Expressão · opinião

Treinamento intensivo para ser medíocre

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Por Pedro Liberato (Gugu) – TX

O lápis tamborilava na mão alva de nosso jovem, nem de nervoso, nem de amor, antes era o tamborilar firme de quem luta contra o dicionário. Com os olhos buscava a palavra ideal, buscava no teto, posteriormente no papel, mas não a achava. Achou! Eis a maior alegria do poeta.
Não lhe contei o mais fascinante de todo o conto: o poeta conta com míseros doze anos. Não são versos que marcarão a humanidade, mas para quem conhece o mundo há apenas doze anos, aquilo é fascinante. Diria haver ali a potência de um Drummond! Não… Drummond não. Não que o Gauche seja pouco, mas o moço não é poeta como Drummond, ele é mais que isso. Diria eu um protótipo de Da Vinci. Ele é tudo. Poeta. Romancista. Físico. Astrônomo. Psicólogo. Um pouco de médico. Com tal idade unia em si a seriedade e frieza de um cientista, junto à sensibilidade de um poeta. Sábio. Serei sincero, leitor, eu queria ser aquele moço. Essa porca história seria melhor contada por ele. Mas não é. Então se contente com este opróbrio narrador que te foi dado.
– Professora, leia e veja se está bom.
– Victor, deixe disso! Poesias novamente! Ao invés disso deveria estar ajudando seus amigos que estão com dificuldade em matemática.
– Eu ensinei, depois disse que deveriam praticar, mas optaram por ficarem bricando
– Tudo bem, depois eu leio. Prometo.
– Tudo bem.
Nunca leu.
Para a jovem professora todo aluno com dificuldade era fascinante. Interessava-se pelo histórico familiar da criança, seus traumas e sonhos. Todavia o jovem de nosso conto era um gênio e eis seu grande erro. No dia seguinte ao causo da poesia, fez o seguinte questionamento durante a aula em que aprendia área:
– Professora, como descubro então a área de um país, já que não se trata de um desenho linear?
– Victor, já conversamos acerca de tais perguntas.
Confesso que omiti aqui certa parte do que a professora proferiu, após o que ali está escrito, ela adicionou a resposta para a pergunta do menino, todavia para aqueles neurônios estava muito aquém do desejado. A professora abriu uma torneira tentando irrigar um deserto. A sentença que fora eternizada da professora neste conto é a mesma que se eternizou no coração de Victor e posteriormente foi bombeada por todo o corpo. Para que tais perguntas? Convenhamos que são peculiares e há nelas certo mistério. Assim como um som revela o que se passa por trás de quatro paredes, uma fala revela uma mente inquieta. Porém as dele eram embaraçosas demais. Deixemos de perguntar, pensou o jovem, passemos a investigar por nós mesmos tais dúvidas e assim melhor desenvolveremos nossos instintos investigativos. Pois foi atrás da resposta.
Perdão, mas preciso lhe perguntar algo. Ficaria o leitor impressionado se lhe dissesse que o jovem tornou-se autodidata? E que ao término de um mês já estava instruído por si só em todo o conteúdo que havia de ver naquele ano? Pois bem, foi isso que sucedeu. Os pés correram a frente dos demais enquanto permaneciam parados na presença de alguns livros. Mas não corramos nós, contemos a história lentamente.
Houve uma época de grande paz entre o aluno e os professores, principalmente porque nenhuma palavra saía da boca do jovem. Até que… Veja quão inquieto é a mente dos que pensam, seus cérebros são como o céu na noite de ano novo, brilham com os fogos das sinapses, correm feito máquinas para pensarem feito humanos; porém não satisfeitos com pensar, movem seus corpos em direção as revoluções e evoluções e se deparam com uma sociedade estacionada no Carnaval e que, portanto, não deixa chegar o próximo ano novo.
… até que a professora acabou por proferir a seguinte sentença:
– Como disse Voltaire: “Posso não concordar com uma só palavra sua, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-las”
– Professora.
– Sim.
– Na verdade é duvidoso se Voltaire é o real autor de tal frase.
– Não diga bobeiras, ele é o autor.
– Creio que não até porque…
– Poupe-me de seus porquês, guarde seu conhecimento para você! Quem está dando aula sou eu! Ou você me respeita ou sai da sala!
Guardou…
… e pensou.
Passara todo esse tempo analisando a escola sob a óptica do ensino, no qual a finalidade é a cultura e o desenvolvimento crítico dos que lá estão por parte dos professores, portanto ao ver o equívoco da professora, sentiu-se no dever de corrigi-la a fim de trazer a tona a verdade. Após o dito da professora, seus óculos trocaram e analisaram através da lente hierárquica, no qual a professora é a Sra. Feudal e os alunos os servos, todos fechados num micro mundo, logo sua melhor atitude era ficar quieto. Percebeu haver entre eles uma quieta e quase sombria relação de poder, na qual ele não estava ali para aprender, mas para reverenciar a majestade da professora, que se curvaria diante da diretora, fazendo nascer uma teia de poder tão forte e tão quieta, que amarrava a todos sem ser perceptível por ninguém. O garoto posteriormente encontrou o nome disso na filosofia francesa, chamava-se “microfísica do poder”. O nome agradou ao jovem, mas não a realidade dura da hierarquia dos egos.

Dali em diante permaneceria com seus lábios fechados. Todavia, leitor querido, tu conheces bem uma panela de pressão, se fechar suas válvulas e deixá-la totalmente isolada do meio, terás em mão uma bomba que a qualquer hora pode fazer-se conhecer ao mundo.
Explodiu. Viam-se apenas palavras. Versos queimados e quentes. Qualquer um que o tocasse teria em sua alma hematomas e cicatrizes, talvez passageiras talvez eternas e então todos quanto te vissem veriam que esteve com aquelas poesias em mãos.
Ao término de um mês o garoto reunia 35 poesias, todas ardentes, todas sufocantes feito fumaça e brilhantes como a brasa.
– Professora, leia.
– Assim que der eu leio.
Não leu. Victor observou que ela não leu. Ao que parece este incêndio passou despercebido e a chuva do desprezo o apagou. Tudo que vemos é uma casa demolida e sem palavras, pois essas escorreram junto a chuva pelas ruas e calçadas. Um gênio? Não mais. Não havia sentido em correr na frente, se lá havia só ele. Solitário. Sozinho junto ao horizonte, enquanto os demais nem mesmo olhavam para o Sol. Essa é a história resumida de como ele tornou-se mais um. Chegou ao término do ano sem versos, sem questionamentos e sem correções a professora.
– Maria, como anda o Victor, meu filho na escola.
– Do começo do ano para cá houve uma melhora visível no comportamento dele.

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