casa de um amigo fechou, foi o primeiro sinal, não tardou para a do meu bairro acabar também. Quando eu me toquei, só restava a 2001 da Avenida Paulista, mas isso não fez que eu parasse de ser um cliente de carteirinha (literalmente, ainda guardo o cartão da locadora na carteira).

Eu pegava ônibus semanalmente para renovar os filmes alugados. Lembro até hoje das minhas longas conversas com o Wagner Coj, atendente com o qual eu criei uma relação de amizade, ele me recomendava os filmes mais mirabolantes e sempre tentava me ajudar nas minhas andanças pelas prateleiras. No meio do ano passado eu recebi a notícia que a 2001 Paulista iria fechar e que estavam vendendo todos os Dvd’s. Corri para o local, mas já era tarde. A grande maioria dos filmes já tinha sido vendidos. Encontrei um Coj cabisbaixa falando que ele estava estudando para prestar um concurso desses da vida. Caçando muito encontrei três filmes bons e os comprei. Um eu já tinha alugado antes (O Beijo Amargo de Samuel Fuller), outro eu tinha visto no cinema no lançamento (Um Estranho no Lago de Alain Guiraudie) e um eu só tinha recebido recomendação ( Fogo na Planície de Kon Ichikawa) .

Tudo isso aconteceu, e eu nada fiz. Fui levado pela rotina e não dei a atenção devida a todas essas mudanças. Isso me fez mal.

Eu me perdi nesses últimos anos. Por uma série de aspectos. Me perdi profissionalmente, emocionalmente, socialmente. De todas as formas. Eu abandonei uma faculdade, passei um ano no cursinho e agora mudei para uma cidade na qual eu nunca me imaginei morando. Eu troquei de curso completamente, me afastei de muitos amigos e não faço ideia do que esperar do meu futuro. Eu perdi muito do cinéfilo que existe dentro de mim. Não consigo mais ver filmes como antes. Houve uma época que eu via 5 filmes por semana, hoje eu peno em ver um por mês. Mas apesar de tudo eu ainda tenho uma certeza, um ponto seguro, eu amo o cinema.

Eu amo o cinema e vou protege-lo. E é por isso que eu agora estou desabafando tudo isso. Se você estiver em São Paulo entre os dias 20 de outubro e e 2 de novembro tente por favor presenciar uma sessão da Mostra, vale muito a pena. A programação está fantástica, desde a homenagem a Marco  Bellochio até os novos filmes de gênios como Jordonovsky, Bressane, Kyoshi Kurosawa e Kore-Eda. Se você estiver em outra cidade procure algum bom filme e faça uma forcinha para vê-lo, de preferência em um cinema. Alugue filmes na sua locadora se ela ainda existir. Eu mesmo tenho que criar vergonha na cara, parar de assumir tantos compromissos com coisa que significam muito pouco para mim e começar a me dedicar às coisas que eu realmente me importo.

Resumindo: Veja filmes bons dando atenção a eles;  pode dar trabalho, mas vale muito a pena.

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