Aconteceu na Federpe · Além da sala de aula · Edição 16 · Entrevista · x

Entrevista: Andre Simionato e Jesus Pacheco

Sem título

Por Marcela Saddi

Há várias dúvidas, curiosidades e teorias sobre a FDRP, as quais tratam desde a inexistência do prédio quando as primeiras turmas ingressaram até sobre o misterioso bloco que deveria ser o principal ponto de convivência da faculdade e nunca foi construído.

Em busca de saber mais sobre esse local em que passamos tanto tempo o Ócios buscou entrevistar Jesus Pacheco Simões (T.IV), presidente do CAAJA na época da tentativa de expansão, e Andre Semionato Castro (Montanha – T.II), membro do grupo de Direito Urbanístico e sócio de um escritório da mesma área.

Ócios de Ofício: Como o projeto de expansão da faculdade surgiu? Era viável na época? E atualmente?

Andre Simionato: Desde a construção do que se tem hoje sempre houve a expectativa de novas expansões. Naquela época se tinha a ilusão que o dinheiro da USP não seria problema (rs!) e projetos foram foram encomendados por volta de 2011-2012. A expansão previa o aumento da biblioteca e a construção de um novo bloco atrás dela, conectando com o bloco B. Lá ficariam as salas das entidades estudantis, novas salas para a pós graduação, um espaço de convivência. Lembro que inclusive pesquisei, junto ao professor Márcio, alternativas de sustentabilidade para esse novo bloco, para sugerimos à faculdade durante a construção (telhado verde, mictórios ecológicos, materiais de construção reciclados e etc.). Acontece que logo depois a USP  “quebrou” e o novo bloco foi adiado (muito mais adiadas as adaptações ecológicas rs).

Jesus Pacheco: O projeto de expansão da Faculdade surge em um contexto de grandes obras e investimentos na gestão Rodas da reitoria. Lembro que as discussões eram no sentido de que tínhamos que aproveitar o “boom”, pois a enfermagem e FEA-RP já estavam em construção. No final de 2013 tentaram acelerar o projeto para finalizá-lo antes dos grandes cortes, que já ameaçavam surgir.  Não recordo de avaliações financeiras em relação a viabilidade do edifício, mas certamente a USP realizava gastos em infraestrutura enquanto possuía um descompasso em suas finanças ordinárias.


OO: Até que ponto a estética do prédio é preferível frente os problemas de manutenção e o esforço de manter tudo sempre limpo?


AS: Não sou especialista em construção e acredito que a pergunta é bastante pessoal. Então, com base na minha opinião de leigo, acredito que estética e manutenção não andam necessariamente em lados opostos. Quando pesquisei sobre alternativas sustentáveis para o novo bloco, por exemplo, descobri que um telhado verde (coberto de grama) sobre o concreto reduzia quase 3 graus nas salas de aula, aliviando o gasto com energia e, portanto, o uso de ar condicionado. Além disso a redução de amplitude térmica aliviava as expansões e contrações do concreto sob o sol e, então, diminuía as rachaduras (e, consequentemente,  a manutenção). Então, você pode tanto ter um prédio ” feio” e custoso como pode ter um prédio bonito e econômico, não são critérios opostos.

 

JP: Acredito que há uma manutenção excessiva quanto a limpeza, que foi uma grande preocupação do Centro Acadêmico e de outras entidades; todos os dias o prédio era lavado completamente com água, mesmo em períodos de seca. Tal atitude sofreu mudança com os cortes de gastos; assim como as mudanças jardim, que ocorriam com grande frequência. Quanto a manutenção de pintura e estrutural, começamos a ver algumas falhas, alguns banheiros com falta de manutenção, assim como o gradil (que já teve que ser retocado e reforçado pela ferrugem). Quanto a parte da construção do edifício, o novo bloco teve projeto realizado pelo mesmo escritório de arquitetura, tendo novos espaços e com a proposta de corrigir alguns problemas de execução da obra (nas palavras do escritório) que causavam a inundação de corredores na chuva (e nas lavagens), assim como o excesso de luz na biblioteca e entre os blocos (construção de estrutura nas vigas entre os blocos). Finalmente, a estética é preferível no ponto de sua manutenção necessária que evite o perecimento de sua infraestrutura e usabilidade.

OO: Qual foi a impressão que você teve, depois de ver o prédio sendo construído, ao entrar na FDRP pela primeira vez para ter aulas?


AS: A primeira sensação foi de orgulho e alívio. As primeiras turmas tinham bastante insegurança sobre qual seria o futuro da FDRP, éramos cobaias. Muita gente desistiu justamente porque não queria “pagar pra ver” o que seria do curso que sequer tinha “casa própria” (a primeira turma estudava na FEA e a segunda na enfermagem). Éramos até motivo de brincadeira dos outros cursos, chamando o direito de “curso sem teto”. Então, pra quem tinha apostado o próprio futuro num resultado duvidoso, foi um grande alívio quando o nosso prédio ficou pronto, ainda que parcialmente. Fomos do constrangimento ao orgulho.

 

JP: Quando cheguei o prédio estava basicamente finalizado, faltando o auditório, salas de estudos (c33), congregação e cantina. Mesmo assim, foi muito interessante acompanhar as mudanças, principalmente auditório e cantina. O primeiro era apenas estrutura, inclusive levamos o pessoal lá no primeiro workshop e não imaginávamos que ficaria assim quando finalizado. A cantina também, já que nada da estrutura em madeira existia, lá era nosso centro de encontro, de assembléias estudantis, já que nossa faculdade não tem locais de encontro. Inclusive a instalação do Ivan nos levou a pensar em outros locais, como a fonte, para assembléias e reuniões.

OO: Como a comunidade federpiana reagiu frente ao novo prédio? Mudou alguma coisa na união dos discentes pelo fato de não se dividirem entre FEA e Enfermagem?

AS: Mudou bastante sim. A enfermagem está a uma distância razoável da FEA, então havia pouca interação entre as turmas. Habitar um mesmo espaço contribuiu para que estranhamentos se resolvessem e as turmas aos poucos interagissem mais.

 

JP: Quando cheguei, as turmas tinham acabado de ser reunidas no novo prédio, me pareceu que houve sim um maior contato, especialmente entre as turmas posteriores. É fundamental que todos e todas estejam no mesmo espaço. Essa junção nos trouxe maior identidade com o curso, com as entidades, coletivos, criou discussão e debate.

OO: Qual a história da fonte da FDRP?

AS: A “fonte do direito” sempre foi a piada arquitetônica favorita da FDRP. Disputa lugar só com os corredores alagadiços em época de chuva (e que foram construídos, inicialmente, sem ralos. A faculdade era constantemente um pântano)
No começo, quando os novos blocos ainda estava em construção, foi avisado aos alunos que uma grande fonte seria construída no local. Boatos de que seria igual às do prédio central da medicina, imensas, clássicas. Depois falaram que não seria nada clássico, seria modernista pra combinar com o mural de pastilhas na entrada do prédio e etc. Tudo era muito esperado e muito mistificado também. Como tudo até então vinha sendo construído de forma suntuosa todos criaram muitas expectativas em relação à fonte. Acontece que um belo dia, voltando das férias, encontramos aquela fontezinha instalada no meio de toda a imponência do prédio. Muitos ficaram decepcionados e, inevitavelmente, muita piada foi feita (falavam que a faculdade tinha pego as fontes dos motéis da av. do café e que a “fonte do direito” na verdade era só um bidê jurídico mesmo rs).

JP: A FDRP foi criada nesse formato de panóptico, no qual todos se vêem e são vistos, sem áreas de encontro, de convivência. Por isso usávamos a cantina, antes conhecida como o “vão”, pois lá era um vão entre os blocos existentes. Com a implement​ação do Iván necessitamos de outros espaços. Nossa faculdade sempre teve esse jardim central, isolado do resto do prédio por grades metálicas e cercas vivas. Mas mesmo assim algumas pessoas começaram a entrar lá, especialmente para fumar (pois lá não tem teto). Em 2011-2012 tínhamos algumas experimentações da direção com jardins, que mudavam frequentemente de plantas, sendo a parte central sempre vazia, apenas com um “morrinho” de terra que era apelidado por alguns de “cova do Junqueira”, por ter um formato retangular. Daí um belo dia foi instalada a fonte, que gerou bastante controvérsia, por não ter sido discutida com ninguém e ter uma cara completamente diferente do resto do prédio. O Ócios inclusive tem uma capa dedicada a isso. Um dos pontos essenciais para a ocupação desse espaço foi a primeira semana de arte, que criou uma instalação “praia” no local, com um gazebo, picolé, churrasco e piscina, mudando bastante a imagem do local como inacessível, isso em 2011. Daí as pessoas começaram a entrar lá, levar os bancos (que sempre eram tirados), inclusive a direção chegou a aumentar o tamanho da cerca metálica e também dá cerca viva para tentar conter isso. Algo interessante, ainda na gestão Poveda foi a criação das “pracinhas” com bancos e árvores para tentar suprir essa necessidade de um espaço de convívio na faculdade, mas foi ainda insuficiente. Já em 2013, o CA realizou uma série de reuniões temáticas chamadas “conversa  na fonte”, para usar o espaço e estar em local mais visível (do que na sala do CA), o que culminou com uma instalação fixa da semana do advogado lá (com uma grande tenda com palestras e discussões abertas ao público). No final desse mesmo ano, com a chegado do prof. Celli na direção, tivemos esse gesto dele, como novo diretor, de atender essa demanda de ocupação do espaço removendo a cerca viva e concretizando esse acesso nosso ao local. Foi bem interessante da parte dele, conversar com as entidades e entender um pouco das nossas necessidades como estudantes, já que ele não era professor da FDRP e não conhecia nosso contexto. Assim acabou que a birra inicial com a fonte passou e vejo ela como um local de congregação estudantil, uma forma de atender essa demanda de encontro, de ocupação do espaço da faculdade, para além da fonte em si. Era um espaço que não foi criado para ser utilizado, só visto, que não era para ser nosso e foi ocupado.

 

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