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Algravismos

Por Diego Lourenço (Causaria) – ex-aluno da TIX e estudante da FD do Largo São Francisco

Causa

Aquele sorriso carregava meia culpa amarelada. Comoveu-me. Eu estava esgotado de ser em pedaços. Para cada amante um retrato. E na câmera que eu carregava, apenas fotos de desconhecidos. Não, o sorriso não era de romance. Era de criança, e acompanhada pela mãe. O fato é que fui notado e dali não havia escapatória. Eram olhos de descobrir o mundo, impassíveis de abstração. E cá estou eu, em metade de luz. Desacostumei-me a compaixões. Entretanto, constatações de desesperos eram eminentes. Bastava estar vivo. E disso surgia o que costumam chamar de medo. Os passos, arranhões. Os olhares;dilaceravam-me. E por que há de configurar afeto neste espaço e tempo? O amor segue como mistério porque seja, talvez, simples demais em entender. Cada janela banguela me lembrava de um ladrilho que eu distribuí. Suas cores, proporções, rejunte e textura. Estava tudo lá, menos eu. Tornei-me sorrateiro das frustrações. Mas também acabei só. Construtor de casa sem janelas. Os esquadros estão perdidos em alguma música por ali…sem saber, eu, onde desembocam, deixando às claras. Fato também é que esta não era minha profissão. Eu carregava livros nas mãos. Tateava aquilo que me garantia sobrevida. Altos e baixos cardíacos. Não, não era o único. Porém não notava os demais. O resto à minha volta parecia de fato, feliz. O insatisfeito era eu; que me virasse. Não se fazia possível, que fosse eu, o único a querer talhar o aço afiado em minhas cordas vocais. Deuses ou discos justificavam o aturar diário de colocar os pés no chão. E minha justificativa, diante de tanta inspiração, era fazer de outrem meu animus. Afinal, era eu um católico repleto de vinis. Que os ouvia sozinho. E não me sugiram amigos, animais de estimação ou caridade. Queria em cada risco das bolachas pretas um sorriso que me arrepiasse a pele. Nunca o tive. Escolhi embarcação de bússola incerta. Lutei com monstros imaginários e invencíveis. Mas chega disso por enquanto… O casco ainda me basta. Sem âncoras, sem velas. Terei berinjelas para o jantar. Talvez devesse eu agradecer àqueles que me rejeitaram… Afinal, é esse liquido que me faz seguir inerte. Sem esforços, sozinho.

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