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A BOLHA QUE ODIAMOS AMAR (E VICE-VERSA)

bolha 2

Por Augusto Bacamarte

A FDRP é uma bolha. É uma bolha porque a grande maioria de nós apresenta condições bastante privilegiadas, mas também por conta da própria essência do curso de Direito, do campus USP Ribeirão. Somos privilegiados por sermos, majoritariamente, brancos e de excelente condição econômica, quando não também esculpidos em uma sólida base familiar e social, sem falar em heterossexualidade e gênero masculino.

Em um primeiro plano, esses privilégios nos distanciam parcial ou totalmente da realidade de pessoas que (sobre)vivem diariamente com essas opressões. Eu não tenho as mesmas noções de “barato”, “caro” e “acessível financeiramente” que uma pessoa de condição miserável. Minha classe social define, para mim, esses parâmetros e, sobretudo, faz com que a maior parte das pessoas com quem eu me relacione ao longo da vida, pertença à mesma classe social que eu, o que limita ainda mais minha visão de mundo.

Junte várias pessoas com essas mesmas condições, coloque em uma Faculdade de Direito recheada de ares-condiconados e, voilà, temos uma bolha, com todos pensando igual e sem absolutamente nenhuma noção dos problemas “do outro lado”, afinal, eles não existem nesse mundo azul-turquesa com tecidos 101% algodão egípcio. Outros fatores, no entanto, que tornam a nossa bolha “especial”.

O curso de direito, por si só, já é um incrementador, na medida em que naturaliza uma linguagem elitista (pessoalmente, eu reproduzo bastante isso) que ajuda a limitar ainda mais o número de pessoas que podem nos alcançar através de algo tão essencial como a linguagem. As piadinhas jurídicas infames estão aí para provar o meu ponto.

Em adendo, nossa estrutura curricular é, no mínimo, segregacionista, tanto pelo período integral quanto pela cobrança de língua estrangeira em algumas disciplinas, até mesmo para fins de avaliação. E daí que cobram Inglês na FUVEST (e um “oi” especial para quem esquece que o ENEM também é forma de ingresso na FDRP e, lá, se pode optar por Espanhol também)? Cobram outras 11 disciplinas do Ensino Médio. Ainda lembra a nomenclatura de todos os hidrocarbonetos?

Mas, se serve de consolo, a nossa bolha tem algumas vantagens. Incrivelmente, a FDRP tem uma proporção relativamente alta (vejam que eu disse proporção) de pessoas conscientizadas para diversas problemáticas da sociedade, o que, acho, se deve à uma oportunidade de acesso na nossa formação acadêmica, mas, principalmente, à atuação dos coletivos dentro da faculdade. Um amigo querido costuma comentar o quanto é mais agradável e menos violento conviver com as pessoas da FDRP do que com as do estágio (o mundo jurídico deve ser pior que assistir TV aberta aos domingos).

Isso não significa que estejamos sensibilizados pelos problemas sociais, mas sabemos que eles existem, e que miseráveis e ricos não surgem por geração espontânea da entidade ” meritocracia “, ou que a sexualidade é uma escolha. E isso é um pouco reconfortante, pelo menos para mim, principalmente quando eu lembro o que me aguarda na ceia de Natal…

Quer você goste ou não, comparativamente, somos um ambiente mais tolerante que o resto da sociedade. O racismo, o machismo e a homofobia não deixam de existir, inclusive, por vezes, mostrando o tipo de ser-humano nojento e desprezível que passa naquele exame de seleção (?), a FUVEST, a exemplo das pichações racistas no banheiro (2015), dos comentários machistas e homofóbicos que por vezes atravessam os ouvidos de pessoas que são tudo, menos obrigadas a aguentarem certas coisas. Sem falar nos exemplos didáticos (risos) de nossos queridos e maduros professores durante as aulas (Aí, minha liberdade de cátedra!), ou fora delas, não é mesmo…

Obviamente, isso não nos exime de melhorar, porque temos muito o que melhorar. Consciência e capacidade nós temos, mas e vontade? Motivados ou não, para o bem e para o mal, aproveitem os “melhores cinco (talvez um pouco mais) anos da sua vida”. Todos nós sairemos da bolha algum dia e pode demorar algum tempo até conseguirmos aquela cobertura em Upper East Side ou o chalé no norte da Noruega para voltarmos a nos isolar do resto da sociedade.

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