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Considerações sobre aula e pesquisa no meio acadêmico

Por Thiago Coelho – TIX

A sala de aula, vista como o modelo clássico do sistema educacional, sofre críticas há séculos. Ao longo de todo esse tempo, a pesquisa firmou-se como uma das, senão a maior, via alternativa capaz de corrigir as defasagens que a aula, enquanto meio de transmissão de conhecimento improdutivo baseado na “decoreba”, carrega. Acredito no potencial emancipador da pesquisa e concordo com os críticos das aulas que é através daquela que se produz conhecimento e se aprende, efetivamente. Contudo, a valorização crescente da pesquisa, no meu ponto de vista, precisa estar acompanhada essencialmente de dois fatores, quais sejam: as noções iniciais vindas de uma aula correta, e a relevância da pesquisa para a sociedade e para quem pesquisa.

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Comecemos abordando o primeiro fator. A sala de aula, utilizada por si só, vista como método principal de aprendizagem, é um erro. Isso porque baseia-se, quase sempre, em uma transmissão unidirecional, sem participação do aluno, sem a devida abrangência das várias facetas do conhecimento pelo professor e sem o espaço para uma construção conjunta dele, muitas vezes tido como algo pronto e a ser decorado palavra por palavra. Contudo, a aula expositiva e a explicação pelo professor não são descartáveis. O que temos é uma má utilização desse espaço pelo meio acadêmico e seus sujeitos, principalmente pela errônea e predominante noção de que bons pesquisadores são bons docentes sempre, em detrimento da valorização da habilidade de ser professor, saber planejar e dar uma aula. Se passarmos a valorizar e avaliar, no candidato à docência, a capacidade para trabalhar em sala de aula métodos e estratégias de construção do conhecimento, e não só se ele sabe ou não sobre determinados temas, tal espaço poderá exercer papel muito importante na formação do aluno e na maior utilização da pesquisa como meio de aprender. Bons docentes poderão tornar a sala de aula o espaço de se descobrir e fomentar a pesquisa, além de incentivar os alunos a participarem de forma ativa na sua aprendizagem, descobrindo autonomamente e questionando com o objetivo de aprender.

Em suma, o que defendo aqui é que a capacidade que um pesquisador tem de produzir conhecimento não é a mesma que ele tem para ajudar alguém a produzir, e por isso não podemos deixar que pesquisadores não-docentes assumam o papel de docentes e prejudiquem o importante papel que a sala de aula pode ter na construção do conhecimento e na realização de pesquisas.

O outro ponto que considero essencial é a relevância da pesquisa. Esse apontamento não é algo raro: boa parte da comunidade acadêmica faz questão de pontuar que pesquisas devem ter relevância, inclusive usando tal fator como critério de avaliação de teses e outros meios de produção científica. Entretanto, vejo que o “falar sobre” não se reflete na produção, e isso, acredito, também pelo abuso da pesquisa como método e avaliação.

Com o entendimento acerca da importância da pesquisa na formação do conhecimento, tornou-se banalizado entre os diversos espaços acadêmicos a pressão para que todos os alunos escrevam, no mínimo, um projeto de iniciação científica além do trabalho de conclusão de curso. Nesse contexto, e falo a partir da observação da minha experiência dentro de uma faculdade de direito, pesquisa-se pela simples necessidade de se pesquisar, em um movimento autorreferente muito desgastante desse método de ensino. Percebo que os alunos, e aqui eu me incluo, desde o início da sua experiência na graduação, buscam incessantemente um tema para pesquisa, falam com qualquer um que os aceite como orientandos, e desenvolvem pesquisas irrelevantes e desinteressantes até mesmo para si, na maioria dos casos.

É por entender a situação dessa forma que considero a dupla relevância (social e pessoal) como segundo fator para a produção de pesquisas enquanto método de construção do conhecimento. A pesquisa é importante, mas é essencial que ela surja a partir de um real interesse e questionamento do pesquisador, que ela seja um campo em que aquele que pesquisa se sinta motivado a descobrir a resposta a surgir ao final dos trabalhos. Obedecido tal quesito, muito provavelmente já se terá algo relevante socialmente, pois que o questionamento deve ter respaldo em vários colegas de graduação já estudaram o mesmo tema, por exemplo. Mas ainda assim, não peca aquele que verifica se o que pretende pesquisar vale os esforços, em termos de relevância para a sociedade, da longa jornada que se iniciará com o projeto de pesquisa.

Essas são considerações que a muito gostaria de fazer sobre a pesquisa no meio acadêmico. Não sei se me encaixo na categoria dos “auleiros inveterados” que coloca Pedro Demo, crítico ferrenho desse método de ensino, mas serei sempre um defensor das boas aulas dadas por professores de verdade, e não apenas pesquisadores ocupando posições que não dominam. Acredito que assim teremos alunos melhores, pesquisas melhores, e de certo muito já estará encaminhado para superar o abuso de pesquisas irrelevantes que acontece hoje no meio acadêmico.

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