Aconteceu na Federpe · Cansei de estudar... · x

O Novo PPP Sem PPP

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Por Maranhão Filho

Estou aqui não para diminuir o que foi feito, mas para atentar que, de certo ponto de vista, o grande não de fato o é, sendo, na realidade, um tímido rearranjo, onde o detentor da última palavra manteve a estrutura vigente…

Forças subversivas fizeram rebuliço na nossa querida FDRP há alguns anos, TX e TXI, vocês, meus queridos, são os filhos abençoados dessa revolução. A iniciativa louvável de alguns discentes nos fez despertar para algumas peculiaridades de nosso estimável curso de direito, como o massante período rigidamente integral, que resultava (e ainda resulta) em inúmeras reclamações, válidas, por parte de nós, “não tem tempo pra estudar”, “eu passo o dia todo na facul”, entre outras frases corriqueiras. Não entro aqui no mérito das reivindicações, embora as considere pertinentes, não é esse o objetivo do texto, vamos chegar lá…

Fizemos história, sem querer atribuir a mim ato de que não participei, digo o “nós” como “nós FDRP”, supostamente elaboramos nosso próprio PPP, é claro que isso não foi fácil, nem tão repentino como tratei aqui. A briga incessante e corajosa de alguns colegas despertou o interesse de parte do corpo docente, afinal, quem não quer tomar para si a honra de revolucionar o ensino em uma das faculdades da Universidade de São Paulo? Quem não quer ser o nome por trás de um inovador método pedagógico pioneiro no ensino do direito? É engraçado ver professores tomando os louros de anos de luta discente, mas vamos lá…

A nossa bela história não acaba por aí, por trás de todas as mudanças, propostas, aplicadas (leia-se autorizadas) ou não pelos caciques da faculdade, ainda persiste um resquício da velha ordem (aula expositiva horrível), nosso maravilhoso currículo apresenta matérias que despertam total interesse somente pelo nome, a ementa do curso promete uma análise profunda sobre determinada área do direito, mesmo que de fato se restrinja a 1 hora e 45 minutos de um/a pós-doutor/a dando digressões, fazendo pronunciamentos prolixos, tentando explicar sobre transsexuais e sua “doença”, reclamando de como ganham pouco (Deus me livre depender desse salário da USP), mesmo com salários superiores a 95% (ou 99%) do resto da população ou de como não possuem tempo para planejar as aulas, mesmo trabalhando em regime de dedicação total e exclusiva, com pouquíssimas aulas, tempo pra preparar aula tem o professor (esse sim) mal pago do primário…

Peço desculpas, desviei de meu objetivo, não queria criticar o ensino da USP, quem sou eu para tal? Mas vamos ao que interessa, creio que o primeiro ano, atualmente a TXI, tenha aproximadamente 13 aulas por semana mais o laboratório, já o segundo ano, atualmente TX, deve ter umas 12 aulas semanais, sem contar o laboratório, parece muito, imagino que não sobre muito tempo pra estudar… Estudar?

Agora todos esses problemas e reclamações não fazem mais sentido para mim, nunca ouvi ninguém da faculdade falando que não tem tempo pra trabalhar, aliás, será que alguém ali trabalha? As excessões, por favor, não se sintam excluídas, mas como aqui entendidas, assim como suas óbvias dificuldades. Levando em conta que os dois primeiros anos têm aulas praticamente todos os dias e o dia inteiro, fica difícil de arranjar um tempo pra trampar não é mesmo? “Ah, mas sobra a noite!”. Não sobra, não faltam exemplos de superação, de ralo, de pessoas que faziam de fato isso, mas fica muito mais complicado trabalhar com uma grade levemente rechonchuda. Trabalhar e estudar é difícil sim, fácil é para alguns de nós dizermos que isso é mimimi, apesar de não pregarmos um prego num sabão, do auge de nossa hipocrisia (pseudo ou de fato) elitista. É lamentável ver alguém precisar ocupar os três períodos do dia, com estudos e trabalho, sem contar é claro os estudos fora da sala de aula.

Diante dessa realidade vejo o quão maligna é a FDRP, simplesmente excluindo uma grande parcela da população do tão sonhado Direito na USP, somente por não poder deixar de trabalhar e não o poder fazer e estudar ao mesmo tempo, estando condenada a produzir riquezas pelo labor, riquezas essas que ajudam a bancar o ensino público que, em tese, é seu direito (ficou confuso, né? Ainda não entendi onde isso faz sentido…). Em 2017 vivenciamos o caso de um colega que precisou abandonar a faculdade para retornar ao mercado de trabalho justamente por questões financeiras. Caso pense: “mas existe a permanência estudantil…”; realmente existe, só que a assistência à permanência é débil, insuficiente para a demanda e de uma burocracia lastimável, que culmina em atrasos à concessão das bolsas, inviabilizando o ingresso de muitos estudantes aos quadros discentes, talvez essa parte da elite intelectual não tenha o mérito se não for concomitantemente elite econômica…

Por fim, me entristece constatar que o Novo PPP, apesar da luta estudantil, manteve a exclusão daqueles que mais precisam de uma graduação gratuita nesta nação de desiguais. Daqueles, cujas características, não coincidentemente, aglutinam para compor e quase que generalizar a parte mais propositalmente desamparada da sociedade: o preto, o pobre, aquele da periferia.

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