Alunos · Edição 15 · x

Sobre trote, maturidade e liberdade: uma questão de princípios e discernimento

Victor Cabral Fonseca é graduado pela FDRP-USP, Turma V. É advogado em São Paulo, especialista em Startups, Inovação e Empreendedorismo; mestrando em Direito e Desenvolvimento – Direito dos Negócios e Desenvolvimento Econômico e Social, pela FGV Direito SP.

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Sempre que é preciso traçar um juízo de valor – e que me perdoe o leitor avesso a isso, mas de vez em quando é necessário – precisamos ser, no mínimo, cuidadosos. A razão é bem simples: a linha entre o exagero e a generalização é muito tênue, e há sempre o risco de julgarmos uma coisa pela outra.

Serei um pouco mais direto: banana não pode ser confundida com maçã, Chitãozinho não pode ser confundido com Xororó e trote não pode ser confundido com violência. O problema está justamente aí: sem que haja uma diferenciação muito clara a respeito da natureza desses dois conceitos, uns acabam por exagerar aqui e ali e, desta forma, cometer erros imperdoáveis sob um pretexto de que aquele ato é uma simples brincadeira universitária. Enquanto o trote deve ser visto como algo minimamente aceitável e escusável, a violência não deve ser aceita em hipótese alguma – dentro e fora da comunidade acadêmica.

Assim, assumimos a concepção mais pura destas palavras. O trote universitário deve ter como fim a integração dos indivíduos, nunca sua humilhação; pode até ser travestido como algo “duro”, mas que na realidade tem um caráter muito mais inclusivo do que exclusivo. Ressaltando: ser duro não significa ser violento e intolerante.

Entrei duas vezes na Universidade. A primeira, em 2009, foi no Mackenzie, em São Paulo. Uma comunidade que, pelo menos na minha experiência, quase não prezava pelo convívio – é possível entrar e sair despercebido, conhecendo um ou outro no caminho e fazendo pouca ou nenhuma amizade. Não se raspava o cabelo, não havia “coroa” ou algo similar, não havia o contato próximo entre veterano e calouro. Mas também não tinha ninguém por perto para ajudar espontaneamente quando era necessário. Carona para voltar para casa? Só se dividisse o combustível e se estivesse no horário marcado na porta da faculdade. Caso contrário, tchau. Tal qual o tchau que dei para essa faculdade em 2010, quando por razões familiares tive que retornar a Ribeirão Preto.

Em 2012 ingressei na USP e me deparei com uma realidade totalmente diferente. “Usa a coroa”, diziam sobre uma faixa verde cheia de folhas e que ostentava um apelido recém-cunhado e gravado em corretivo na parte frontal. “Raspe o cabelo” falavam, antes de aparecerem com uma máquina regulada no pente zero. Estas situações me faziam questionar o que levava aqueles indivíduos a cobrarem certos comportamentos até então duvidosos. Foi num dia em que estava apressado na fila do supermercado que me dei conta do que estava acontecendo.

“Fala bixo, se precisar de carona só me da um toque” disse uma voz atrás de mim, sem que seu dono soubesse que eu estava em minha cidade natal. Apesar disso, ele sabia duas coisas importantes sobre mim: primeiro, que estudávamos na mesma Escola. Segundo, que meu apelido era “Kleitim” e que muita coisa era nova para mim. Não era o caso, mas eu poderia ali ser alguém cuja família estava a quilômetros de distância, me sentindo sozinho e morrendo de medo. Entendi, afinal, o que era aquele treco que eu usava na cabeça. E deixou de ser um treco para se tornar um símbolo do quanto era importante ter pessoas por perto.

Hoje, sinto que criei alguns laços para toda minha vida nos dois lugares em que estudei. Contudo, a experiência que vivi no segundo – quando estive na USP – foi indispensável para meu amadurecimento e para a construção de amizades que levarei por toda minha vida. Sem que tivesse passado por aquelas situações estranhas, que a princípio julgava ridículas, quem sabe eu não tivesse entendido que eram grandes piadas e que, algum tempo mais tarde, eu sentiria falta daquilo tudo.

Essa é a diferença do trote para a violência. O trote faz sentido; a violência é sempre sem sentido. O trote divertido não segrega minorias, não oprime pelo gênero, sexualidade, cor… Se ocorrer isso, não é trote. É falta de respeito – e até crime! É por isso que, por exemplo, um bando de homens gritando para calouras abaixarem não é trote; é violência, é barbárie. Já o o uso de uma coroa, no entanto, pode ter intenções muito mais nobres.

Outra característica que difere o trote da violência é o momento em que deve cessar a atitude, ou seja, a possibilidade de alguém simplesmente não desejar participar. Assim, mesmo em momentos em que a violência não exista, o indivíduo também tem o direito de se negar a participar da brincadeira, por mais inclusiva que esta seja. Para que não seja ultrapassado o limite do saudável, além do que disse até agora, é necessário que um simples “não” já baste para que a vontade do próximo seja respeitada. São comportamentos maduros das duas partes, e é o que se espera de um universitário prestes a dar um passo enorme em direção a seu crescimento pessoal e profissional.

Por isso, se eu pudesse dar um conselho pessoal aos que acabaram de entrar – e ainda vão entrar: raspem o cabelo, usem a coroa, se sujem de tinta, ostentem seus apelidos. É o momento de vocês – e de mais ninguém. No fim do dia, será a última vez em que vocês poderão fazer esse tipo de coisa sem julgamentos. Contudo, não cabe a mim decidir: cabe a vocês.

Aos que já passaram por isso, também fica um conselho: aceitem se os ingressantes não se sentirem à vontade para aceitarem as brincadeiras. Desde que elas sejam, de fato, brincadeiras – caso contrário nem pense em agir nesse sentido.

No fim das contas, o que devemos combater é a violência, independente de sua natureza. Temos inúmeros casos em que o universitário se sente coibido, diminuído, humilhado e excluído – não há motivos para aumentar este rol, somente diminuí-lo cada vez mais. Já o trote aceitável, por sua vez, deve ser sempre aquele saudável e uma faculdade dos envolvidos.

Afinal, maturidade traz liberdade. E a liberdade deve vir de todas as pontas. Seja para aceitar, para não aceitar; para brincar, para não brincar. O que não deve ser admitido, nunca, é que a dignidade seja violada e atos de violência sejam presenciados.

Mas daí, como disse, já não é trote. O problema é outro. E vai muito além dos muros da universidade.

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