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A Polissemia de Mãe!

jennifer-lawrence-em-mae-1504618181222_v2_900x506Davi Veronese (Jobim) – TX

(ESSE TEXTO CONTÉM SPOILERS)

O filme Mãe!, de Darren Aronofsky, teve, aparentemente, uma repercussão bastante polêmica. De fato, apesar do direcionamento que o último diálogo entre o Poeta e a Mãe fornece ao espectador, trata-se de um filme suficientemente aberto para admitir uma série de interpretações, algumas complementares, outras conflitantes. Além das inúmeras alegorias bíblicas, Mãe! pode ser analisado sob prismas ecológicos e, em alguns momentos, até históricos. Meu interesse aqui, vale ressaltar, reside na metáfora, no subjacente. Quanto às outras opções estéticas do diretor ou à performance dos atores, deixo a quem possa abordar com maior propriedade.

Logo no início, percebe-se a relação íntima entre a Mãe e a casa. Esse é um ponto importante, pois, quando se tenta fazer uma análise por correspondências bíblicas, é relativamente fácil identificar os correspondentes a Deus, Eva, Adão, Caim, Abel etc. Com a Mãe, entretanto, não há correspondência tão simples. “Ela é a casa”, mas não só. Ela é a personificação de certos elementos heterogêneos antes omissos por ausência de voz. A personificação da Mãe é um processo de atribuição de voz, por exemplo, à natureza, ao amor, ao sofrimento, ao horror. Em resumo, aos diversos substratos criativos e destrutivos. A Mãe expressa o contraste. Por isso a personagem de Jennifer Lawrence é caótica quase do início ao fim; por isso ela nunca sai da casa; por isso ela é sempre acompanhada pela câmera.

Talvez essa interpretação da Mãe ajude a entender como o Poeta, correspondência bastante humanizada de Deus, não parece ser tão onipotente. Ele precisa dela para escrever/criar (“No princípio era o Verbo”).  O cristal, cuja quebra provoca a expulsão de Adão e Eva do Éden (sala no andar superior), é o resquício de amor da Mãe, o qual permite o recomeço, a nova tentativa. Essa nova tentativa pode ser interpretada de duas formas: ou se trata de um movimento cíclico destinado à repetição do mesmo fracasso, ou, sem determinismos, há chance de a história não se repetir. Prefiro acreditar na segunda opção.

Mas não há apenas alegorias religiosas. Quando o poema finalmente está concluído, e a Mãe está grávida, o caos dentro da casa parece revelar uma sucessão terrível: violências físicas, pestes, fundamentalismo religioso, totalitarismos, campos de concentração etc. Parece um painel cronológico – da Idade Antiga à Segunda Guerra – dos horrores da história humana. A cronologia acaba com a morte do filho, representando a crucificação de Jesus, em uma cena extremamente perturbadora. É interessante observar como, ao longo de todo o filme, fica marcada no piso da casa a violência primordial: o fratricídio de Caim.

Do ponto de vista ecológico, percebe-se que a sequência de violências não afeta apenas as pessoas, mas também a casa. As pessoas se multiplicam, e cada vez menor é o cuidado em relação à casa, que, ao final, é completamente destruída.  Se, como proposto, é possível interpretar a Mãe como uma personificação também da natureza, tem-se aí uma discussão bem contemporânea. É sugestivo lembrar que, na origem da palavra “ecologia”, está presente o grego “oikos” (casa).

Essas são apenas algumas das interpretações possíveis para Mãe!. Há ainda alguns enigmas importantes, e talvez o maior deles seja o significado do pó amarelo que, quando se sente mal, a Mãe bebe. É claro: a dúvida é perfeitamente compatível com o filme de Aronofsky. Afinal, interessante de Mãe! reside nisto: procurar sentido, atribuir sentido e fazer reflexão.

 

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