Alunos · Edição 14 · x

“Enquanto o tempo acelera e pede pressa. Eu me recuso faço hora vou na valsa. A vida é tão rara. ”

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Por Danieli Rocha Chiuzuli

Naquele início de 2012, lá estávamos nós a arrumarmos nossas malas, nossas mudanças, nossos contratos de aluguel, enfim, todos os preparativos para começarmos aqueles cinco anos de faculdade. Até aquela lanterna que relutávamos em trazer e que nossos pais insistiam que era necessária, fez seu significado valer no primeiro apagão que aconteceria meses depois.

Talvez a única coisa que não colocávamos ali, naquela imensidão de coisas, éramos nós mesmos. Um desvestir-se de si próprio que rompeu com o ditado de nossos avós de que “só não esquece a cabeça, porque tá grudada”. E foi justamente isso que, figurativamente, esquecemos. A desconstrução da entrada, a reconstrução do caminho e a verdadeira definição de nós mesmos no agora representa essa linda experiência que vivemos. Somos outros, somos mais, somos menos, somos dúvida, somos todas as formas que antes não éramos e que agora projetam-se de nós para sempre.

Essa reconstrução envolveu abandonarmos certos padrões, testarmo-nos em nossos erros, quebrarmos pontos de partida que muitas vezes nos são tão hipócritas. Reconhecer o nosso lugar de privilégio e enxergar o nosso local de fala (muitas vezes descontextualizado) deve ser um ensinamento constante de ressignificação dos nossos caminhos e pensamentos.

Se desde as primeiras aulas nunca soubemos o que é justiça (e nunca saberemos, em hipotético), que saibamos, ao menos, que muitas vezes ao ocuparmos nosso lugar desocupamos o de tantas pessoas e que isso já nos dá o dever de respeito pela vida e o protagonismo do próximo. Que nossos olhares contemplem a diversidade – não sermos protagonistas de uma fala que não nos pertence deve ser nosso sinal, ainda que disperso, de justiça.

Nisso tudo, chegamos aqui e fomos Turma V, a turma mais querida – só que ao contrário. Mas isso, que fique bem claro, só quem é turma V pode falar. Fomos a turma que quebrou, ainda que parcialmente, um trote machista e opressor. A turma que, apesar de gritos invejosos da torcida de “ninguém gosta da turma V”, foi e é vencedora do interclasses (desce o bandeirão!). Somos a turma da Law Law, da Ediglê (que é um apê), do 32 e de tantas outras repúblicas que são lindas e nenhuma outra turma teve. Somos a turma que teve Maurício PPP Buosi que botou esse projeto no peito e mudou parâmetros de ensino para as novas turmas que virão. Somos muitos indefinidamente, somos turma V.

Assim, se pudéssemos usar uma palavra para nos definirmos, essa palavra seria “peculiar”, porque não temos nenhum padrão. Isso faz, apesar de todas as discussões, nossa turma tão diversa e inigualável. União não necessariamente quer dizer um bloco de pessoas indo na mesma direção (isso, para mim, é padrão), mas sim um conjunto de grupos que seguem por direções diferentes e que fazem, cada qual, a eternidade de seus momentos e amizades. E é nesse novo significado de união que a turma V se forma.

Contudo, a dificuldade desses cinco anos apresenta-se agora. Não há aflição que defina a regra de se formar. Dá aquela vontade de pedir ao tempo uma pausa indefinida, uns instantes a mais. Eu não sei ao certo o quanto isso pode doer ainda. Talvez a minha palavra preferida do português (e que só existe no português, por sinal) seja capaz de expressar o que sentiremos (e o que já estamos sentindo): saudade.

Nesses anos que vivemos na faculdade, tantos foram os momentos que nos marcaram. Tantas aulas, festas, jogos, alojamentos, estourandos, “tá fazendo chamada, corre povo”, batuques, provas, textos (lidos ou não), conquistas do pessoal do Najurp, churras, enfim. Nessa vivência, muitas foram as felicidades, as dores, os amores desacertados, os encontros que materializaram vida, os silêncios que calaram gestos, o que poderia ser e não foi, o que não era para ser e foi, enfim, tantos acontecimentos que teceram em nós a dúvida tão particular de viver.

Nesses atropelos, não há padrão hermenêutico que tenhamos aprendido no primeiro ano que permita interpretarmo-nos na exata medida do que somos.

O caminho começou na dúvida e terminará na dúvida. Porque a vida é caminho e tantos outros trilharemos. E é no meio da travessia, como sentiu João Guimarães Rosa, que a vida se dispõe. A vida que, para o autor, também é metaforicamente rio. Que nela ainda nos encontremos e nos percamos mais muitas vezes, no raso e no profundo, no descer e aflorar. É nessa dúvida do que somos e do que seremos que descobrimos que a vida é um eterno devir e, por isso, tão rara.

Um comentário em ““Enquanto o tempo acelera e pede pressa. Eu me recuso faço hora vou na valsa. A vida é tão rara. ”

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