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Do Que é preciso para formar Um NÃO para um estudante universitário

Por uma aluna da FDRP

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ALERTA DE GATILHO: O TEXTO CONTÉM CONTEÚDO VIOLENTO PARA VÍTIMAS DE VIOLÊNCIA DE GÊNERO E ABUSOS SEXUAIS EM FESTAS, E PODE SER VIOLENTO E CAUSAR DESCONFORTO PARA TODAS AS MULHERES. Caso o tema te desconforte ou te fira, não leia.

Às vezes me esqueço que o não da mulher costuma não ser ouvido.

Eu vou a festas em repúblicas, eu visto a roupa que eu quiser. Às vezes eu bebo com amigos, em algumas consigo escolher me mover e dançar como eu quero. Em poucas, eu escolho o meu prazer e eu escolho a carne, a pele, o suor quente de quem me escolhe também e me envolvo em mãos estranhas e maiores.

Mas tem vez em que eu não consigo escolher nada. Eu só vejo e sinto estar presa em mãos gigantes, sujas e duras. Quase todas elas são sujas demais.

Às vezes me esqueço que não costumam querer que a mulher seja ouvida. Principalmente se o que ela quer dizer é a sua vontade – e principalmente se essa vontade não é verbalizada. Quase sempre se esquecem que quem bebe demais acaba perdendo controles de resistência. Quase sempre se esquecem que uma mulher alcoolizada não precisa dizer “não” para formar um não. Quase sempre ela não consegue.

O pior é que às vezes me esqueço que ninguém costuma se importar com a vontade da mulher. Principalmente se ela se sobrepõe à vontade presente de um homem – e principalmente se essa vontade presente é sexual e/ou violenta. O 2º Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad) explicita que o risco de estupro aumenta 3,6 vezes entre mulheres alcoolizadas. Se as mulheres dificilmente denunciam seus estupradores no Brasil, o índice de denúncias se apresenta ainda mais reduzido quando as vítimas estavam alcoolizadas. E é exatamente sobre isso que eu não posso me esquecer de falar. Se você é um homem, discente de alguma Universidade, e costuma beber e ir a festas em ambiente universitário – principalmente em moradias –, você é um potencial estuprador realmente intensificado.

Se você se relaciona sexualmente com mulheres desacordadas ou alcoolizadas e/ou drogadas, você provavelmente é um abusador e/ou um estuprador. E eu sinto muita raiva por saber que muitas vezes você não vai ser denunciado. E eu sinto muita dor de saber que você é como quem que já passou por mim, mas não passou nem perto do que chamam de Justiça. E eu sinto mais raiva ainda se puder te imaginar estudando capítulo II do Código Penal ou qualquer noção de Direito na mesma Faculdade que eu, e saindo dela com um diploma completamente sujo em mãos imundas e impunes para encontrar mulheres na atuação da sua profissão jurídica.

E eu acabei lembrando que o pior mesmo é eu acabar me esquecendo que tem abuso que eu nunca vou esquecer. E que tem muita história que fica e que muitas mulheres também nunca vão apagar. E que ninguém mais pode esquecer da culpa de quem banaliza estupro, abusos e violências contra a mulher em qualquer ambiente e contexto; e da culpa da negligência de organizadores de festas universitárias, quando completamente esvaziadas de mecanismos que prezem pela segurança da mulher; e da culpa das instituições universitárias que costumam manter estupradores impunes, apesar de todas as provas que conseguem ser reunidas; e da culpa da insuficiência dos códigos e da estrutura judicial em frente a toda a dor e violência às quais somos submetidas; e, finalmente, da culpa de homens que se sentam próximos todos os dias para assistir às mesmas aulas que eu.

E na verdade nós não precisamos entender o que é preciso para formar um “não” para estudantes universitários bêbados ou sóbrios. Nós precisamos que vocês parem de estragar as nossas vidas.

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