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Ontem

todos-os-dias-quando-acordo-nao-tenho-mais-o-tempo-que-passou

Por Maiara Mello (Valente)- TX

Assim que acordei, tive a sensação de que tudo pudesse ter sido um sonho, mas o fato de eu estar em um hospital com um par de aflitos olhos cinza fitando- me, fez cair a ficha que não, não era. Aquilo tinha sido real. E a dor de cabeça taciturna comprovava. Fechei os olhos por causa da luz cegante e as imagens invadiram minha mente:

Férias, primeiro dia. Uma garota correndo até mim no meu jardim. Seus olhos são tão dourados e cheios de vida. Acho que nunca os vi apagados. Aquela que sempre me pegou quando eu caía, aquela que me trouxe a primeira sensação de companheirismo.

Caminhada rápida até o parque. A cesta de comida pesa. Três garotos tentando jogar vôlei. Sorriem ao nos avistarem. Um piquenique, e depois uma partida de vôlei em que um deles e eu somos jogados no chão. Amo os olhos dele, verdes, exatamente como a grama e sempre brincalhões. Ele colocou meu orgulho em cheque diversas vezes. Doeu, mas enxerguei minhas falhas.

O tempo se arrastou sem pressa para que cada detalhe pudesse ser absorvido: as risadas, o perfume doce, aquela voz viciante, até mesmo as crises e dúvidas de cada um. Todas as nossas fases expostas em um filme antigo para posterior revelação.  Logo veio o laranja característico do fim de tarde. Estávamos tão felizes, por que teria de acabar? Não tem, não agora.

A garota e eu estávamos em casa de novo. Pela janela observávamos que não havia estrelas, o céu estava negro, revelando uma noite sem fim. Assim como os olhos de um dos meus amigos, tão profundos, mas ao mesmo tempo acolhedores. O meu refúgio dentro da tempestade.

A garota é a motorista da noite. Ela elogia o ator, talvez pelo fato de ele ser muito bonito, enquanto os garotos dizem ter sido uma perda de tempo assistir à comédia romântica no lugar do palhaço assassino.

Sinal vermelho. Alguém liga o som e ‘Yesterday’ enche nossos ouvidos. Cantamos juntos. O sinal abre antes do refrão e seguimos. A luz branca e incrivelmente forte aparece de repente. Um baque nada sutil. O mundo gira. Sinto dor e frio. Talvez esteja delirando, mas vejo o dourado perdendo a vitalidade, o verde duro e inflexível pela primeira vez, o negro tão opaco…

‘Yesterday, all my troubles are so far away’. Essa frase nunca fez tanto sentido como agora. Ontem, enquanto nós quatro estávamos juntos, vivendo como se nada mais importasse, apenas nós no nosso pequeno pedaço do mundo, todos os meus atos estavam muito longe. Mas as consequências me atingiram com a mesma força de uma bala de canhão, fazendo com que o tempo que antes se arrastava agora tivesse uma pressa inexplicável de acabar e revelar aquele filme antigo. As fotos ficarão guardadas no baú da memória. Está muito cedo para isso, não?

Se tivéssemos conhecimento de que, em um piscar de olhos, a maioria das constantes que nos entregam confiança e estabilidade pode ser modificada, faríamos algo diferente? Iríamos a uma festa?  Não abriríamos mão de tanta coisa?  Aproveitaríamos as pequenas coisas que nos fazem bem? Daríamos meia volta para uma despedida ou reservaríamos àquela hora para um café? Talvez agora eu faça isso, talvez agora eu aproveite mais o hoje para não me arrepender do ontem.

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