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Memórias de um Intercambista Terremotado

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Por Neto Silveira (Pampers) – TVI

Desde de setembro do ano passado, já me preparava para uma experiência que seria inesquecível – e única na minha vida: seria um semestre longe de casa, a primeira vez que cortaria o cordão umbilical. Era momento de já começar a ajeitar as coisas – aos poucos foram se ajustando, apartamento reservado, passagens compradas… Mas… em outubro veio um grande balde de água fria e preocupações: o coração da Itália pulsava mais forte e sacodia a terra em 3 terremotos na mesma semana.

Aí começaram outras preocupações: Como estava Camerino? Será que vale a pena ir? Será que vão acontecer novos terremotos? Acho que vou desistir…

Colocando os pensamentos no lugar, depois de analisar as circunstâncias prós e contras, cheguei a uma “sentença”: vamos lá e ver no que dá.

Daí, começou uma outra batalha: conseguir um lugar para ficar. Foram inúmeros posts em todos os grupos possíveis e imagináveis, ligações para imobiliárias, pedido de abrigo para as monjas clarissas (com muito carinho me responderam prontamente que também estavam sem casa por conta do terremoto) e nada. Até três dias antes da partida não havia um lugar para morar. Até que, ufa, recebo a notícia que tinha conseguido um alojamento na foresteria da faculdade por 10 dias – o primeiro alívio depois de tanta tensão.

Chegou domingo, 19 de fevereiro. Entre lágrimas me despedia da família e do Brasil. Não era um adeus, mas um “até logo”, entretanto doía cortar o cordão…

Daí foram 11h de vôo, 1h de trem e mais 3h e meia de ônibus. No caminho de Roma, uma paisagem linda já acalentava e enxugava as lágrimas que ainda escorriam. Quando se passa da Umbria às Marcas, já se via os primeiros sinais deixados pelos sismas. Não sabia o que iria encontrar, um certo medo já se manifestava, mas sempre em contraste com uma pontinha de esperança.

Chegando aqui, tudo parecia normal, olhando de baixo o centro histórico, parecia que nada havia acontecido. E a paisagem, le Sibilline repletas de neve, majestosas, davam as boas-vindas. Daí vieram os primeiros sorrisos, o alojamento seria aos pés do centro histórico.

No outro dia, pela manhã, começa a vida. A descida – e que descida! – até a faculdade revelava a situação da cidade: os prédios do centro fechados, construções danificadas, casas que guardavam as saudades de seus habitantes. Descendo mais, a visão até então mais impactante: era um tanto estarrecedor olhar a igreja da Maddona delle Carceri colocado ao chão, ao seu lado, enquanto se tiravam os destroços de seu interior. É impossível ignorar ou não se impressionar com tal imagem!

Porém, o povo camerte soube se adaptar à situação: fizeram um novo centro, onde as pessoas pudessem se encontrar, trabalhar, enfim, recomeçar suas vidas. E assim foram se passando os primeiros dias, os sorrisos foram aumentando e a vida seguindo.

No primeiro domingo, uma volta para explorar a cidade, andar por onde não havia barreiras. As andanças levaram até à chamada Rocca di Borgia (o nome não é uma coincidência, foi construída por ordem de Alexandre VI), talvez o lugar mais agradável que se mostrou, donde se via toda a região, as montanhas que guardavam o antigo ducado dos Varano. Entretanto, ao tornar, se via o cenário de destruição: o bar que ali havia estava caído pela metade e, a imagem mais triste e marcante: a igreja de Santa Maria in Via, um dos maiores orgulhos do povo camerte, encontrava-se ferida, os sinos, que cantavam a alegria, mudos e caídos sobre a casa ao lado: de fato, uma cena que não será esquecida.

Um dos momentos mais marcantes dos primeiros dias foi uma conversa com uma senhora, já com anos de experiência, vividos nos montes marchigianos. Ao me contar de sua casa, no centro histórico, uma lágrima escorreu de seus olhos, apenas uma. No final de nossa conversa, uma frase: Se Dio vuole, tutto andrà bene. O povo, como sua cidade, estava ferido, mas não perdia a esperança, o brilho nos olhos e o sorriso, o desejo de que um dia tudo voltará ao normal, tudo ficará bem.

Quanto a mim, só tenho a agradecer os sorrisos em meio à tristeza, mas, principalmente, a grande lição de esperança e de que se deve seguir em frente pois, ainda que o mundo balance, é necessário ficar de pé.

#ilfuturononcrolla

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