Alunos · Expressão · opinião · x

Nove andares abaixo do solo

Por Duda Hidalgo, aluna da TX

“No inferno os lugares mais quentes são reservados àqueles  que escolheram a neutralidade em tempos de crise.”

-(Dante Alighieri)

Olhava para aquele gigante de metal passando mais rápido do que a deusa Diana seria ao caçar, mas dessa vez a presa era eu.

Até que enfim ele ficou estático, assim como uma cobra antes de dar o bote, mas dessa vez a presa era eu.

As portas se abriram e uma manada enfurecida as atravessou, hesitei em encarar o mesmo trajeto em vista da quantidade de corpos espremidos nas entranhas do gigante, para eles era só mais uma tarde típica na estação da luz, mas para mim era um pesadelo interminável, e aquele pequeno momento de hesitação foi o suficiente para que as portas se fechassem e logo prolongassem o meu sofrimento por antecipação.

E lá foi ele de novo, com uma rapidez estonteante, desaparecendo na escuridão.O vento embaraçou os meus cabelos e produziu em mim calafrios.

Alguns minutos se passaram, e lá estava ele de novo, dessa vez sabia que teria que agir rapidamente, então posicionei as minhas mãos nas rodas laterais da minha cadeira de rodas e comecei a movimentar-me.

Esperei que o fluxo diminuisse, e precisei de grande habilidade para encarar um desnível de cerca de dez centímetros entre a composição e a plataforma da estação. Em meio a este processo olhei para baixo , e vi o enorme abismo que poderia me transformar em jornal, assim como os muitos outros que já haviam alí caído, e a maioria nem era debilitado como eu.

A minha mão escorregou tangenciando a superficie áspera da roda e ralando a palma da minha mão , cuja dor embriagava a minha mente já turva devido ao medo.

Uma gota de suor escorreu pela minha face. O tempo estava acabando, as portas se fechariam e quase me esmagariam antes de o sensor funcionar.Minha pulsação aumentou por causa da adrenalina que intoxicava o meu corpo, conseguia sentir os meus músculos se contraindo , talvez não fosse o suficiente , o atrito das rodas de borracha no ponto de contato com o chão me exauria, até que finalmente consegui.

Enfim estava dentro, e uma paz interior se espalhou pelo meu corpo, pena que foi uma sensação apenas passageira, pois quando eu olhei em volta, e vi alguns olhares de desgosto queimando a minha pele em meio a olhares enluarados de pena , mas não de pena o suficiente para terem me ajudado. isso doía mais do que a escoriação na minha mão que pulsava irradiava pelo meu braço .Já estava acostumado a driblar olhares,mas não conseguia ignorar a minha audição, eu sabia que estavam falando de mim , eu podia ouvir os sussuros, apesar de eles aparentemente pensarem que não.

 

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