Edição 15 · x

Entrevista com o Prof. Poveda, o primeiro diretor da FDRP

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Para iniciar a nossa edição comemorativa dos 10 anos da FDRP, resolvemos fazer uma busca ao passado da faculdade, antes mesmo dela existir. Para isso fomos atrás do Professor Ignacio Maria Poveda Velasco, o primeiro diretor da Faculdade.

Ócios de Ofício: Quando surgiu a primeira concepção de criação da Faculdade de Direito de Ribeirão Preto? E como essa ideia se desenvolveu? IP: A primeira inciativa surgiu no ano 91, quando chegou na Reitoria da Universidade uma solicitação das “forças vivas” de Ribeirão Preto (Prefeitura, Câmara Municipal, Fórum local, lideranças as mais variadas da Cidade, etc), para que a Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, então dirigida pelo Prof. Antonio Junqueira de Azevedo, criasse uma extensão do seu Curso de Direito, à semelhança do que a FEA de São Paulo tinha feito no ano anterior. Naquela ocasião, a Congregação da FD chegou a se manifestar favoravelmente, mas a ideia acabou sendo barrada no Conselho de Graduação da USP. Houve nova tentativa, também sem sucesso, no fim dos anos 90 e, finalmente, na gestão da Reitora Suely Vilela, em 27 de março de 2007, o Conselho Universitário da Universidade aprovou a criação da Faculdade, não mais como extensão da FD, mas como Unidade independente, com um projeto pedagógico próprio, diferenciado e inovador.

OO: Por que mais uma Faculdade de Direito na USP? Havia necessidade disso? E porque ela foi feita em Ribeirão Preto?
IP: O Estado de São Paulo tinha à época apenas duas faculdades públicas de Direito, a FD e o Curso da UNESP em Franca. Nesse sentido, havia uma pressão grande pela expansão da oferta de cursos públicos, particularmente no interior. Em que pese ter-se cogitado de fazer a Faculdade em outro município (Pirassununga, por exemplo, era uma das possibilidades), a opção por Ribeirão Preto deu-se por conta da mobilização local, já comentada, mas, também, pelo fato do Campus oferecer excelentes condições para a sua implantação e da Cidade ter uma maior expressão jurídica, econômica, etc, pensando na oferta de estágios e de futuros empregos. A experiência destes 10 anos de vida da FDRP provou o acerto daquela decisão.

OO: Como fundar uma faculdade? Quais processos são necessários para isso?
IP: Do ponto de vista jurídico e administrativo, fez-se necessário a aprovação da nova Faculdade pelo órgão competente, no caso o Conselho Universitário, e, depois, a criação de uma estrutura mínima para a sua implantação, a saber, a constituição de um Conselho Diretor e a nomeação de um Diretor pro tempore, que foi, naquele primeiro momento, o Prof. Junqueira. Do ponto de vista prático, fazia-se necessário começar tudo do zero… Ou seja, definir o projeto pedagógico e cuidar de sua implementação, contratar o corpo docente e os funcionários, receber os primeiros alunos, cuidar para que as disciplinas fossem oferecidas no tempo certo, construir os edifícios, estruturar os diversos órgãos colegiados, etc.

OO: Na época da criação da FDRP, a Reitora da USP era a Suely Vilela (professora da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto). Ela contribui de alguma forma para a criação da Faculdade? IP: A Profa. Suely Vilela teve papel fundamental na criação da FDRP. Como Reitora da Universidade soube ser sensível aos reclamos das lideranças de Ribeirão Preto, às quais se somaram, naquele momento, os Diretores das diferentes faculdades do Campus, e buscou os meios de fazer com que a proposta fosse retomada no âmbito da USP, até alcançar pleno êxito, com a decisão do Conselho Universitário, antes mencionada. Por essa razão, a considero co-fundadora da Faculdade, ao lado do Prof. Junqueira e de mim. Depois, já durante o processo de implantação, nós contamos com o seu apoio constante e incondicional. Sei que a Profa. Suely Vilela tem a FDRP como um dos seus orgulhos, em sua gestão à frente da Universidade de São Paulo.

OO: E o professor Antonio Junqueira de Azevedo (Ex-Diretor da Faculdade de Direito do Largo São Francisco, cujo nome é homenageado pelo Centro Acadêmico e pela Biblioteca da FDRP), qual foi a atuação dele para que surgisse nossa Faculdade? 

IP: Por ter sido o Diretor da FD à época da primeira tentativa de implantação do Curso e pelo prestígio de que gozava na Universidade e no Conselho Universitário, a Profa. Suely Vilela recorreu ao Prof. Junqueira para retomar o projeto da Faculdade em Ribeirão Preto, ao que ele respondeu com grande entusiasmo. Estou convencido de que a sua figura e o seu prestígio foram determinantes, como se de um aval se tratasse, para a aprovação do projeto no Conselho, o que se deu quase que por unanimidade (sem nenhum voto contrario e apenas um par de abstenções), votação essa rara no âmbito daquele Colegiado. Dar o nome dele ao Centro Acadêmico foi uma bela maneira que os alunos das primeiras turmas encontraram de expressar esse reconhecimento. Quanto ao nome do Prof. Junqueira dado à Biblioteca, foi uma proposta minha à Congregação, para agradecer a doação post mortem à FDRP que ele fez, a meu pedido, da sua biblioteca jurídica.

OO: Recentemente a Faculdade elaborou um novo Projeto Político Pedagógico, como foi escrito o primeiro PPP da FDRP? O que V. Sa. achou das alterações que vieram agora?

IP: O primeiro PPP da FDRP foi uma tarefa efetuada a várias mãos, na qual tentamos incorporar tudo aquilo que, pela nossa experiência docente, entendíamos que poderia fazer da nova Faculdade um projeto diferenciado. Aspectos como o período integral dos alunos nos primeiros anos do curso; um corpo docente maioritariamente com dedicação integral à docência e à pesquisa, com presença constante na Faculdade, de modo a construirmos uma Faculdade viva e não morta…; e, finalmente, um estágio curricular bem estruturado, que possibilitasse ao aluno um aprendizado prático real e uma inserção no mercado de trabalho, foram alguns dos pontos fundamentais para fazer do projeto da FDRP um projeto vitorioso, já desde a formatura da primeira turma. No tocante às alterações recentes do PPP, espero que elas sirvam para o constante aprimoramento do Curso.

OO: Como foi tirar a Faculdade do papel e fazê-la funcionar na prática? IP: Tirar a Faculdade do papel foi um desafio e tanto, que exigiu muito trabalho! Quando começamos a estruturá-la, em meados de 2007, meus cabelos ainda eram pretos… (rs). Mas, ao mesmo tempo, foi uma experiência muito enriquecedora e reconfortante, principalmente pela resposta entusiasta dos alunos das primeiras turmas, que eu chamei de “turmas fundadoras”, que desde o primeiro momento vestiram a camisa e atenderam ao meu convite para que assumissem a construção da FDRP como protagonistas da primeira linha… No início de 2008, quando recebemos os primeiros calouros, tudo estava por fazer… Não tínhamos espaço próprio e foi preciso arrumar duas salas emprestadas na FEARP; consegui um espaço na Biblioteca Central, para começar a formar a nossa Biblioteca; naquele início das atividades tínhamos apenas quatro docentes… Foi preciso refazer concursos ao longo daquele primeiro semestre para contratarmos os demais professores necessários para ministrar as disciplinas do primeiro ano; fui selecionando e formando a primeira equipe de funcionários, que foram fundamentais para pôr a Faculdade de pé… Em fim, são muitas as histórias e lembranças.., impossíveis de relatar neste curto espaço de papel…

OO: Qual foi a parte mais difícil de todo o processo? E qual a parte mais prazerosa?
IP: Com já disse, foram muitas as dificuldades… Foram como as “dores do parto”… Disso tudo só têm conhecimento as poucas pessoas que estavam comigo naqueles primeiros tempos. Por razões de idade e, principalmente, de saúde, o Prof. Junqueira só esteve fisicamente presente na Faculdade em três ocasiões: no dia 14 de setembro de 2007, quando foi feito o lançamento da “pedra fundamental” dos edifícios que hoje compõem a FDRP; no dia 25 de fevereiro de 2008, quando veio, a meu pedido, proferir a primeira aula inaugural na história da Faculdade; e em agosto daquele mesmo ano, para dar uma palestra na Semana Jurídica. Em várias ocasiões naquele primeiro ano, o Prof. Junqueira quis que eu assumisse a Diretoria pro tempore da FDRP, porque ele não estava tendo condições de se dedicar como desejaria…, mas eu insistia que ele continuasse à frente da Faculdade, primeiro porque eu tinha consciência clara da importância de termos nesse cargo uma pessoa com a grandeza dele; e, também, porque estava convencido de que a sua presença como Diretor era uma motivação para ele seguir em frente na luta contra a doença… De fato, passaram-se poucos meses desde o dia em que me “passou o bastão” e aquele em que veio falecer. Seguir adiante sozinho, sem contar com a sua orientação e apoio, não foi fácil para o jovem Diretor que eu era à época… Por tudo o que ele representou para dar vida a esta Faculdade é que fiz questão de mandar fazer um quadro a óleo dele e pendurá-lo no gabinete da Diretoria, como primeiro Diretor da FDRP. O busto que colocamos na entrada da Biblioteca segue na mesma linha de uma mais que justa e necessária homenagem. A parte mais prazerosa…? Ver os frutos, saborosos e maduros, de um trabalho árduo, aparecendo já com a formatura da turma primogênita. Aquela formatura, cheia de simbolismo e prestígio, foi inesquecível!

OO: Depois de ajudar a fundar e ter sido Diretor da FDRP nesses anos tão importantes, qual é o parecer de V. Sa. sobre os rumos da Faculdade? 

IP: A FDRP não nasceu para ser mais uma Faculdade de Direito… Num universo de aproximadamente 1.300 Faculdades de Direito, como existiam no País naquela altura, eu tinha claro que só faria sentido a USP investir recursos públicos num novo Curso, se fosse para termos uma Faculdade de excelência, E foi com esse espírito que trabalhamos. Penso que foi fundamental o comprometimento de todos – docentes, funcionários e alunos –, naqueles primeiros anos, para tornar isso uma realidade. Mais difícil do que construir 12 mil metros quadrados de edifícios, foi construir uma “alma”, para a FDRP. Vejo com otimismo os rumos e o futuro da Faculdade, desde que se mantenha esse sentido de responsabilidade na permanente construção da sua excelência, o que só é possível quando se trabalha com espírito público, deixando de lado questiúnculas e interesses pessoais, para pensar no interesse maior da Faculdade, como um todo.

OO: Alguma informação extra ou curiosidade que V. Sa. gostaria de adicionar?
IP: Lembro, com carinho, de um pequeno episódio, que mostra bem o espírito daqueles primeiros tempos. Em 2008 participamos pela primeira vez do torneio Intracampus… A nossa Atlética estava engatinhando… Tínhamos um jogo de futebol contra o time da Medicina. Prometi aos alunos que iria assistir o jogo, para prestigiar e animar a turma. O time da FMRP apareceu em campo todo uniformizado, com técnico, montes de atletas… com ar ameaçador. O nosso time, nem uniforme tinha: os alunos tinham comprado uns coletes “meia-boca” na Av. do Café e o número do jogador era feito e colocado ali na hora, com fita crepe. O jogo foi um massacre…: 10 a 1 para eles! No dia seguinte passei na sala de aula, lá na FEARP, para conversar, como fazia habitualmente, e tentar dar uma animada no pessoal, com a surrada frase: “o importante é competir”. Éramos os caçulas do Campus, quase que o patinho feio entre as demais Faculdades. Em 2011, último ano da turma primogênita, a FDRP sagrou-se campeã no torneio! Exemplo de superação e de construção coletiva da excelência, que hoje nos caracteriza em todas as áreas! Como disse, trata-se de um pequeno episódio, mas que mostra como é possível fazer tantas coisas boas, quando existe dedicação, perseverança e quando pensamos no bem maior da Faculdade. Espero que esse espírito nunca se perca, que as novas turmas saibam olhar com carinho para esse passado e pensem que agora é o seu momento de contribuir com a grandeza da Faculdade. Viva a FDRP, neste seus 10 anos de vida!

 

 

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