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As paredes desabam

 

Por Pedro Liberato (Gugu) – TX

A terra tremeu e ergueu a poeira que há muito estava quieta. Uma poeira avermelhada de uma terra virgem, que sempre recebera pés mas nunca patadas. Há diferença, e ela não reside na força em newtons que há entre um e outro, antes ela está no ódio. O ódio torna o coração pesado, a massa adicionada de fúria é o que nos torna curvados e lentos, pesa na balança. As patadas pesaram sob o solo e deixaram nele algum rastro do presente.

Um presente marcado pela divisão. O Brasil rachou-se ao meio e esqueceu que um dia foi uma unidade. Quando o povo se mobiliza para protestar de alguma forma, temos como primeiro questionamento: “é um protesto da direita ou da esquerda?”. O que nos ensina tal pergunta? Ensina que o Brasil era puro e se tornou uma mistura heterogênea, na qual as duas fases não se misturam, antes se rejeitam, brigam, enfrentam-se como Davi enfrentou Golias, mas neste caso as duas caem com o lançamento da pequena pedra da discórdia.

Enquanto os diálogos estiverem inaudíveis devido aos gritos, o Brasil se manterá como uma massa de manobra. Enquanto crermos que a política deve ser dividida entre os que lêem Mises e os que lêem Marx, todos ficarão sem educação e, consequentemente, sem leitura.

Bacon já denunciava isso em sua obra Novum Organum, no qual expõe a teoria dos ídolos e, entre eles, o ídolo da autoridade. O ídolo da autoridade é a crença de que, se um autor relevante disse, então é verdade. Devido a este pensamento, as pessoas passam a ter certeza de como o mundo funciona e que, portanto, a forma que vêem o mundo é a mais exata e perfeita possível. Não é. Não é por dois motivos: não há apenas um autor e o mundo não é tão matemático quanto queríamos que fosse.

Fuja de quem tem certezas. Fuja dos que louvam o livre mercado veemente, e se arreda dos que afirmam o socialismo como a salvação da humanidade. Desconfie das respostas perfeitas, pois nela sempre há falta de informação.

Não se defende ou se deixa de defender um protesto devido ao posicionamento político extremo, antes a argumentação deve ser pautada em uma concordância ou discordância sobre a razão pela qual o protesto é feito. Pensar que um protesto como o da previdência é de esquerda e, portanto, a direita deve se ausentar é pensar uma democracia mentirosa e estúpida.

Não se trata de defender ou não se defender o protesto que foi feito, se trata de balizar os argumentos usados. Trata-se de entender o porquê se adere ou não a uma greve. Argumentos extremistas devem ser banidos, gritos devem ser retirados, deve-se encontrar o meio-termo aristotélico como forma de tornar claro que: defender uma ideia de determinada ideologia não significa defender a ideologia inteira.

As brigas partidárias e o extremismo revelam o medo excessivo que brasileiro tem de questionar-se. Se a dama cega que tanta veneram estivesse aqui, não precisaria ver para perceber que algo errado acontece. Todos aqui se sentem gratos por esta democracia?

Esta briga é como uma família de mesquinhos que se dividem em dois grupos: os que acham que a casa deve ser pintada de vermelho, e os que vêem no azul a melhor cor. Enquanto brigam e se destroem para decidir a cor da casa, a mesma vai envelhecendo. Apodrece com as traças, desaba tijolo a tijolo, e quando for decidido a cor não haverá mais casa para ser pintada. Meu Brasil, por que teimar entre azul e vermelho?! Será que não é claro que as paredes da casa já desabam?

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