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A difícil organização do esporte universitário no Brasil e as raízes históricas do preconceito

Por Felipe Paulino Ferreira (Gafanhoto)

Quando se pensa em um modelo de gestão bem-sucedido no esporte universitário, o que vem em mente é o aplicado nos Estados Unidos. Por lá, os principais jogadores das grandes ligas do esporte local (basquete – NBA, futebol americano – NFL, beisebol – MLB…) e medalhistas olímpicos das mais diversas modalidades tiveram seu valor notado, consolidando seu trabalho de formação esportiva, dentro da própria universidade.

Em solo norte-americano, também se destacam outros dois fatores nesta consideração de se aproveitar do esporte universitário para formar bons valores esportivos: a importância dada a formação acadêmica em conjunto a esportiva e a forma como se transforma este modelo em algo rentável.  O primeiro fator é bem exemplificado pelo fato de Stanford, avaliada como a segunda melhor universidade do mundo pela QS, ter uma das melhores e mais tradicionais equipes do futebol americano universitário, enquanto o segundo é frisado pela NCAA, entidade responsável por ditar regras dos esportes na universidade e organizar competições, ter um faturamento superior a Confederação Brasileira de Futebol.

Enquanto isso, no Brasil, a integração entre esporte e educação ainda começa a engatinhar. Algumas instituições privadas oferecem bolsas de estudo e até financiam equipes em diversas oportunidades visando justamente dar oportunidades para estudantes com talento para o esporte tanto em quadra como em salas de aulas, mas ainda assim representam uma parcela minoritária. Já nas universidades públicas, o árduo processo de seleção acaba afastando atletas em formação, além do mais, estas por inúmeras causas contam com empecilhos ainda maiores, visto que o preconceito que reina nos campi com os “estudantes-atletas” é muito grande.

Para entender um pouco deste preconceito ainda vigente frente ao esporte universitário, é preciso revisar algumas raízes históricas de como a prática esportiva começou a se popularizar nas faculdades e observar até mesmo a participação do Estado frente a este processo. As primeiras notícias acerca de disputas entre universitário datam de 1916 com confrontos entre cariocas e paulistas, porém a regulamentação dos esportes dentro dos campi se dá apenas durante o Estado Novo, em 1941, com um Decreto-Lei o qual instituía a criação da Confederação Brasileira de Desporto Universitário (CBDU).

A criação da CBDU pouco alterou o panorama do desporto universitário, revelando a mesma tônica a qual perdura nos dias atuais, relacionada a uma descentralização e desorganização. Isto é frisado principalmente pelo ponto de que, mesmo havendo uma entidade com a missão de ditar ordens e regulamentar as competições, o que se percebe na prática são as próprias Associações Atléticas Acadêmicas, responsáveis por organizar o esporte dentro da própria instituição de ensino, se organizando de maneira independente ou contando, principalmente, com o apoio de entidades paralelas.

Aproveitando a citação, as Associações Atléticas Acadêmicas são a entidade mais relevante no cenário do esporte universitário no Brasil, contudo, ao mesmo tempo são alvo de preconceito por causa tanto de antecedentes históricos, como também de polêmicas contemporâneas. Para entender isso, é preciso retomar aos tempos da Ditadura Militar, quando o governo passou a incentivar bastante tais entidades com o propósito de afastar a força dos centros acadêmicos, tidos como “refúgio” dos estudantes politizados, os quais se mobilizavam constantemente contra o regime.

Esta posição fez com que se desenvolvesse uma visão generalizada e preconceituosa das atléticas serem lar de alienados e de estudantes pouco preocupados, até mesmo, com o seu rendimento acadêmico. Esta visão, mesmo tendo um quê de preconceito, ainda é bastante comum nos dias atuais e é justificada, principalmente, por certas condutas relacionadas a violência tanto física como na forma de preconceito a qual, em algumas oportunidades, era incentivada pela própria atlética como um todo, enquanto, em outras, mesmo que tendo membros isolados como responsáveis, a entidade os acobertava e ainda buscava alguma forma de justificar uma conduta desumana e plenamente condenável.

É claro que o que se notou na contemporaneidade coloca um estigma opressor sobre as atléticas, a qual é facilmente justificável por inúmeros atos práticos, e, por serem as entidades responsáveis por fomentar o esporte dentro das instituições de ensino, obviamente o esporte universitário como um todo dado que a responsabilidade de fomentar a prática esportiva nas instituições de ensino ficava a cargo das associações atléticas e seus membros.

A situação em tempos mais recentes é difusa. Enquanto inúmeras atléticas ainda acobertam e, incentivam, trotes violentos e preconceito, outras alteraram seu rumo e passaram a, inclusive, atuar veemente contra os inúmeros problemas comumente presentes no âmbito universitário, o que veio acompanhado de um processo de profissionalização, vindo a influenciar o esporte dentro das universidades dado que estes vêm, aos poucos, ganhando força e superando os preconceitos oriundos de atos deploráveis daqueles os quais deveriam estar preocupados em fomentar uma atividade que traz inúmeras vantagens para os estudantes.

Dificilmente o esporte universitário será o principal responsável pela formação de talentos esportivos em nosso país, mas a proliferação do conceito estudante-atleta tende a trazer muitos ganhos até mesmo no âmbito acadêmico, visto que a pesada rotina de estudos impostas aos jovens tanto no processo seletivo para as universidades como dentro delas exige uma atividade alternativa, a qual, muito além de contribuir para saúde física, trará ganhos também quanto à saúde mental, a integração social e, até mesmo, para o próprio lazer. Torcemos para a consolidação deste processo se consolidar.

 

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