Edição 14 · x

Das razões pelas quais mentimos, omitimos e manipulamos

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Por Maria Paula Bertran

Confesso que omiti com a intenção de manipular. Socorri-me dos murais e de postagens no Facebook para incitá-los a se interessarem por algo que, se apresentado com objetividade (eu temia), seria desprezado. Se você gosta de CSI, assistiu a todos os episódios de Bones,  virou fã de How to get away with murder e esperava um convite para estrelar em Hollywood ao enviar o e-mail com o tema “Quem matou Odete Roitmann”, peço minhas mais sinceras desculpas por desapontá-lo. Mas para mim, mais importante do que eventualmente desapontá-lo, era chamar sua atenção (ou apenas atrair sua curiosidade) para algo que eu considerava importante. E que eu supunha você consideraria chato ou tedioso se apresentando na forma convencional: um cartaz dizendo: “A Comissão de Graduação oferecerá bolsas para participação do Milionésimo Encontro Brasileiro sobre … os interessados devem enviar um e-mail para… com o assunto… e blá, blá, blá…”

Também vejo o Governo Federal omitir com a intenção de manipular. Meu primeiro exemplo é com Camila Pitanga e Dráuzio Varella dizendo que um mosquito não pode ser maior do que um país inteiro. E que um país inteiro pode acabar com um mosquito se limpar calhas, retirar os pratinhos sob os vasos de plantas e enviar os pneus usados para outra galáxia. Entendo que a campanha queira minorar esses importantes focos. Mas, como cidadã, gostaria de saber que estas políticas nunca serão suficientes (e o Governo Federal sabe disso). As larvas, que sobrevivem até 400 dias sem água, podem eclodir em um oco de árvore, em uma folha, na laje de um prédio, na sarjeta da rua. Todas as medidas profiláticas não alteram o fato de que o Aedes Aegipty se mostra cada vez mais resistente aos agentes químicos (daí que sumiu o fumacê) e sempre será maior que um ou que todos os países.

Mas a minha favorita, também do Governo Federal, é a propaganda a favor do aleitamento materno. “Amamentar é um gesto de amor”. Mentira. Amamentar pode ser muito mais ciência, tecnologia e emergência pediátrica, do que apenas amor. Da propaganda institucional conclui-se que a mãe que não pôde amamentar não amou o bastante. E lá vai ela conviver com essa culpa pelo resto da vida. Ninguém diz que a propaganda a favor do aleitamento materno existe porque amamentar pode ser uma das coisas mais difíceis, dolorosas e angustiantes da vida. Porque uma porcentagem enorme de mães não amamentará, mesmo que tomem doses tremendas do arsenal de medicamentos galactagogos ortodoxos (Motilium, Plasil, Pquilid, Citocinon) e heterodoxos (homeopatia de semente de algodoeiro, chazinho da mamãe, canjica). Não amamentará, mesmo que contem com o apoio fonoaudiólogo para os bebezinhos que nascem sem saber sugar. Não amamentará, mesmo que tenham as condições materiais e espirituais de ouvir suas belezinhas chorarem de fome, enquanto amarram o relactador com fórmula no pescoço, já que a produção de leite só é suficiente para ter uma criança desnutrida.

Entre o primeiro andar e o térreo, na parede ao lado da escada, observei, por várias semanas, a cartolina acusadora do trâmite do novo projeto político-pedagógico: Um campo para preenchimento de datas seguido dos dizeres “Sai do DPP”; “Sai do DFB”; “Sai do DDP”, “Sai do papel”. Por que vocês, queridos alunos, também nos quiseram induzir com omissões?  Sim, era assim que eu li, dezenas de vezes, aquela cartolina: uma cobrança nervosinha contra o paquiderme burocrático. Uma reivindicação de justiça, vigor e renovação contra as corporações entorpecidas e acomodadas. Faltou dizer, no cartaz, que ninguém é contra a justiça, o vigor ou a renovação, em abstrato. Mas que pode não ser tão fácil determinar estes e outros elementos (como o bom, o belo e o equânime) em concreto. Mas, como tentei exemplificar até agora, nem todas as verdades estão destinadas a serem ditas. E estas dificuldades estavam fadadas a serem silenciadas pela propaganda da cartolina que reivindicava que o novo PPP saísse rápido.  Saiu rápido. Poderia ter saído melhor, se com mais vagar? Certamente. Ficou faltando regulamentar, no PPP, os laboratórios e a COC. Dezenas de ementas estão desatualizadas e sem indicação da bibliografia obrigatória. Não criamos um curso que nos tornasse mais diferentes, mais especializados, mais interdisciplinares ou mais vocacionados para qualquer área, em especial. Somos, de roupa nova, mais um dos muitos cursos jurídicos do Brasil. Muito foi feito, claro. Mas acho que se aquele cartaz jamais tivesse existido, poderíamos ter feito um pouco mais.

PS: Agradeço se os presentes ao EnQFor, que escolheram apostar na minha mentirinha, enviem um e-mail para bertran@usp.br e contem se a experiência valeu a pena ou não. Isto poderá nos orientar sobre como estabelecer novas parcerias com a Química Forense.

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