Notícia · x

Questão Síria

8bbff98ea8adc1f749718d1ce80e472798138ebc-768x432

Por Mateus Augusto Cardoso (Bacunin) – FEA

Tomado pelo desespero, o jovem vendedor de frutas tunisiano Mohamed Bouazizi atearia fogo a si mesmo no dia 17 de dezembro de 2010, morrendo em janeiro do ano seguinte. Esse último ato serviu de estopim para um dos eventos mais significativos dos últimos anos, a primavera árabe. Com início no dia seguinte ao sacrifício de Mohamed, uma onda de protestos tomaria de assalto o mundo árabe. A Tunísia seria o primeiro de uma série de países que passaria por uma completa reviravolta no status quo, vendo seu presidente, Ben Ali, deposto após 23 anos no poder.

Rapidamente os protestos, greves e outros atos de resistência civil se proliferaram por todo o Oriente Médio e, com igual rapidez, esses eventos chamaram a atenção da comunidade internacional. O caso mais estridente é o da Líbia, país que vivenciou uma guerra civil cuja intervenção estrangeira – em prol dos EUA e da UE – foi decisiva para a vitória dos rebeldes. Nesse sentido, a experiência libanesa é importante para entender a atual situação da Síria.

O conflito sírio irá para seu sétimo ano de duração. Se certamente Al-Assad sai favorecido, tal como seu partido, a Síria não enfrenta o mesmo destino. A longa guerra destruiu quase 40% dos hospitais, 9000 instalações industriais, 4000 escolas e metade das grandes cidades do país.

Mesmo nos seus finalmentes, a guerra volta a ocupar as manchetes dos jornais devido aos bombardeios dirigidos pela aliança entre EUA, Inglaterra e França contra supostas bases sírias de produção de armamento químico. A retaliação seria uma resposta para o uso desses armamentos contra a população civil na cidade de Douma, o que viola tratados internacionais.

Diferente do que as redes sociais profetizaram sobre o fim do mundo e o advento da terceira guerra mundial (surpreendentemente não protagonizada pela Alemanha), o ataque estadunidense-britânico-francês foi feito com alerta prévio aos russos e os estragos foram mínimos e concentrados. Pode-se afirmar, inclusive, que se trata muito mais de um evento para atingir o público externo ao conflito.

Desde que o Daesh (EI) foi derrotado – muito mais por influência russa que estadunidense, vale comentar – os Estados Unidos não têm boas justificativas para intervir no conflito e procura empurrá-lo para debaixo dos panos. O próprio Donald Trump já anunciara que pretendia retirar suas tropas da região, entretanto, a denúncia do uso de armas químicas por Assad possibilitou a Trump praticar a retórica que o elegeu.

Não há novidade alguma nos ataques químicos. Eles são praticados desde o início da guerra, tal como os bombardeios em retaliação – Al Shayrat é um bom exemplo. O interessante nesse ataque é a posição de força que os EUA conseguiram. Ao mesmo tempo, puderam colocar Theresa May e Macron como aliados e denunciar os russos por negligenciarem seu compromisso de regular o uso de armas químicas por Assad – foi assinado um acordo em 2013, mediado pelos russos.

Os novos bombardeios sobre a Síria nada mais são que o eco de um conflito acabado, mas que reviveu velhas rivalidades geopolíticas, rivalidades essas que transformaram a Síria num tabuleiro de War.

Sob as cortinas do espetáculo protagonizado por russos e estadunidenses, ficam os cadáveres de 400 mil sírios.

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s