Edição 14 · x

Platão e o Snapchat

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Por Guilherme Marcolini (Yoshi) – T.VII

Platão, um dos maiores – e mais lidos – autores de toda a humanidade, curiosamente tinha uma relação problemática com a escrita: em seu diálogo Fedro, ele vê a escrita como algo prejudicial a humanidade, capaz de obstar o acesso ao verdadeiro conhecimento. É célebre a metáfora enunciada em tal diálogo por Sócrates, consistente na apresentação, pelo deus egípcio Thot ao Faraó Thamos, de vários inventos destinados a ajudar a humanidade; quando o deus apresenta a invenção da escrita como “remédio da memória e da sabedoria”, entretanto, o Faraó a rejeita, dizendo: “Essa descoberta, na verdade, provocará nas almas o esquecimento de quanto se aprende, devido à falta de exercício da memória, porque, confiados na escrita, recordar-se-ão de fora, graças a sinais estranhos, e não de dentro, espontaneamente, pelos seus próprios sinais. Por conseguinte, não descobriste um remédio para a memória, mas para a recordação. Aos estudiosos oferece a aparência da sabedoria e não a verdade, já que, recebendo, graças a ti, grande quantidade de conhecimentos, sem necessidade de instrução, considerar-se-ão muito sabedores, quando são, na sua maior parte ignorantes”. Platão via, portanto, a escrita, como uma falsa fonte de sabedoria, porquanto um texto escrito, na qualidade de receptáculo de conhecimento, inibiria o exercício da memória, e da fonte do verdadeiro conhecimento e das ideias: a reflexão pela alma.

Transmutando-se para a realidade contemporânea, ouso dizer que Platão nunca esteve tão atual – cabe, entretanto, fazer uma ressalva: este texto, muito embora pareça, não é nenhum lamento saudosista, mas sim, um convite a uma reflexão crítica sobre os fatos de nossos dias. Isto porque nunca se esteve tão em voga mídias sociais como o Instagram ou o Snapchat. O que teriam, entretanto, estas mídias a ver com Platão?

Basta ver o lema do Snapchat, presente na descrição do aplicativo nas lojas virtuais e mesmo no site oficial: “A vida é mais divertida quando você vive cada momento.” A partir disso poder-se-ia dizer, então, que o Snapchat seria uma ferramenta que se propõe a intensificar a vivência de cada momento ou então de torná-los mais divertidos. Isso não se pode negar: o compartilhamento de informações, fotografias, etc via Snapchat pode render boas risadas ou mesmo boas – apesar de breves – recordações.

Entretanto, o que tenho observado, em minha humilde experiência, é, tal como ocorrera com a invenção de Thot, o efeito oposto ao propósito enunciado pelo aplicativo, qual seja: as pessoas, mais e mais, estão deixando de viver seus bons momentos em prol de registra-los via “snap”. Não mais se assiste a um show: filma-se; não mais se admira uma paisagem: fotografa-se, e com isso, toda a sensação, todo elemento capaz de gerar boas memórias e boas recordações de bons momentos se esvaem num quasar feito de telas, filtros e “emojis”.

E isso não faz do Snapchat um “depósito de memórias”, como um álbum de fotografias ou – para os conhecedores – a Penseira de Dumbledore. E isto porque cada momento ali registrado tem duração quase instantânea, antes de retornar ao pó cibernético do qual proveio. Aliás, até se poderia, de fato, encarar o Snapchat como a Penseira de Dumbledore, apenas com a ressalva de, ao invés de estar recheada, como nos livros, de pensamentos e memórias dissolvidos, estar preenchida pela fluidez da modernidade líquida em que vivemos.

Assim, é de se perceber que, ao contrário do que se propõe, o Snapchat não dá a seus usuários meios para conseguirem uma vida mais divertida vivendo cada momento, mas sim, uma ferramenta para registrar mecânica e brevemente estes momentos, sobrepondo-se, muitas vezes, ao real significado de vivê-los, tal como a escrita, para Platão, teria o propósito de trazer aos homens mais sabedoria e mais memória, mas que na realidade era apenas um meio de registro que transmitia apenas uma sabedoria aparente, tolhendo o exercício de memorização e produção efetiva do conhecimento.

É nesse sentido que, por fim, tal como John Lennon certa vez disse ser “a vida o que acontece quando você está muito ocupado pagando contas”, ouso dizer que, nos tempos presentes, a vida é o que acontece a nós todos – e eu aqui me incluo – quando estamos muito ocupados tirando snaps.

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