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Qual o sentido da vida?

Por Júlia Arrais (Pitó) – TX

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Há dezoito anos nasci. Chorar. Comer. Dormir. Fácil. Os desafios que a vida me impunha não passavam de berrar pela frauda cheia ou morder tudo o que via pela frente (dentes nascendo são problemáticos, entendam). Dessa fase nada me lembro, apenas rio e me emociono com os relatos dos familiares.

Desde dia em que dei o primeiro suspiro de vida, houve um lapso temporal gigantesco até de tivesse meu primeiro suspiro de consciência. É incrível como passamos anos da nossa infância (com viviências intensas) sem que nos lembremos de nada. Minha primeira memória: ligar (ou tentar) o interruptor para acordar meu pai no seu aniversário. Mas aí é que está: são memórias soltas, desconexas, que nos acompanham até que tenhamos uns oito ou nove, e a plenitude da memória inicia sua jornada ao nosso lado, até no caso dos mais esquecidos.

Os desafios da infância tardia começam a nos atormentar: sorrisos banguelas, primeiros grupos de amizade, comer um doce escondido antes da janta, não ser o último no tira time… São marcos que começam a formar nossa personalidade, até que entremos na puberdade.

Ah, a puberdade…! Fase maravilhosa pela qual nós nunca iremos querer passar de novo. E com toda razão: uma explosão de hormônios nos incendeia enquanto temos que lidar com as espinhas, as primeiras paixões platônicas e decidir qual roupa vestir para ir pela primeira vez ao shopping (sozinhos- uma revolução dentro de casa). Não sabemos que passos seguir. O ar da liberdade bate à porta, mas a buzina da mãe no portão da escola a deixa trancada.

A juventude logo chega marcando seu espaço, com voz grossa e pensamento alto. Estou decidida: quero fugir de casa. Infelizmente, o grandioso plano terá que ser deixado para trás: mamãe fez meu jantar favorito e só tenho um trocado. Novas decobertas surgem uma atrás da outra- sair com amigos, beber, namorar- mas também novas responsabilidades. Começamos a nos formar ideológica e politicamente. Nos indagamos como vivemos tantos anos- mais especificamente dezesseis- sem nos importar quem era o presidente da Câmara ou quantos refugiados morreram naquele dia. É o tempo em que as cobranças da sociedade pesam mais do que nunca: estudos, status e ideologia.

Fazendo um balanço do que vivemos até aqui podemos afirmar que: 1- ninguém te dá um manual sobre como viver; e 2- lavar panela é mais difícil do que parece. As responsabilidades são tantas e o tempo se torna tão escasso que passamos a desejar: tudo o que eu queríamos era ser criança! Poder brincar à vontade, sem ter que nos preocupar com datas, compromissos e trabalhos! Temos um desejo profundo do qual temos até vergonha de admitir- queríamos mesmo era estar na Terra do Nunca, com a magia do pó de pirlimpimpim. Daí o despertador toca às sete, estamos frustados, cansados e confusos. A rotina toma seu lugar. Estamos perdidos no nosso próprio caminho.

O que ninguém nos conta, porém, é que a vida pode, e deve, ser muito mais gostosa e leve do que está sendo! Temos tantas datas, compromissos e trabalhos… Quando seremos feliz? Aí é que está: talvez, até a infância menor, tenhamos sido tão felizes, mas tão felizes, que nada sobrou em nossa memória. Qual seria o sentido de vivermos em uma plenitude emocional, sem dar a cara a tapa? Construímos nossa história com base nas atitudes que tomamos frente às situações adversas. O sentido e a intensidade que colocamos naquilo que enfrentamos é o que define o rumo que damos à vida. É preciso ser leve e ver a beleza. Chorar. Comer. Dormir. Fácil. Os desafios que a vida nos impõe nos fazem viver.

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