Além da sala de aula · opinião

O palavrão, a ausência de uma palavra e a falta de palavras

rotulo-22

Por Professora Iara Ribeiro

O que aconteceu foi o seguinte: desde outubro tenho procurado em várias lojas aqui em Ribeirão Preto uma caneta de luz negra para meu filho. Sábado (25.11.2017) me lembrei de uma papelaria na Av. Portugal. Muito embora jamais tenha comprado algo lá, porque nunca tem o que procuro, pensei que não custava nada tentar.

Entrei na loja e não vi nenhum atendente, olhei por todo lado, chamei dizendo “Bom dia”, esperei, chamei “Bom dia” mais alto. Saí da loja, pensei que pudesse ter um sensor (desses que tocam quando entra) aí entrei pela outra porta da loja e nada.

Nisso entrou outra cliente, e eu já ia desistir, quando do fundo da loja uma homem veio em nossa direção, daí eu disse qualquer coisa sobre o tempo em que a loja ficou sem ninguém e ele já falou grosso “Não posso lavar as mãos?”. A forma como falou foi tão grosseira que eu disse que não queria comprar mais nada, aí ele disse “VAI TOMAR NO … “. Fiquei tão surpresa! Ultrajada! Ofendida! Indignada! Eu estava ao lado de um exemplar do Código de Defesa do Consumidor! Eu peguei o livro e mostrei pra ele, que me agarrou pelo braço com uma mão e com a outra puxou o livro. Então me virei para a mulher que estava ao meu lado e perguntei se estava vendo tudo aquilo, para minha surpresa ela fez cara e mãos indicando que não ia se envolver, eu perguntei para ela “Não é possível que você irá comprar nessa loja?”.  O homem ficou ainda mais alterado, começou a me chamar de louca, disse para eu me tratar, perguntou se eu não fazia xixi… eu perguntei mais uma vez para mulher se, mesmo presenciando tudo ela ainda compraria na loja? Como agiu como se não se importasse, como nada dissesse, eu, sem palavras, saí.

Impotente. Sem testemunha, sem nada, só com a minha palavra… com um sábado repleto de coisas para fazer, com crianças me esperando… com receio da situação tomar proporções trágicas… tive medo, raiva, decepção.

Sou mãe, sou professora. Falo de coragem para meus filhos. Ensino sobre direitos para os alunos. Senti que falhei com todos.

Passado o episódio, acalmado o coração, dissipada a raiva e a tristeza, resolvi escrever, primeiro só para registro, depois para compartilhar, dialogar sobre a frustração dos “direitos”, sobre como ser/pertencer/estar em um grupo vulnerável afeta a própria voz.

De tudo conclui o quanto é necessário apoiar as pessoas, ser solidária, se indignar com as injustiças.  Desta vez, a vítima fui eu; de outra vez, poderei estar no lugar daquela que se calou, sei, agora, que agirei diferente.

Ontem foi só uma batalha.

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