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Samurai Jack, um desenho nada infantil

Por Thomas Garcia (Palmirinha) – TIX

[Esse texto contém possíveis spoilers]

 

Depois de 13 anos, Genndy Tartakovsky trouxe de volta um dos seus desenhos mais ilustres. O canal Adult Swin está produzindo uma nova temporada da animação que promete concluir a saga do Samurai perdido no tempo. A nova temporada terá 10 episódios, 4 dos quais já exibidos.

Samurai Jack conta a história de Jack, um samurai que no passado teve de enfrentar Aku, um demônio mestre em magia negra, para livrar seu reino do domínio deste. Jack conta com uma espada mágica que consegue machucar Aku, diferente das armas normais. Quando estava prestes a desferir um ataque derradeiro no vilão, Jack é surpreendido por um feitiço que o envia para um tempo futuro. Nesse futuro, Aku domina um mundo feito por criaturas humanoides bizarras e robôs assassinos. Jack pretende, então, voltar ao passado para impedir que esse futuro seja verdadeiro.

O desenho pode ser considerado um ponto fora da curva em qualidade. Algo corriqueiro com o envelhecer é perceber que os desenhos e séries que a gente assistia na infância não são tão boas como na nossa memória. São poucas as séries que sobrevivem ao passar do tempo, a inocência infantil não permitia perceber o quão apelativo era muito do conteúdo dos desenhos que passavam na televisão. Por isso, é de cair o queixo revisitar uma obra da magnitude de Samurai Jack[1].

A série tem muitas qualidades, destoando de grande parte do que se pensa num desenho infantil. A começar pelo seu design icônico. Uma animação em duas dimensões, com um traçado minimalista. Há uma sutileza rica presente tanto na construção de personagens quanto nos maravilhosos cenários construídos. O uso das cores amenas, formas geométricas e  traços leves contribuem para a tom único do show.

Além disso a direção é muito bem feita, conseguindo tirar o máximo de todas as situações. Na medida em que o plot dos episódios são simples, a direção ganha destaque. As cenas de ação são muito bem construídas. Diferentemente da maioria dos filmes de super-heróis de hoje em dia, nos quais não entendemos nada do que está acontecendo com várias luzes, tiros e movimentos de câmera inúteis, no desenho conseguimos entender cada etapa dos confrontos, os quais tendem a serem longos. O tempo é muito bem utilizado no desenho como um todo, não sendo necessário correr para jogar mil informações, o que complementa o lindo design permitindo que este seja visto adequadamente e não deixado em segundo plano. É visível como há uma preocupação cinematográfica, como quando a série altera o aspecto de tela, abrindo de um aspecto quadrado a um retangular, no intuito de enfatizar algumas situações ou retratar melhor algum cenário[2] ou quando é usado o splitscreen. Isso tudo sem perder a noção de que é um desenho, e conseguindo utilizar dinâmicas somente possíveis nesse formato, como uma transição mais agradável entre cortes, e abrindo os limites da imaginação na criação de personagens, armas e construções.

É impossível desassociar essas qualidades do formato utilizado para concebê-las. Os episódios de Samurai Jack  não tem roteiristas, buscando deixar o trabalho todo de criação da dinâmica do episódio diretamente para os artistas de storyboard, esses tendo como base um breve comentário do que irá acontecer. A toda uma concepção para que o desenho fosse o mais visual possível, com coreografias que conseguissem passar drama nas cenas de ação e profundidade para a obra.

Ouso dizer que Samurai Jack sempre foi uma série adulta, pela sua inteligência e falta de apelação. Vale muito a pena revisitar as temporadas antigas.

Nova Temporada

A nova temporada se passa 50 anos após Jack chegar ao futuro. Atormentado pelo constante fracasso em retornar ao passado, ele percebe que o passar do tempo não surtiu efeito em seu corpo, que se mantém novo. Jack fica vagando em um marasmo constante enquanto velhos e novos inimigos buscam destruí-lo.

É interessante perceber algumas coisas. Tartakovsky não quis fazer uma nova série, ele preferiu lançar uma nova temporada da mesma série que se passava em no começo dos anos 2000. É uma decisão corajosa na medida em que houve grandes alterações na série, é ele deixa claro que o Jack que a gente conhecia ainda está dentro desse novo personagem que nos é apresentado.

O Jack atual passou por toda uma remodelagem, que vai muito além do cabelo solto e da nova barba. O passar dos anos, mesmo que não tenham feito seu corpo envelhecer, afetaram profundamente o psicológico do personagem. Sua coragem foi fragilizada, de algum modo ele perdeu sua espada mágica em combate, o que faz ele não ter mesma confiança dos primeiros anos de sua estadia no futuro. Mais, a culpa pela destruição da humanidade nunca esteve tão presente. Tudo isso atualiza o personagem, sem tirar aspectos fundamentais de sua personalidade como a honra e a complacência.

O desenho também teve que se reinventar, em vários aspectos. O design geral foi levemente alterado na medida em que foi digitalizada a produção gráfica. Da para perceber que eles tentam minimizar o máximo possível essa alteração, tentando reproduzir a identidade visual antiga, ao mesmo tempo que as cores ficaram mais escuras para acompanhar o novo tom do desenho. Outra alteração veio no conteúdo do desenho, que ficou mais adulto (o que faz sentido na medida que o desenho passa no Adult Swim). A temática da depressão é constante nessa nova etapa, com várias sugestões de que Jack desenvolveu tendências suicidas. Além disso, o sangue começa a estar presente. Nas antigas temporadas, nunca teve confrontos diretos com humanos, o inimigo sempre era ou um robô ou alguma forma sobrenatural. Isso provavelmente era feito para disfarçar a violência, o que não mais é necessário. A violência agora é mais explícita. Isso poderia ser muito ruim caso a série deixasse a violência somente como um atrativo babaca para chamar telespectadores. Não é isso o que acontece, a violência é problematizada e muito bem abordada na nova temporada. Jack vai ter que aprender o que significa tirar uma vida.

Fica a dica.

OBS: Link de dois documentários Macking Of muito legais nos quais os produtores explicam um pouco sobre a série: https://www.youtube.com/watch?v=OO-ZttwP8oc / https://www.youtube.com/watch?v=FT6yhhfiUh8

[1] Esse é um tema que valeria um texto próprio, revisar os desenhos de nossa infância é quase jogar na loteria. A lógica de séries de vários episódios isolados, sem continuidade, muitas vezes diminui as obras, que têm alguns episódios bem elaborados e um marasmo de encontros genéricos que não levam a nada. Outra coisa é que muitos produtores confundem a ideia de desenho infantil com desenhos para idiotas.

[2] Os closes constantes nos olhos de Jack lembram muito o modo como Sergio Leone filmava Clint Eastwood em The Good, The Bad and The Ugly.

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