Além da sala de aula · Alunos · x

Medo

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Por Gabriela Cortez TX (Nalata)

 

ATENÇÃO: Esse texto tem temática forte tratando de temas como assedio e mal estar psicológico. Caso algum desses temas te traga desconforto, desaconselhamos a leitura!

Tem muita coisa que eu não entendo, mas, se tem algo que eu sei é que o Medo não abandona a gente. Eu não sei se com todo mundo funciona assim, mas o meu Medo é um companheiro constante. Às vezes fica tão quietinho no cantinho dele que a gente nem se lembra da sua presença, mas ele está ali e de tempos em tempos ele grita tão alto que me faz tremer os dentes.

Esses dias, por exemplo, eu estava voltando pra casa e dois caras estavam conversando na calçada oposta a qual eu andava. Conforme eu ia me aproximando da linha de visão deles, a conversa, antes alta e alegre, ia ficando cada vez mais baixa e pesada. Meu querido companheiro marcou presença e acelerou meu coração. Eu repetia pra mim mesma que não estava tão escuro assim e que era só eu andar rápido até a outra esquina que tudo ia ficar bem. O Medo checou por mim quantas almas eu conseguiria despertar se eu gritasse. As conclusões não foram boas. Pior do que estar com medo é demonstrar estar com medo, ele é uma companhia traiçoeira, então eu engoli todo aquele sentimento e continuei andando como se não tivesse ouvido eles gritando “gostosa”. Cheguei em casa e abracei meu Medo, me permitindo sentir toda a quase situação que ocorreu. Nada me garante que eles teriam feito alguma coisa, mas o Medo sussurra pra mim todas as possibilidades; ele gosta de me tirar o sono.

Não sei dizer quando especificamente o Medo grudou em mim. Acho que quando eu comecei a querer sair de baixo das asas da minha mãe, ela se sentiu na obrigação de me contar as coisas terríveis que acontecem mundão a fora. A gente cresce numa bolha e quando te falam que o respeito, aquela palavrinha mágica que você aprendeu a exercitar com todo mundo, não vem fácil, é de certo modo chocante. As histórias que te contam, mesmo que distantes, são suficientes para te traumatizar e fazer com que você passe a olhar para os lados pelo menos umas três vezes quando for andar sozinha. Se você for de ônibus, não vá de saia, não encara muito as pessoas, não se mostre desconfortável. Se você for a pé, mantenha um ritmo bom, faz cara de séria, não dê bola pros caras que mexerem com você.

Quando eu me mudei para Ribeirão, meus pais ficaram de coração apertado e me passaram um milhão de conselhos para mim. Todas as atitudes que eu tinha que evitar, as roupas que era melhor eu não usar, o comportamento que garantisse que eu permaneceria inteira nesses próximos cinco anos. O Medo, de alguma forma sutil, foi sendo alimentado cada vez mais e ganhando proporções cada vez maiores. Ele me deixa vulnerável, desconfiada, paranoica. Não gosto de mim quando estou com ele, mas não sei se conseguiria largá-lo.

Recentemente, uma amiga próxima minha foi assediada. Por alguém que ela não esperava. A amiga dela quase sofreu um abuso sexual, e por muito pouco esse quase não existiu. Uma colega de escola foi, de certa forma, estuprada; mas ela não admite isso e não conta a história desse jeito. Em algum momento, as histórias passaram a ter rostos conhecidos e isso me apavora. As estatísticas mostram que 86% das mulheres brasileiras já sofreram algum tipo de assédio sexual; quando vai ser minha vez? O Medo sabe a resposta.

Eu tenho um amigo que uma vez me disse que essa situação era de fato péssima e que eu devia sempre andar acompanhada de um homem. Acho engraçado como só de acrescentar o fator homem eu passaria a estar segura. Qual garantia eu tenho de que esse acompanhante não tentaria alguma coisa ele próprio? Por mais triste que seja, muitos casos de assédio acontecem com gente conhecida, o que deixa a vítima ainda mais abalada e o Medo mais forte. E outra, a solução proposta é eu subordinar toda a minha rotina a alguém? Eu consigo ver a preocupação dele na fala, mas é algo totalmente irreal e a gente não deveria comprar isso. Estou buscando minha independência e alguém falar pra mim que eu preciso de um acompanhante é algo extremamente conflitante e que só ajuda o Medo a ganhar mais força. E quando eu precisar comprar absorvente as oito horas da noite de uma quarta-feira? E nas situações de emergência? Vai ter um homem sempre disponível? E se não tiver, eu vou ter que deixar de ir?

Antes de ser mulher, sou pessoa e tenho toda uma jornada para trilhar, não posso estar sempre na sombra de alguém e não posso exigir que alguém trilhe o mesmo caminho que eu. Do mesmo jeito que não quero me desdobrar para me encaixar nos planos de alguém, não quero (e mesmo se quisesse, duvido que acharia) alguém se contorcendo para se adequar aos meus compromissos. O Medo, por pior que ele seja, é meu acompanhante e zela por mim.

Não sou sempre tão insegura assim, é que ontem o Medo me apertou forte e eu fiquei sem saber o que fazer. Eu não aguento mais essa cultura do silêncio.

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