Além da sala de aula · Cansei de estudar... · Expressão · opinião

13 Reasons Why

Por Duda Hidalgo

“There is more to the picture, than meets the eye.”

– Hey Hey, My My (Into The Black) de Neil Young

Baseada no livro “Thirteen Reasons Why”, de Jay Asher, e adaptado por Brian Yorkey a série “Thirteen Reasons Why” conta a história de Hannah Baker, ou melhor dos 90% dos jovens atendidos em emergência psiquiátrica que chegam lá após tentativas de se matar.

Ao contrário da tradicional carta,a jovem conta os motivos que levaram a sua morte em 13 fitas destinadas às 13 pessoas que contribuiram para sua decisão de se matar . Tais fitas relatam atos de bullying (inclusive virtual), assédio, LGBTfobia, estupro,  machismo e omissão. Estas situações reconstroem o cenário em que o suicído se transformou em uma forma de evasão de uma realidade a qual aos olhos Hannah não valia a pena viver.

Essa sensação de que não há escapatória e a predisposição a ações impulsivas é comum em jovens, pois o seu lobo frontal não é ainda completamente desenvolvido. Por esta razão  a faixa etária entre 15 e 19 anos registrou o maior aumento de mortes entre 2000 e 2012. Este é um assunto que é tido como um tabu, se mantendo sempre à margem da ação jornalística.

Esta série trouxe a atenção ao suicídio, um tema que é tratado como invisível, tão invisível quanto Hannah afirmava se sentir. Essa espécie de acordo informal em que a mídia, na maior parte dos casos, ignora o suicídio é problemática.

Um dos problemas é que o suicídio é um debate que é evitado a todo custo por supostamente estimular atos suicídas , o chamado ‘efeito Werther’, que recebeu esse nome por causa do romance “Os sentimentos do jovem Werther” ecrito por Goethe, em que após sofre uma desilusão amorosa se matou. Mas na realidade o problema não é falar sobre tal ato, mas sim a maneira em que se fala, revelando a distinção entre estimular, noticiar e debater.

O livro “Os sentimentos do jovem Werther” romantiza a morte. Goethe não escreve, ele transborda pelas páginas do livro alcançando um grau tão alto de envolvimento do leitor, que este passa a crer que a decisão do protagonista é sã e completamente racional.

A série pecou em mostrar explicitamente a cena de suicídio no 13° episódio, pois é expressamente não recomendado Pela Associação Americana de Prevenção ao Suicídio pela possibilidade de auxiliar os telespectadores na maneira de se suicidar.Entretanto, se pensarmos bem, alguém que realmente tivesse a intenção de se matar poderia facilmente obter através de uma simples pesquisa no Google aproximadamente 551.000 sites em 0,58s , dentre os quais se encontram diversos manuais sobre a maneira mais adequada de dar cabo a própria vida. E segundo os produtores da série esta cena foi intencionalmente posta com o intuito de gerar desconforto e mostrar que a morte não vale a pena. Além de ao longo de toda série retratarem os efeitos colaterais da morte, em que Hannah por exemplo magoou pessoas das quais não tinha a intenção, como os seus pais.

Um dos motivos para o tema do autoextermínio ser pouco recorrente na mídia se dá devido ao  Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros  levantar a discussão da invasão de privacidade dos familiares, argumento que não se aplica neste caso por se tratar de personagens fictícios.

Outro motivo é ,segundo o manual de redação da Organização Mundial da Saúde (OMS), que a notícia sobre o suicídio não deve servir de exemplo para que as pessoas consigam resolver seus problemas pessoais. A questão não é “será que o meu entretenimento vale a vida de alguém?” , mas sim ” Será que a minha indiferença e apatia podem contribuir para a morte de alguém?”. Clay Jensen é o  11° destinatário das fitas , entretanto é o primeiro a fazer algo a respeito do conteúdo destas se tornando uma espécie de justiceio moral. Ou seja, as 10 pessoas que o antecederam, além de serem acusados de apatia durante a vida de Hannah continuaram fê-lo mesmo após a sua morte, mesmo havendo até mesmo a denúncia de crimes. Tal indiferença levou ao ponto de no seu último dia de vida Hannah dizer a seguinte frase “Some of you cared, but none of you cared enough.”(Alguns de vocês se importavam, mas nenhum de vocês se importou o suficiente.”).

É absolutamente necessário se manter  atento aos sinais que muitas vezes banalizamos e que revelam uma realidade que se esconde bem em baixo de nossos narizes. Como é retratado também através da personagem Skye, que já cometeu tentativas de se matar, mas o seu verdadeiro estado psicológico era quase imperceptível para as pessoas ao redor. O que reflete a realidade, logo que a maior parte dos casos que chegam na emergência são de reincidentes, pois infelizmente ainda é comum apenas tratar o ferimento e mandar o paciente para casa sem dar o devido tratamento psiquiátrico.

Essa crítica à negligência perdura ao longo de todos os episódios vista por exemplo na escola, na qual foi criado um programa de prevenção quando já era tarde de mais. Ou por exemplo na figura do Sr. Porter, destinatário da 13° fita, que como conselheiro da escola ao ouvir a externalização dos sentimentos da jovem no dia do seu suicídio não tomou nenhuma medida.

É claro que não é correto apenas culpabilizar o Sr. Porter, pois assim como ele não era um ouvinte preparado e capaz de indentificar os diversos sinais emitidos pela jovem, principalmente de transtorno de stress pós traumático, esta foi incapaz de verbalizar com clareza. Hannah em diversos momentos da série hesita em pedir ajuda, talvez por não saber como ou simplesmente pelo medo de ser incompreendida.

Uma das funções da arte é desmascarar a realidade, mostrando-a nua e crua na tentiva de mostrar o mundo como mutável. As notícias revelam eventos passados, enquanto a arte avisa sobre os eventos futuros antes que seja tarde. E quem somos nós para ignorar tais avisos ?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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