Aconteceu na Federpe · Edição 16 · opinião · x

Galinha dos ovos de ouro

Sem título

Por Lucas Lopes (Placa) – TX

Enquanto a FDRP comemorava sua primeira década de existência em 2017, experimentava, curiosa e com receio, um novo Projeto Político Pedagógico em seu curso de graduação. Ocorre que foi a primeira vez que uma mudança nesse sentido foi feita nesta Faculdade de Direito, embora haja a necessidade de todas as instituições de ensino renovarem seus PPPs a cada 5 anos. Dessa forma, esse ineditismo acalorou o debate na FDRP sobre a eficácia do novo Projeto para o ensino jurídico, separando os mais céticos e que acreditam nos métodos tradicionais dos que acreditam que o ensino jurídico aplicado no Brasil há 200 anos falhou.

As polêmicas são pontuais: dúvidas quanto qual o período ideal de determinadas disciplinas na grade; questionamentos a respeito do maior tempo livre ao estudante; disciplinas obrigatórias que se tornaram optativas; por fim, outra questão polêmica é a adoção de uma nova disciplina chamada Laboratório. Quando coloco “nova”, estou dizendo que é nova de verdade! No ensino jurídico, somos um dos pioneiros nessa tentativa de unir prática e teoria na Academia ao curso de Direito no Brasil. E é sobre essa disciplina que quero tratar nesse texto.

O Laboratório é uma disciplina com objetivos diversificados: fazer convergir o conteúdo teórico do curso com a prática jurídica; adequar as atividades desenvolvidas no curso com a realidade da região de Ribeirão Preto; estabelecer uma ponte rígida entre universidade e sociedade; firmar ligações entre as disciplinas do curso. Ok, mas e na prática, como rolou? Para responder isso, temos que separar dois Laboratórios bem diferentes: o do primeiro e o do segundo semestre.

O do primeiro semestre é resumido em janelas e caos. Mal planejado, o Laboratório foi visto pelos alunos como momento de janela, de forma que suspeitavam que o desenvolvedor da disciplina era o Bill Gates (perdão pela piada). Outra consequência do mal planejamento foi o tamanho caos entre estudantes e docentes. Para quem não sabe, o Laboratório, incomum que é, não tem apenas um professor, mas vários. Dessa forma, foi perceptível que havia entre eles uma falta de diálogo, mas não só: havia falta de diálogo com os discentes. O resultado foi único: o Laboratório não foi o Laboratório. Tivemos aulas expositivas tradicionais que duravam tardes inteiras, o objetivo da disciplina não ficou claro para ninguém e, ao final, os resultados, chamados de “produtos finais”, acabaram sendo produzidos às pressas para que não faltasse uma forma de avaliação na disciplina.

Diante desse cenário, professores e alunos engajados que acreditavam no Laboratório choraram juntos. Houve pela primeira vez um diálogo e os estudantes finalmente foram ouvidos. De forma conjunta, esses dois segmentos desconstruíram a suposta eficácia de determinadas práticas e metodologias adotadas no primeiro Laboratório, que claramente havia falhado. É desse simples ato de ouvir e construir que surge o Laboratório II.

O Laboratório do segundo semestre adotou nova metodologia: os professores se dividiram em três grupos com temas diferentes, nos quais os alunos entravam de acordo com suas vontades e interesses. Os trabalhos dos grupos eram independentes e abordavam diferentes âmbitos do direito em relação a diferentes esferas sociais, o que aumentou a superfície de contato do Laboratório em relação a teoria e prática; além disso, com grupos menores, os docentes puderam organizar melhor as dinâmicas, o que evitou por completo aquele caos do primeiro semestre.

E quais foram os resultados desse segundo semestre? Em termos de conexão do curso, tivemos pela primeira vez na história da FDRP uma aula conjunta entre professores de disciplinas diferentes (e também de Departamentos diferentes): por meio do Laboratório, Sociologia e Teoria Geral do Estado usaram de uma mesma aula que cabia às duas disciplinas. Ademais, no que tange os produtos finais, tivemos resultados diversos: organização de um bem sucedido simpósio “Transformando Olhares” sobre direitos dos transgêneros; a criação de uma associação em defesa dos direitos LGBT; um Projeto de Lei que será encaminhado à Câmara Municipal de Ribeirão Preto; uma análise minuciosa da corrupção no caso do Tribunal de Justiça do Trabalho de São Paulo; participação dos estudantes em evento de debate sobre o Plano Diretor de Ribeirão Preto, além de elaboração de pareceres jurídicos sobre o tema; realização de oficina sobre associação de moradores para membros da Comunidade da Família.

Enfim, tivemos um Laboratório II diferente do primeiro semestre, mais exequível, mais produtivo, mais Laboratório. Por ser quase inédito no Brasil, a disciplina exige construção conjunta, exige a força de acreditar num ensino jurídico que não enfoque seu conhecimento no Caio, no Tício e no Mévio; ao mesmo passo que o Direito é o instrumento para a injustiça, é também o meio pelo qual se constrói uma sociedade com igualdade de direitos. Como foi bem colocado na reunião de instalação da Comissão Coordenadora de Curso, podemos estar diante de uma galinha dos ovos de ouro. Então, é preciso trabalho e construção.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s