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Em Defesa Dos Clássicos

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Por Pedro Liberato (Nietz/ Gugu) TX

Quando do Romantismo, a maioria dos jovens passaram a trancar-se no quarto e ler diariamente e em ritmo frenético. Goethe e Byron se tornaram os líderes filosóficos do pensamento juvenil da época. Os adultos da época afirmaram que estavam estragando seus futuros e que, por tal atitude, a geração que dali brotava sera uma geração perdida.

Passado o Romantismo, os livros passaram a ser uma forma de separar os intelectualmente superiores dos meros mortais. Ler se tornou característica dos homens superiores, como uma forma de afirmar a si mesmo e aos outros o próprio valor.

As faculdades se encheram de leitores e entre os pseudo-intelectuais sempre há uma disputa sorrateira de quem lê mais. Entre os sorrisos amarelos, falas arcaicas e citações de autores que nem leram há sempre uma busca de auto-afirmação como um prodígio para as humanidades. Os pseudo-intelectuais cantam suas próprias virtudes, pisando no solo aparentemente firme de suas certezas, feito sofistas em busca de um lugar no pódio daqueles que serão lembrados.

Para fingir-se intelectual vale toda e qual forma de escrita: livros infanto-juvenis, livros didáticos sobre filósofos, resumos sobre William Golding, esquemas para entender Jacques Derrida, notas sobre as obras de Baudelaire e apostilas sobre Herasmo de Hoterdã. Poucos, porém, ousam tocar nesses clássicos; poucos ousam arriscar-se em Clarice Lispector, ou em Machado de Assis; poucos deleitaram-se sobre as páginas de Madame Bovary, de Flaubert ou as páginas de “A Peste”, de Albert Camus. O que há de especial em ler os clássicos? Por que Victor Hugo pode transformar vidas, mas Percy Jackson não?

Primeiro, um clássico é uma fonte de pensamentos contornados por uma narrativa. Guardar informação é algo simples de se fazer, qualquer um pode saber sobre a Revolução Russa e a história da URSS, inclusive o Google pode fazê-lo melhor do que qualquer homem. Todavia, unir essas informações e dela deixar florescer um pensamento é um poder que somente o humano é capaz. Quando George Orwell escreve “1984” e “A Revolução Dos Bichos”, todas essas informações estavam diante dele, mas somente ele foi capaz de construir a grandiosa história crítica que se vê nessas páginas. Desta forma, ler um clássico é penetrar na alma alheia de forma a chupar nela os pensamentos mais profundos e sublimes.

Segundo, ler um clássico é livrar-se de suas certezas e colocar-se em uma postura questionadora. Todos os homens têm certeza que matar é um erro e estuprar é outro, mas poucos tentaram entender o que motiva esses crimes, não como forma de justifica-los, mas como forma de dar a si mesmo a oportunidade de entender a psique. Não é preciso avançar muito nas páginas de “Crime e Castigo”, para ver como Dostoiévski penetra na alma do criminoso de forma que seu leitor sinta-se pessoal tendendo ao ato imoral, deixando registrado página a pagina os pensamentos do jovem Raskolnikov até confessar seu assassinato. Podemos achar tamanho detalhamento na obra “Lolita”, de Nabokov, no qual pequena Lolita recebe o olhar amoroso e pervertido um pedófilo. Ler clássicos é tirar-se da zona de conforto em que as certezas são estabelecidas, pois o que é a certeza se não a maquiagem daqueles que nunca quiseram questionar-se?

Por fim, ler clássicos é ler experimentos sociais que jamais poderão ser feitos, vendo seus resultados com grau de confiabilidade tamanha, que somente uma mente genial pode fazer. Em “A Colônia Penal”, Kafka cria um cenário capaz de prender o mais desinteressado dos leitores, questionando a punição em poucas páginas de uma forma que nem mesmo Focault conegou em Vigiar e Punir; proeza essa repetida em “Um Artista da Fome”, no qual a arte é posta sob tal óptica que todo e qualquer humano que ousa chamar-se artista passa artista a rever sua posição. O parricídio em “Irmãos Karamazov” é um experimento da máxima “Tudo é permitido” proposta por Ivan Karamazov e revista quando se conta sobre O Grande Inquisidor. A experimentação sobre a dúvida da traição e a transformação de um homem fica evidente em “Dom Casmurro”, como fica claro os questionamentos existencialista no experimento feito por Sartre nas curtas páginas de “Quatro Paredes”. A negação do eu e a busca pela identidade já foi posta em pauta por vários pensadores, mas quando José Saramago escreve “O Homem Duplicado” traz vida a essas indagações de forma tão mais profunda e eficaz, que qualquer leitor passa a questionar o próprio eu.

Parafraseando Leandro Karnal: eu passarei, todos os teus professores e homens que são centros de tua admiração também se vão, os livros trocarão por tornarem-se velhos, mas os clássicos estarão sempre intactos. Os clássicos são árvores que jamais deixarão de produzir frutos, e não importa o quão ruim é terra em que foi plantado, sempre florescerão. Ler histórias de amor podem alegrar, assim como ler aventuras aumentam o prazer, mas essas obras jamais mudarão vida. Dostoiévski sim, este muda vidas. Clássicos são armas contra pseudo-intelectuais, remédios contra certezas e vírus contra a ordem. Ler um clássico é comer do prato mais fino que a humanidade produziu para o intelecto humano. E que os pseudo-intelectuais continuem com suas certezas, enquanto eu continuarei com os clássicos.

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