Edição 15 · x

Desculpe, estamos em construção

Por Duda Hidalgo

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Depois de passar pelos tão temidos vestibulares, viemos a um mundo a parte chamado FDRP, em uma cidade cujo calor combina com os habitantes; caloroso. Um mundo em que em meio a incontáveis partidas de sinuca e páginas lidas se encontram os discentes cada um com uma história diferente e um futuro a ser trilhado, tal futuro tem uma parte muito especial destinada aos anos de faculdade. O horizonte psicológico que tinha uma grande parcela destinada ao entrar na faculdade se expande e criam-se novas expectativas em relação ao mundo.

Um número pequeno de alunos, cada um com as suas peculiaridades. O talento da faculdade transborda, há mentes brilhantes, engajadas, artistas, atletas, amantes da cultura do inútil… alguns tem bem definido o que querem, outros ainda repletos de incertezas.

Nesse décimo ano de faculdade nós, os alunos da Turma X, fomos recebidos. Nas primeiras semanas perdidos pelos corredores com as suas coroas, prontos para redescobrir o que as outras turmas já haviam vivido, ou descobrir outras tantas coisas em conjunto com as turmas anteriores ou não,  neste último caso, por exemplo sendo os pioneiros do novo PPP.

Cada um experimentou esse curto semestre de um jeito, mas todos passaram pela experiência de se depararem com um misterioso “Depende”, palavra fundamental do vocabulário jurídico, disputando o troféu de expressão ou frase mais falada na FDRP com “Mas e se …”, “Segundo …”, “Vamos fazer um docs”, “É com consulta?” e “Quem tem um caderno bom?”.

Apesar das dificuldades iniciais de adaptação e noites mal dormidas, seja por motivos acadêmicos ou alheios a estes, sobrevivemos. Aqueles que estão longe de casa foram forçados a aprender a fazer tarefas domésticas e cozinhar… ou apenas vivem de comidas como miojo e ifood e se contentam com uma casa “razoavelmente” limpa. Vimos que agora nos encontramos em um mundo mutável com uma infinidade de possibilidades, um lugar onde é possível ter voz, voz para paralisar a faculdade ou até aprovar cotas.

Passamos tanto tempo na faculdade que ela se tornou nossa casa, nos apropriamos dela, e com os laços afetivos criados com as pessoas ali presentes se transforma em um ambiente quase familiar. Uma casa que já estava pronta quando chegamos, mas que aceita reformas. Um lugar onde poucos tiveram a oportunidade de entrar, mas que era o sonho de muitos. Apesar de ainda haver uma seletividade enorme, caminhamos rumo a uma faculdade com maior diversidade cultural, étnica, etária e com a possibilidade de experimentar o mundo que vai além dos portões dessa casa.

Aprendemos também com o outro, ao nos colocar em seu lugar e respeitar o seu local de fala. Os coletivos tem papel fundamental nisso, em escancarar comportamentos que são reproduzidos, infelizmente, de maneira espontânea e natural. É importante que tais observações sejam feitas para que esse ambiente no qual passamos tantas horas de nosso dia seja mais agradável a todos e não apenas a uma parcela.

Apesar das intervenções esse cenário de opressão ainda é parte da vida de muitos estudantes, e a cobrança também se faz presente, seja institucionalizada ou pessoal. Entramos, na maior parte das vezes, ainda acostumados a sermos destaques das escolas anteriores, e muitos sofrem o choque de perceber que se encontram em meio a pessoas tão competentes quanto, logo ser um destaque se torna bem mais difícil, por se tratar de pessoas com perfis similares e com habilidade de argumentar e sustentar debates consistentes. A competição está lá, mas ela não vale a sanidade.

Um palco de aprendizado, mas também um palco de lutas. Os discentes conseguiram ao longo dos anos mudar estruturas que até então eram rígidas como pedra no ambiente acadêmico em geral. Não esquecer esses acontecimentos de expressiva importância em nossas vidas é fundamental para que as conquistas não se diluam ao longo do tempo, caindo no esquecimento, e nos deixando sujeitos ao retorno ao estado inicial. Os responsáveis pela perpetuação das já adquiridas e das novas vitórias que estão por vir, são os estudantes  e fazem isso mantendo uma memória viva de tudo que já ocorreu. A função da história é essa, impedir que haja lutas em vão, uma história relativamente curta de apenas 10 anos, mas que se assemelha a qualquer outra.

Esse curso vai além de ensino, pesquisa e extensão, de certa forma nos constrói como pessoas também, um curso de humanas que constrói humanos. Os ingressantes de 2017, logo na primeira semana, perceberam isso quando confrontados com a ideia de não conseguir definir em palavras o próprio curso, e de ver que este não se restringe a lei, que é essencial como a água, está em todo lugar, transborda da constituição, inunda a cidade da justiça, chove em toda cidade e alaga a universidade. Por que, afinal, o que é Direito?

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