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Caras legais

Por G.

Ele é um cara legal; me buscou em casa, me cumprimentou com um beijo na bochecha, me levou para jantar. Ele é um cara legal, tudo bem se ele chamou de “rodada” uma menina da sala dele por ter beijado vários caras, sendo que ele próprio também fica com um número grande de garotas. Ele é um cara legal e eu que não sou legal por não querer dar uns amassos no banco de trás do carro dele. Ele é um cara legal, então eu relevo que ele colocou a mão no meu peito mesmo eu não dando abertura para isso; eu tiro como quem tira doce de criança e ainda peço desculpas por não estar com vontade de fazer nada daquilo. Ele é um cara legal, diz que não tem problema, que vai me levar pra casa, mas primeiro ele pega no meu pescoço, me puxa pra um beijo e coloca a mão na minha bunda. Ele é um cara legal, ele me deixou em casa e disse que adorou o nosso encontro.

Eu chego em casa vazia. Não há ninguém ali, todo mundo está curtindo o sábado e eu ainda estou tentando me desvencilhar dos beijos que eu dei quando não queria dar. É curioso como as pessoas agem diferente quando a música está alta e tem uma multidão ao redor. Eles sempre são tão legais quando está todo mundo ali curtindo a mesma vibe, com um copo na mão e um sorriso no rosto. Num primeiro momento, recebo elogios, sou digna de interesse, sou mulher. Aí nossos lábios se encontram e tudo fica bem. No dia seguinte, ele me chama pra sair e eu aceito; sou fácil, presa certeira, pedaço de carne. Quando estamos a sós eu perco o controle da situação, ele muda os planos, me leva pra longe. Eu não conheço a cidade, não sei para onde ir, não sei quem chamar. Eu permaneço ali, sorrindo, porque ele ficaria chateado se eu mostrasse quão desconfortável eu estou e eu não sei como ele age quando fica chateado; não quero correr o risco.

Mas não tem problema, existem outros caras legais de verdade por aí. Esses dias mesmo eu fui comentar que não gostava do jeito que estavam me tratando e um cara legal me disse pra parar de frescura, que a vida era assim mesmo, que essas coisas acontecem, eu não deveria ficar deprimida por qualquer coisinha. Então eu peço desculpas, porque de fato estava sendo muito ingênua, onde já se viu um homem respeitar uma mulher? Ainda mais uma que beija quem e quantos ela quiser…

Uma vez um outro cara legal me disse que eu não deveria ficar com as pessoas em festa no meio de todo mundo, era desagradável e sem noção da minha parte. Eu expliquei pra ele era tudo uma questão de ser precavida. As chances do cara estar querendo ir muito mais além do que eu, são altíssimas e na minha cabeça, se eu isso acontecesse na presença de vários, alguma alma boa interferiria e me tiraria dessa enrascada. Ué, mas se você não quer nada demais, por que provoca? Por que fica com ele em primeiro lugar? É que eu sou confusa, contraditória, não sei o que quero; deve ser graça, falta de rola.

Chega a ser engraçado pensar que quando eu falo para alguém que estou com medo de fazer parte das estatísticas, a pessoa tende a se mostrar toda sensibilizada e me garante que eu não vou ser vítima de assédio, que ela vai fazer o máximo possível pra evitar isso. Mas, no dia seguinte, o amiguinho conta a história da noite passada de como ele agarrou uma menina bêbada e a primeira pergunta que essa mesma pessoa faz é se a menina era gostosa. Gostosa. Igual comida que você coloca na boca, sente o gosto, se satisfaz e joga fora quando não quer mais. Como você quer que eu fique mais tranquila assim? Com o riso fácil, é difícil ver se as mãos que estão sendo estendidas a você são sujas; a gente espera ajuda e acabamos sendo despidas. É difícil reagir quando uma língua confiante te invade a boca e o peso de um corpo te empurra contra a parede. A menina nunca disse que queria ficar com seu amigo, mas você supõe que seu amigo é legal o suficiente para saber o que ela quer. Seu amigo é um cara legal, e você também.

Todos os dias eu cruzo com muitos caras legais, caras que já forçaram a barra, caras que falaram (e ainda falam) as palavras mais desrespeitosas que eles conhecem, caras que só conseguiram um sim porque eu não estava em condições de dizer nenhuma palavra. Alguns me dizem oi, alguns esperam eu passar pra reparar na minha bunda, alguns fazem cara de desdém. Eu sempre me concentro em andar até o fim de corredor com confiança suficiente para que ninguém perceba que tem algo errado ou o quão incomodada estou. Finjo que nada aconteceu, e repito pra mim mesma que talvez ele estivesse num dia ruim, que eu estou encanando demais com isso, que ele é um cara legal.

Sempre sou levada a acreditar que o problema sou eu. Eu que não sou legal, eu sou complicada e cheia de frescura, faço drama pra tudo, não sei o que quero. Os caras legais cospem em mim, abrem feridas, fodem com meu corpo e meu psicológico. E eles, sempre tão gentis, me convidam a ser legal também, a ficar quietinha, a fazer que nem eles; mulher boa é mulher quieta. Mas eu não sou boa e nunca fui legal, então eu estou quebrando esse silêncio do mesmo jeito que eles adoram me quebrar.

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