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E então, valeu a pena ser presidenta?

Por Larissa Porto (Pixie) – TIX

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Quando fui escolhida para ser presidenta do CAAJA, muitas opiniões divergentes surgiram. “ Você tem certeza que você vai dar conta? ”, me perguntaram. E não me perguntaram porque se preocupavam com minha saúde, minha vida acadêmica ou social, mas sim porque duvidavam. Afinal de contas, sou pequena, estava no primeiro ano, não sou de fazer lobby, e até mesmo, diferentemente das últimas presidentas, meu tom de voz não é tão incisivo. Não teriam como me levar a sério. Do outro lado, contudo, tiveram aqueles que pensaram que, apesar de tudo, é bom ter uma mulher na presidência, só por imagem. Agrada aos olhos de quem vê. Se for assim, com esse jeito maternal e doce, é até mais fácil. Por fim, vieram os olhares tortos, desconfiados, porque, apesar de não ser a figura (estereotipada) de mulher durona, falo o que penso, e ninguém gosta de quem não tem medo de se posicionar. Ainda mais se for mulher, dessas que “não entendem o seu lugar”.

Talvez eu não tenha demorado tanto assim para mudar as opiniões daqueles que, por trás de mim, se inquietavam. Tudo começou com o fatídico texto sobre as coroas (que, se fosse escrito por mim hoje, teria sido muito diferente). Foi com ele que os olhares tortos começaram, e depois, com as posições que fui tomando ao longo do ano (depois de ter errado tanto, diga-se de passagem). Passei por diversas situações, como no dia da última prova do ano passado, quando eu me coloquei contra uma lista passada no anfiteatro durante a prova para “pedir desculpas” a um professor, porque alunas o consideravam machista, e um dos alunos gritou comigo me chamando de histérica. Naquele dia, fui para o Churras de Fim de Semestre com três amigas, porque tive medo de chegar sozinha e – acreditem – de ser agredida.

Não parou por aí. Antes mesmo da Caleidoscópio assumir o CAAJA, escutei que eu estava indo um pouco longe demais, que talvez eu devesse segurar um pouco nas minhas falas. Falar menos, não ser tão direta nas minhas discordâncias, para que os meninos pudessem se expressar. Algumas semanas depois, eu precisei explicar o problema de homens interromperem mulheres em suas falas e de explicarem a elas conceitos que já sabem, e porque isso estava acontecendo. Não demorou muito para me chamarem de autoritária.

Então, veio a polêmica com os termos “bixo e bixete”. Fui acusada de ser responsável por censura, ouvi dizerem que não tínhamos (eu e a entidade) mais o que fazer, vi alunas serem expostas por meio de fotos, intimidações serem feitas. Um show de violência. Aos que não lembram, fui marcada tantas vezes no post do Direito USP que me senti obrigada a postar um texto elucidativo na minha página pessoal. Dele, retiro a seguinte passagem:  “A Universidade é reflexo de situações de exploração, discriminação e violência. Terminar os cinco anos na faculdade de Direito sem consciência disso é preocupante. Aos juristas e futuros juristas, que tanto gostam de denominações, sugiro que repensem a graduação. Sempre é tempo de reconhecer que a formação acadêmica não supre a formação humana”.

O ano de 2017 começou, então, com muitos olhares tortos. Escutei piadas das mais diversas pelos corredores pelo meu posicionamento em relação ao trote. Ainda que as pessoas e o Centro Acadêmico não sejamos uma coisa só, eu e as outras mulheres da gestão fomos marcadas nas festas e nos corredores por termos adotado uma postura de acolhimento e recepção, como se isso fosse algo ruim. Os homens, por outro lado, não. Creio que realmente compreendi o termo “brotheragem” nesse momento: tiram o corpo fora para não gerar discordâncias com amigos, juntam-se nas piadas e protegem um ao outro. Elas, “as loucas”, que respondam por isso.

Na sequência, fui acusada de fazer perseguições e de não saber dialogar, além de querer ser a “dona da verdade” e de tomar decisões sozinha. Engraçado como ter opiniões próprias e exteriorizá-las é querer ser “dona da verdade”, e como “tomar decisões sozinha” é consequência de não ser ouvida quando se cobra participação, se delega tarefas ou simplesmente se é proativa. Em todas as vezes que precisei chamar atenção de alguém – porque esta é, adivinhem, uma das atribuições do cargo – surgiram olhares tortos e caras feias. E assim pipocaram adjetivos sobre mim: mandona, ditadora, autoritária, arrogante, incontrolável, histérica, individualista, mimizenta, vitimista e vários outros. Chegaram a dizer, até mesmo, que as meninas do primeiro ano que me escolheram como madrinha tinham cometido um erro. Por incrível que pareça, a gestão segue com uma delas na presidência.

Agora, com o fim da gestão se aproximando, me perguntaram se valeu a pena. Valeu, eu digo, e falo por mim e por aquelas e aqueles que efetivamente estiveram dentro do CAAJA, e não apenas de fachada. Valeu a pena porque cresci enquanto pessoa e vi muitas alunas e alunos crescerem com o nosso projeto de Centro Acadêmico. Encheu meus olhos ver tantas pessoas trabalhando juntas pelo Workshop e lutando juntas contra os desmandos da nova Diretoria da FDRP. Orgulhei-me pelas coisas pequenas, como uma simples limpeza na sala do CA, pela recepção dos calouros, feira do livro, semana de arte… Orgulhei-me por ter ampliado as discussões políticas dentro da nossa unidade, debatendo sobre eleições de departamento e comissões, separação de vestibular, paralisações, posições em relação ao governo atual, e por ter tentado ao máximo democratizar as decisões. Sinto-me satisfeita pela administração institucional da entidade, pela sua atuação política, pela sua movimentação cultural. Sinto que poderíamos ter feito mais, mas que fizemos o que, nos nossos momentos de desgaste e pressão, estava em nosso alcance.

Lembro-me quando houve a troca de gestão, ano passado, e a até então presidenta me disse que eu precisaria de muita coragem e que, sobretudo, ia precisar cuidar de mim. Sabia que precisaria de força para aguentar não só a pressão de ser presidente, mas de ser presidenta. E só consegui porque tive comigo mulheres maravilhosas e destemidas.

Olho para 2017 e vejo que, apesar de tantos golpes, as mulheres tomaram todos os cantos da FDRP. Sem abaixar a cabeça, aguentando todas as críticas e desafios, estivemos lá. Estivemos nos cargos mais altos das entidades, na presidência e tesouraria do CAAJA, na vice-presidência e tesouraria da Atlética, na presidência da Jurisconcultus e do Cursinho Popular. Tivemos nossa primeira mestra da Bateria, vimos nossa força e coragem ser passada adiante para as novas gestões. Foram mulheres que estiveram arregaçando as mangas e mostrando que sabemos liderar, que temos competência suficiente para trabalhar e responsabilidade de sobra para lidar com problemas.

Sei que todas nós fomos deslegitimadas e passamos por situações de machismo neste ano. Agradeço-as por terem tido coragem de encarar as funções e de enfrentar os problemas. Espero que as mulheres que assumirão estes cargos encontrem cada vez menos empecilhos e mais apoio nessa jornada. Sinto orgulho por ter feito parte desta luta e por ter encarado da melhor maneira que pude o desafio que me dispus a enfrentar – enquanto pessoa e enquanto mulher. Como disse a nova presidenta do Centro Acadêmico, “Aos que me chamam de estressada, mandona e autoritária eu digo: pulso firme, eficiente e espírito de liderança”. Às irmãs que me acompanharam no CAAJA esse ano, meu muito, muito, muito obrigada. Vocês são mulheres que admiro e respeito. Persistiremos e seguiremos unidas, porque juntas somos mais fortes.

 

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