Edição 15 · x

Mitos fantásticos e onde habitam: a FDRP e o trote

Por Gubran Smaili (T.VII)

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Apesar de sua inegável importância, infelizmente, não vemos essa conversa acontecer com a frequência que exige, por um motivo óbvio: trata-se de relações de poder. Antes, porém, de entrar no mérito dessas relações, de como são reflexo do comportamento social majoritário e outros pormenores, gostaria de explanar o histórico do sobrestimado trote na nossa faculdade.

De 2007 à 2011, havia uma comunidade de alunos e alunas felizes, um ambiente inclusivo e tolerante no qual não existia necessidade de se debater opressões, uma vez que o paraíso era incorruptível e ali, portanto, essas mazelas não tinham espaço. Contudo, o apocalíptico ano de 2012 chegou e um seleto grupo de alunos e alunas (composto por pessoas oriundas de grupos sociais minoritários) publicizou uma carta de repúdio ao trote na FDRP e suas diversificadas práticas absurdas e agressivas. Como era de se esperar, o foco dos discentes à época, à priori, foi na sua forma, em vez de tratarem do conteúdo da mesma – que denunciava práticas machistas, misóginas, LGBTfóbicas, dentre outras.

Devido à inferência de autoridades públicas externas ao ambiente universitário, o trote federpiano jamais voltou a ser como era antes. Demos adeus, por incrível que pareça, ao “bixete pega disquete” que, sem dúvida alguma, era fator de suma importância para a inclusão das mulheres ingressantes à comunidade discente. Mas, desde então, os órfãos desse período de ouro criaram diversificados mitos para lamentarmos pela “falta de trote”.

A começar pelo mito da integração, alega-se que o trote era primordial para que os calouros e as calouras conhecessem seus veteranos e veteranas. De fato, é conhecimento notório e indiscutível que a melhor forma de se incluir era por meio de obrigar e coagir mulheres adolescentes a desfilar e recolher objetos do chão para que seus veteranos avaliassem seus corpos e lhes atribuíssem notas pela performance e por seus ‘atributos físicos’, enquanto as demais aguardavam pelo seu momento de glória, sob vigia, atrás de grades (no espaço do canil nas residências).

Apesar de vislumbrar o enorme prazer e alegria que deveria emanar de tal situação, devo discordar dessa metodologia tão humana e nada problemática de inclusão. Sem dados estáticos, porém, atenho-me aos diversos relatos de pessoas que conheci das mais variadas turmas nesses 4 anos de graduação para sugerir que, talvez, as relações mais verdadeiras, respeitosas e duradouras construídas no ambiente universitário se deram nas entidades estudantis, na construção e participação de eventos acadêmicos, nas conversas de canto em festas, ao invés de, por exemplo, terem surgido instantaneamente durante o ato de ser obrigado a se ajoelhar e ingerir bebidas alcoólicas de estudantes mais velhos ou após receber ofensas por não estarem usando a ‘coroa’ (que reforça uma ideia meritocrática velada e sua imposição não perpassa, de forma alguma, a livre e espontânea vontade de quem a usa, como abordarei a seguir).

Os trotes se fundamentam, histórica e socialmente, na divisão hierárquica entre trabalho intelectual e manual e numa visão individualista da educação formal como meio privado de ascensão social. Por exemplo, o choque de realidades causado pelos “desfiles” dos recém-aprovados nos vestibulares nas ruas se assenta na perspectiva elitista de superioridade dos futuros “doutos” frente ao cidadão que não teve a mesma oportunidade. E a sobrevalorização dos cursos nesses rituais se contrapõe à concepção universal e interdisciplinar da universidade. Sua finalidade é pautada por um particularismo corrosivo e antissocial. Sendo assim, os trotes são o reflexo e o reforço da estratificação social.

Ademais, o suposto consentimento do trote por muitos estudantes não foge ao paradigma da servidão voluntária, que pode ser esmiuçado pela dialética hegeliana do senhor e do escravo, na qual este faz dos valores do senhor os seus e passa a acreditar que o que é ideal para o senhor também é ideal para ele, escravo. E quando se dá conta que o senhor o oprime, receia lutar pela liberdade porque imagina se expor a represálias do senhor. Esse é um dos motivos pelos quais dezenas de alunos abdicam de dizer não para quatro ou cinco que lhes aplicam o trote. Esse medo prova que o trote se ampara na ameaça e na possibilidade da violência.

O acesso e a construção do ambiente universitário são permeados diretamente pela lógica de exploração de grupos sociais marginalizados pelos grupos sociais mais abastados. Nesse sentido, o trote tradicional, enquanto uma das primeiras ações que o e a estudante tem contato ao ingressar na Universidade, se apresenta como um espaço livre para a reprodução de discriminação para com pessoas negras, mulheres e LGBTs. Da tradição à integração, os mitos criados em torno do trote nada mais são do que uma cortina para camuflar a coação, a humilhação e os abusos que existem em muitos dos atos impostos aos novos estudantes.

Nas recepções alternativas, não só o termo “bicho”, mas também o termo “trote” precisa ser suprimido. “Bicho” porque designa a mesma necessidade psicológica já conhecida na fundamentação das investidas militares, que necessita primeiro desumanizar o outro para depois submetê-lo à violência. E “biXo”, com “X”, só descreve aquele (ou aquilo) que está marcado. Já “trote” por se achar impregnado de um sentido inerentemente negativo, marcado pela ideia de explorar ou subjulgar alguém. Em sua história secular pelos campi, os trotes não são se traduzem apenas em violência física, mas também simbólica e, talvez, tenham sido a primeira forma de bullying na educação.

Faz-se necessário entender que ao naturalizar relações hierárquicas e a tolerância a violência contribuímos para a perpetuação de situações de desigualdade. Nesse contexto, como alternativa a essas práticas é fundamental que os Centros e Diretórios Acadêmicos (e quaisquer outras entidades estudantis, assim como qualquer estudante) componham o processo de elaboração de semanas de recepção que visem a verdadeira integração entre o primeiranista e o restante do curso, sem o estabelecimento de relações hierárquicas e práticas vexatórias.

Além do mais, é imperativo que se construa um ambiente acadêmico cada vez mais consciente do seu lugar privilegiado perante o restante – majoritário – da população brasileira, uma vez que mesmo com mais da metade da população sem ensino médio e com índices de educação básica comparativamente baixos, o investimento por aluno no Brasil prioriza o ensino superior. Romper com tradições opressivas e excludentes, portanto, é um passo indispensável. Transformar os primeiros contatos do e da estudante com a Academia em um rito de passagem conscientizador e livre da reprodução de diversificadas opressões talvez permita que a produção acadêmica se alinhe cada vez mais com as demandas das classes excluídas do ensino superior (mas que o subsidiam por meio do pagamento dos impostos).

PS.: incluam Pablo Vittar, MC Carol, Rico Dalassam nas festas, pois se a mudança se dá, a priori, pelos detalhes, que as nossas playlists também sejam mais inclusivas. Afinal, esse texto não é uma ode à chatice, pelo contrário, sugiro apenas a construção de espaços que sejam “legais” para todos.

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