Edição 14 · x

Menos Freixo, mais frente ampla

 

Por Felipe Canaval

Em certa passagem de sua obra mais famosa, Maquiavel recomenda que um dos maiores objetivos de um príncipe deve ser manter-se no poder.

Abominações da teoria liberal à parte alega-se que o florentino não pensava sobre a democracia (menos ainda na brasileira).

Acho que ainda poderíamos nos esforçar para entendê-lo nos seguintes termos: um governo eleito deve se fazer governar, ou seja, não só terminar o mandato (saber resistir a um golpe), como também (em sendo a vontade do povo) fazer seu sucessor.

No plano nacional e durante a atual república, apenas dois presidentes conseguiram tal façanha. Se considerarmos que FHC era o candidato “natural” de Itamar Franco, temos esse último (sob ressalvas), mas, sobretudo, Lula, que emplacou Dilma (duas vezes).

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A vitória acachapante de Dória já no primeiro turno das eleições a prefeitura de São Paulo levou os grandes jornais a estamparem como manchete certa “derrota do PT” – o ciclo “maquiavélico” da perpetuação no poder do Partido dos Trabalhadores teria sido finalmente estancado. No entanto, como as pessoas sensatas, como naquela música do Raul, sabem que não é preciso ler esses jornais, um amigo na FDRP alegava certa má-fé na campanha do janota peessedebista. Dória, que havia sido promovido como “não político”, na verdade, já estava nos bastidores da política desde os anos 80. Como bem lembrou, Dória tinha sido secretário municipal de turismo em São Paulo (1983-1985) e presidente da Embratur e do Conselho Nacional de Turismo durante os anos Sarney (1986-1988).

Quem havia de fato derrotado o PT, seria mesmo o Dória e o PSDB pós-golpe?

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Dilma, antes de Dória e talvez pelo peso de seu padrinho político, foi um sucesso muito maior da onda da “política sem políticos”. A campanha dilmista em 2009 abusou da imagem da gestora competente e imparcial, exigente e imparcial (de novo), técnica e meritocrática – mesmo que em parte para esconder certa e provável inexperiência de Dilma para atividade política. Todos sabemos que essa estratégia deu certo em termos “maquiavélicos”.

Eleita presidenta, Dilma tornou-se a primeira mulher a ocupar o mais alto cargo do executivo nacional, além de o Partido dos Trabalhadores vencer pela terceira vez consecutiva a disputa nacional contra o PSDB, mantendo-se no poder apesar do constante assalto midiático desde o primeiro mandato do já ex-presidente Lula. Havia nessa eleição uma renovação do gesto de apelo do Partido ao apoio da classe média. A eleição de Dilma foi uma espécie de cessar-fogo. A globo (com letra minúscula mesmo), histórica inimigo dos projetos progressistas de Brasil, até convidou a já então presidente para cozinhar no programa da Ana Maria Braga (eu assisti).

Nos próximos meses, a grande mídia, o verdadeiro partido de oposição durante os anos Lula, seguiu Dilma com uma sucessão de epítetos que deixaram as feministas mais aguerridas de cabelo em pé: Dilma era a “gerentona”, a “faxineira”, a “mãe do Brasil” – era mesmo um cessar-fogo?

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Dilma presidenta foi uma negação política.

Durante o primeiro mandato, o centrão fisiológico estava em peso ao lado do governo. Falava-se no fim da oposição. São Paulo alckmista era a alcova da direita peessedebista que, depois de minguar no Congresso Nacional, por fim, ali padeceria.

Dilma tinha como principal meta de governo trazer a política de juros para os níveis da civilização, o que significava acabar com a praga do rentismo que até hoje assola o país. No entanto, não disposta ou incapaz de fazer política, foi tão inábil no jogo de poder que ao invés de conduzir o Congresso acabou conduzida. Acho que essa não seja toda a crise do dilmismo, mas o que nela exista de mais singular.

Dilma desde logo teve de se haver com as contradições que iriam determinar o impeachment. Durante a eleição de 2009, consolidara-se como figura-chave de um partido de “esquerda” mesmo que sem alguma retórica de luta de classes.

No governo, a situação era pior, já que ele era formado por uma agremiação de legendas dispostas a trocar apoio político por cargos no governo. Essa troca de apoio, pragmática e pouco preocupada com valores ideológicos ou com questões de técnica e de competência para a gestão da atividade pública, sempre foi criticada como um dos males mais antigos da política nacional. A própria imagem que Dilma parecia querer criar de si exigia um combate mais que excepcional a essas velhas práticas. Se Dilma não estava com a militância de seu partido, nem com os conchavos do Congresso nacional, a quem ela governava?

Outros problemas vieram, como as manifestações em 2013 e o agravamento da crise internacional. E ao fim de seu primeiro mandato, não só não havia conseguido aquilo que se propusera, (reduzir as taxas de juros), como ainda participou atônita de alguns retrocessos sociais, sendo o novo Código Florestal um exemplo.

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Uma das poucas vitórias da esquerda nesse segundo turno de eleições municipais, o PSOL de Freixo parece seguir o mesmo caminho da ex-presidenta.

A campanha do psolista parece não estar disposta a se fazer o que geralmente se faz quando se quer ganhar uma eleição em segundo turno, isto é, expandir o eleitorado fazendo alianças políticas, sem, é claro, ferir o orgulho ideológico do eleitor, mas explorando os pontos fracos do oponente para atrair os eleitores indecisos e não radicais. O PSOL, no entanto, parece estar disposto apenas ao radicalismo.

Em um momento em que figuras históricas do PT sofrem um flagrante processo de perseguição pelos setores golpistas, durante um recente debate na televisão, Freixo se pegou com Crivella ao discutir quem esteve mais tempo contrário a Lula e Dilma. Jandira Feghali, candidata do PCdoB derrotada no primeiro turno, já vinha manifestando a ideia de solidariedade entre as candidaturas de partidos de “esquerda” no Rio e nacionalmente. Freixo não parece estar disposto a isto, e sua disposição em manifestar seu anti-petismo leva a crer que ele esteja mais interessado na simpatia do eleitor de “direita” e dos radicais.

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O PSOL, mesmo que esteja sempre se batendo contra os ditos “fascistas” da política nacional, defende uma política de sectarismo, sem espaço para alianças programáticas, lembrando àqueles que se opõe. Seu sectarismo talvez seja mais “puro” por que trazido para o campo político, onde genuinamente se manifesta e se opõe a manifestação sectária no campo moral e religioso ou ainda no campo dos valores da sociedade civil, os dois perfis da manifestação política da “direita” radical brasileira. O eleitor indeciso ou moderado, aquele que não se vincula a nenhum desses campos exclusivamente, tem pouca simpatia por um candidato que aposta em apenas um dos campos da disputa política. O resultado vem nas pesquisas de intenção de voto. Elas confirmam a sina do PSOL de representar segmentos da classe média não alinhados com as políticas neoliberais. Nos bairros populares, Crivella nada de braçada.

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O PT falhou em Dilma e em Haddad. O marketing do recém-chegado a política funciona só uma vez, já que, por óbvio, se pleitear o segundo mandato, o antes inexperiente já não mais o será, além de pesar sobre ele as expectativas hors concours. Dória se usou disso para vencer Haddad.

Freixo, por certo, nem mesmo pode se valer de tal discurso. Além de não ter um padrinho político, seu anos de militância na Assembleia Legislativa do Rio, não permitiriam que ele se buscasse fazer imagem de ser um recém-chegado. Por outro lado, a militância psolista pode ter passado incólume a certa decadência que vem enfrentando o PT, mesmo que sua “pureza” tenha se dado à custa de ver o poder político como miragem. Pois, se nem mesmo o fisiologismo governa sozinho (li na revista exame a seguinte definição: “O PSDB é o PMDB do PMDB”), quem diria então um ramo da esquerda sectária?

No meu artigo Michel Temer ou o desejo de opressão, publicado na edição passada do Ócios de Ofícios, eu escrevi sobre a união das “esquerdas”, partidárias e não-partidárias, para um união capaz de enfrentar o golpe: “Michel Temer está aí, é preciso desacreditá-lo. (Onde está Sérgio Moro?). Grupelhos, comunas, sindicatos, naturebas, coletivos, defensores da causa animal, feministas, ambientalistas, negros, LGBTs e os partidos verdes e os vermelhos, enfim, qualquer bando que flerte com o esquerdismo, vamos reforçar o trabalho analítico sobre nós mesmos para ampliarmos o trabalho político de militância contra o golpismo, Temer, Édipo, o capitalismo, a repressão, e toda espécie de falso ídolo ou de religião que não faça o homem.”

Eu estava falando da união das “esquerdas”, o que no campo político veio a se consolidar com a formação de uma ampla frente de partidos de “esquerda”, uma ampla coligação de partidos de esquerda disposta a barrar nas urnas o avanço conservador, ou, como relata a folha: “uma grande coalização que reúna, além de partidos, sindicatos, associações, movimentos de esquerda, intelectuais e artistas em torno de um programa”.

Embora ainda não haja consenso em torno da ideia, existem resistências dentro do próprio PT e o fato de o nome de Ciro Gomes como candidato presidenciável em 2018 causa polêmica.

Eu penso que a esquerda precisa convergir pela razão política de ascender novamente ao poder. Deixar-se ser massacrado nas urnas é um páthos do PSOL.

A utopia, necessária nos anos PT, precisa ser adequada aos anos Temer. Em outras palavras, a esquerda precisa abandonar o sectarismo característico dos anos PT e concentrar seus esforços para barrar a ameaça que o governo Temer representa ao pacto civilizacional inscrito na CF/88.

Como último clamor, eu digo: “Esquerdas”, sejamos “maquiavélicos”!

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