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Okja, Joesley Batista e a Indústria da Carne

OKJAPor Thomas Garcia (Palmirinha) – TIX

[Esse texto contém possíveis spoilers]

Uma empresa química lança uma campanha de marketing de escala global com o objetivo de apresentar ao mundo o seu novo produto: os “super-porcos”. Essa variante genética será o futuro da indústria alimentícia, produzindo uma carne extremamente saborosa. A ação publicitária distribuiu alguns desses monstrinhos para fazendeiros ao redor do mundo, que os criaram cada qual a sua maneira para que depois se faça um concurso de qual é o mais sadio dos super-porcos, este irá desfilar pelas ruas de Nova York. O que a empresa Mirando não imaginou, entretanto, que os animais poderiam criar vínculos onde estivessem, como o criado pela porca Okja com sua cuidadora Mija.

Okja, a mais nova estreia do Netflix é um filme que abre um leque muito grande de discussões. Ele foi o primeiro filme a ir para o consagrado Festival de Cannes a não ter distribuição comercial em cinemas, sendo distribuído exclusivamente pela plataforma digital. Esse contexto fez o filme receber muitas críticas no festival, muitas vezes deixando em segundo plano o conteúdo filme em si. Temas muito interessantes são abordados, e merecem uma análise para além de fatores externos.

O filme começa com cenas de admirável leveza, mostrando a jovem coreana brincando e cuidando da leitoa que mais parece um hipopótamo. Esses momentos fazem o clima de fantasia se manter equilibrado, não destoando com as constantes críticas à indústria alimentícia. A boa atuação da coreana Seo-Hyun Ahn contribui com o caráter de fantasia. Sua personagem, destemida a proteger sua parceira animal, é um dos pontos altos do filme.

A crítica social tem destaque na medida em que o tempo avança. Ele mostra um mundo capitalista cruel, onde imagens dos porquinhos fofos com seus fazendeiros mascaram maus tratos e experimentos cruéis com animais. A indústria alimentícia não tem o menor pudor em brincar com vidas de incontáveis animais na busca pelo lucro. Porém, é necessário vestir uma máscara de saudável e ambiental na hora de soltar seus produtos aos consumidores. Tilda Swintom, que vive a dona da empresa Mirando, mostra as faces do capitalismo moderno. Tentando trazer um discurso agradável e correto, na medida em que o bolso está protegido.

Em tempos de Operação Carne Fraca e delação da JBS, é fácil perceber que o mundo apresentado não está muito distante do nosso. O Brasil, país com uma elite pecuarista forte, conhece bem alguns dos abusos mostrados. O uso de hormônios, os maus tratos e a superlotação dos criadoros são práticas comuns na criação de animais. Para se ter noção das violências que acontecem aqui, recomendo o documentário brasileiro “A Carne é Fraca”, o qual mostra que por trás de um prato, aparentemente inocente, de carne há todo um sistema terrível. Animais similares a Okja, frutos da interferência humana na natureza, já existem, e são servidos em muitas mesas.

De poucos anos para cá, a Friboi fez uma gigante campanha publicitária, com atores globais, dizendo que “Carne confiável tem nome”. Até então o consumidor não tinha o costume de ver a origem da carne comprada, e a empresa tentou induzir para que isso se tornasse um hábito. Na medida em que o frigorífico começa a ser importante na hora da compra, aquele mais conhecido leva vantagem. Enquanto no filme a intenção da campanha publicitária era trazer confiança para a carne de um novo animal, a Friboi já estava consolidada como carne de qualidade na mente de quem cozinha. Assim foi um escândalo quando a Operação Carne Fraca revelou que os frigoríficos distribuem carnes sem o devido cuidado sanitário, de modo que não sabemos o que consumimos.

Joon-Ho Bong é, ao lado de Chan-Wook Park, um dos melhores diretores de filmes de ação coreanos. Ele parece estar voltando aos trilhos, depois do desvio que foi Snowpiecer. Ele leva bem o filme, apesar de alguns momentos destoantes. A atuação exagerada, comum em filmes orientais, soa esquisita quando praticada por atores ocidentais como Jake Gyllenhaal. Seu personagem em muitos momentos soa como um auxílio cômico deslocado.

O final do filme é bem intrigante e se relaciona bem com a realidade dos brasileiros. Assim como Joesley Batista, a empresa Mirando consegue vender seus produtos, apesar de todas as mentiras escondidas, na medida em que o consumo de carne está associado ao modo de vida que levamos hoje. A esperança no filme se mostra em um estilo de vida mais próximo da natureza, assim como a campesina Mija tem ao voltar a sua fazenda.

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