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SALA DE AUDIÊNCIA, silêncio

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Por Gabriel Schincariol Cavalcante

            Ele chegou às três, que era o horário, mas agora já passava das cinco e ele ainda estava lá, esperando. Ficou sentado em silêncio num grande banco de madeira sem encosto, esperando alguém chamar seu nome. A mãe saiu para fumar, e ele achava melhor assim, porque era uma forma de não a encarar. Estava lá por que recebeu o mandado de intimação para a audiência. Sabia que esse dia ia chegar, mas mesmo assim torceu para que não chegasse. Obviamente, em vão. Tudo aconteceu muito rápido. Em quinze anos. Desde que ele nasceu e nunca teve nada e tudo o que aprendeu na escola foi escrever seu próprio nome. Cresceu assim, sem ter nada e nenhuma educação. O pai foi embora cedo, tão cedo que ele nem se lembra do rosto, e a mãe fez o possível, mas ela própria não tinha nada além de uma aposentadoria por invalidez e um ódio constante no coração. Olhava para o filho e via o pai. E lembrava que, mais uma vez, havia sido deixada para trás. Ele achou conforto da porta para fora. Descobriu que um baseado tornava as coisas mais toleráveis e que pinga o suficiente poderiam fazê-lo dormir sem ter pesadelos. Isso foi muito rápido: ele não tinha nem completado doze anos. A mãe, quando conseguia enxergar através da mágoa e via o rosto do filho, tentava mudar as coisas. Não conseguia, porque a dor logo voltava e ela se recolhia num canto com seu cigarro, esperando o tempo passar e levar mais esse homem que fazia parte da sua vida e ela amava, porque ela não poderia deixar de amar, no seu próprio jeito doloroso e estranho. Fosse por decisão própria, fosse pelas mãos de alguém, fosse enterrado pelo vício ou pelo projétil disparado da arma empunhada por um policial com sua própria dor, numa perseguição ou num acerto de contas. Apesar disso, ele sempre pedia a bênção da mãe. E saía para a rua na certeza de estar protegido. Tinha quatorze anos. Em casa não tinha nada: uma cama velha e um sofá velho e uma tevê também velha, que só funcionava de vez em quando e num só canal, e uma bola de futebol que ele ganhou de um tio que sempre visitava a mão e pedia para ele sair de casa enquanto os dois estavam lá. Na escola ele não entendia nada e ninguém se importava em explicar. Aprendeu o próprio nome e isso bastou. Queria mais. Foi atrás. E aí tudo aconteceu. Descobriu que a maconha, quando vendida, rendia dinheiro, porque gente rica pagava para se sentir livre, e dinheiro comprava quase tudo – ou tudo que ele nunca teve. Mas não queria vender – não era por consciência ou compreensão do bem e do mal, era por medo da polícia chegar e ele acabar como tantos outros. Mas queria ter alguma coisa, qualquer coisa, e não sabia como conseguir. Fumou um baseado e tomou coragem. O senhor passava com o celular na mão, indo em direção ao carro, e era um celular bonito, e o senhor não estava muito atento. O menino queimou o final do baseado, levantou, saiu de trás de um poste e correu, tenso e suando: num passo, tomou o celular e desapareceu virando a esquina. Parou logo depois, nervoso, ansioso, um pouco satisfeito. Ele tinha algo. Que não era dele. Não durou: sentia culpa. Tudo muito rápido. Voltou atrás do senhor e pediu desculpas. O velho aceitou, agradeceu, ofereceu carona, onde é que você mora?, e ele aceitou, porque ele não aprendeu nada. Acabaram no DP.

            Três meses depois ele recebeu o mandado. A mãe se recusou a atender quando o oficial chamou na frente da casa sem número, identificada pela cor e pela letra H. Desde que ele foi para o DP, ela não sentia mais ódio. Era como se já houvesse ido embora. Ele não existia mais e ela estava certa mais uma vez. O oficial leu o que estava no mandado e perguntou se o menino havia entendido. Havia. Perguntou se ele sabia assinar. Com um estranho orgulho, respondeu que sim. A mãe precisava assinar, também. Recusou-se. O oficial certificou e deu fé. O menino pegou o papel e a caneta e assinou, no fim da folha: Josué dos Santos, num garrancho horrível. Quando ensinaram para ele como escrever seu nome, talvez já soubessem para que serviria.

            Agora ele estava lá, esperando desde as três. À sua frente um longo corredor, o chão cinza, as paredes de madeira. Pendurados nela estavam vários quadros. Todos com o mesmo tema: o bucolismo, que o menino nunca aprendeu numa aula de literatura que nunca teve. Campos abertos, um vaso de flor, aurea mediocritas, uma casa no sítio e um girassol. Todos enunciando a liberdade. Todos em contraste com o chão de concreto gelado e as portas das salas com janelas pequenas e na frente escrito em letras douradas: SALA DE AUDIÊNCIA, SILÊNCIO. Parece irônico que tenham colocados aqueles quadros ali, e é. Chamaram o seu nome: Josué dos Santos, e ele se levantou, angustiado por que a mãe não havia voltado. Caminhou sozinho para dentro da sala, reparando em um dos quadros. Era um campo aberto com muito verde e amarelo, parecendo uma vasta plantação. Pensou que aquela imagem dava uma vontade danada de correr, correr pela grama sem direção, correr e ser livre. Ele não conhecia o bucolismo. Ao entrar na sala, ele também deu adeus à liberdade.

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