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Morte e Vida Transferida

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Por Bruna Ceotto

A esta altura da graduação, eu já ouvi um número considerável de discursos de formatura. Sem pretender qualquer ofensa à originalidade de cada um, à sua maneira todos são muito similares e nenhum deles chegou a falar (não realmente) pelos transferidos, doravante “transfers”, essa entidade tragicômica que podemos encontrar facilmente pelos corredores, saltitando de uma turma para a outra numa tentativa hilariante de cumprir todo crédito que se deve. E quem deve, teme. E o medo é não chegar a ouvir o próprio discurso de formatura antes dos oitenta anos.

É comum você ouvir um orador de turma entoar o que eu gosto de chamar de Os Cinco Clichês Fundamentais do Discurso de Formatura, quais sejam: (i) a alegria incontrolável de passar no vestibular e se livrar do cursinho; (ii) a descoberta de que o vestibular nunca foi um desafio, e que a dificuldade mesmo está em conseguir se formar (insira aqui uma risada em escárnio); (iii) a chegada a uma nova cidade recém-saído das fraldas, sem saber fritar um ovo; (iv) a amizade resiliente da turma, engendrada ao longo de cada dia de graduação; e, por fim, (v) a noção de que os últimos cinco anos foram os melhores de suas vidas.

Lágrimas por todo salão. A identificação é geral.

Minha vez. Deixe-me apresentar a Vida Transferida, de clichês muito próprios, os quais eu pude enumerar após alguns anos de conversas indignadas na Fonte, entre um cigarro e um café.

Começaremos pontuando o óbvio: se você é um transfer, você não passou no vestibular. Não vou entrar no mérito das frustrações pessoais pois, para ser bem sincera, estas se tornam irrelevantes com o decurso do tempo. Mas fatos são fatos: o vestibular chegou e passou, e não te aprovou. Vida que segue. Existem faculdades tão boas quanto A Melhor do Brasil. É só um Nome. Ninguém precisa de um Nome para ser bom em alguma coisa.

E você se matricula em outro canto e começa a sua vida universitária, sempre perseguido por aquela consciência que você não sabe de onde saiu: “se eu estivesse lá, estaria melhor”. E depois de alguns anos de autoaversão por não ter coragem de ir atrás do que você quer, você decide pôr fim à sua miséria e fazer a Prova de Transferência. Não parece tão difícil. Você já está há algum tempo lidando com Direito, e não é nenhum incompetente. A primeira fase também não parece ser o fim dos tempos, apesar de você estar meio enferrujado em História ou Geografia. Você faz a inscrição.

Por que diabos eu fui fazer isso com a minha vida? Amigo, se você sobreviveu àquela prova, a alegria de passar no vestibular da FUVEST – ainda que você não a conheça – não pode ser maior do que essa sensação de que você deveria receber uma carta de retratação da banca examinadora do vestibular.

Ou, pelo menos, é o que parece, pois é dada a largada da maior corrida de obstáculos de que se tem notícia, a dizer, sua tentativa de se formar em tempo razoável. Você vai até a Graduação e elabora cuidadosamente seus pedidos de Equivalência. É bem simples: carga horária e conteúdo compatível, em geral, são o bastante para que a Faculdade considere que você já viu o suficiente daquela matéria, e que não seria necessário cursá-la de novo. Só que isso não acontece quase nunca.

O que, na prática, tem duas consequências: uma delas é você ter que exaurir a via recursal administrativa, de modo a importunar os examinadores de tal forma que, por desistência, eles lhe concederão o aproveitamento de estudos; a outra é tomar a desistência para si e cursar a matéria de novo.

É uma aporrinhação sem fim, mas você não tem escolha. Você precisa dos créditos. Essa Faculdade é integral e tem três vezes mais obrigatórias do que você tinha na sua faculdade de origem, então você abdica de tudo que há para se abdicar e dá um jeito de enfiar tantas disciplinas quanto puder na sua grade horária – mesmo que isso signifique passar mais tempo na faculdade do que você passa dormindo (o que, se você parar para pensar, é mais de um terço do seu dia). E, no meio tempo, você tem que existir: não saber fritar um ovo não é um problema de verdade. O problema é não ter tempo de fritar ao menos um ovo, porque você precisa daqueles cinco minutos para ler aquele texto ou fazer aquele trabalho.

Bom mesmo é quando alguém, em seu período regular, vem reclamar que não está dando conta. No começo você até tenta explicar o que é essa vida, mas depois de algum tempo só libera uma risadinha nasal, seguida de um “eu te entendo”. Eles é que não entendem.

Claro que conhecemos pessoas fantásticas, inspiradoras, que nos arrancam uma risada genuína no meio de um dia muito ruim. Fizemos bons amigos. Mas boa parte da convivência em uma Universidade é justamente a noção de grupo, de olhar para o lado e ver alguém que está como você; e muitas vezes o transferido se depara com a necessidade de se virar sozinho, pois sua condição é sui generis: cada transferido tem a sua trajetória, e uma jamais será igual à do outro.

De repente, bate uma saudade monstruosa daquele lugar que tanto te incomodava, do qual você não via a hora de livrar. E com um telefonema, já te lembram que a escolha foi sua – e isso parece anular o seu direito de estar insatisfeito. Você conclui, então, que não é que você deseje voltar atrás. É só que você sente falta da simplicidade – leia-se não ter de dispensar um esforço sobrenatural à persecução de um diploma universitário –, de fazer parte de uma identidade. De não ter que enlouquecer em dobro para obter o mesmo resultado.

De não ser uma exceção.

E quanto à Faculdade, você tenta não se importar, mas a esse ponto você já adquiriu uma consciência que vai além de você e dos seus problemas egoísticos. E você quer atingir os seus objetivos não só por você, mas também pelos que virão depois de você. É por isso que um transferido sempre ajudará o outro de bom grado: pois, sendo bem honestos, só nós sabemos com quantos recursos se faz uma equivalência.

Portanto, se você é um transferido, esteja certo de duas coisas: uma é que, embora não pareça, você vai conseguir se formar – ah, a formatura! A Morte a esta Vida, e todos os clichês a ela inerentes. A outra, bem: já foi muito pior, e vai ser muito melhor. A sua vida tem muito mais do que “cinco melhores anos”. Um ano é melhor que o outro. E no final do túnel, há um time de exceções, cada um à sua maneira, te esperando de braços abertos.

E valeu a pena.

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