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Ana Morre

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Por Gabriela Cortez (Nalata) – TX

Ana é uma dessas mulheres que morrem duas vezes. A primeira morte aconteceu numa terça-feira qualquer.

Aquela terça-feira tinha sido um dia bom, seu chefe havia sugerido uma promoção, sua mãe ligara com novidades, estava vestindo sua camisa branca favorita. Saía do trabalho com um ar de otimismo e felicidade. E foi caminhando até o ponto de ônibus, do mesmo modo que fazia a um ano e meio, cantando consigo mesma até que veio a dor.

E de repente, só tinha dor.

Era uma dor que a preenchia, que queimava junto ao sangue e invadia cada músculo do seu corpo. E conforme ela se dava conta do que estava acontecendo, aquilo consumia pouco a pouco a mulher que ela era. Dor no coração, no pulso que estava sendo apertado, na garganta seca, no quadril, na virilha, na alma. Dor na mulher que ela era e nunca mais ia ser.

Começou com um puxão no braço e depois todos os botões da sua camisa branca voavam em direção ao chão. Um corpo robusto a pressionava contra a parede e ela estava paralisada. As mãos sujas iam de encontro com sua pele e deixavam um rastro de medo e angústia por onde passavam. Aquele momento durou uma eternidade. Não havia ar suficiente para ela gritar e Ana não tinha forças suficiente para empurrá-lo. Tudo o que ela sentia eram as lágrimas quentes descendo pelo seu rosto. E dor.

Em algum momento ela deve ter começado a gritar, porque logo em seguida recebeu um tapa no rosto e uma fala grosseira a ameaçando de matar. Ele não entendia; ele já a estava matando. Aquela Ana, despreocupada e destemida, não existiria mais. Antes os pelos da nuca não arrepiavam tão fácil, o medo não invadia tão forte, um calafrio frio não lhe tirava o sono.

Ana não consegue dar detalhes daquela terça-feira. São borrões terríveis que a assombram e a fazem acordar no meio da noite gritando encharcada de suor. Por que ela? Ela era uma menina comum. Nunca fora a mais bonita do colégio, nem a mais inteligente, nem a atleta. Ela não era destaque. Por que ela?

Não fazia sentido. Nunca fez.

Ana passou a andar mais rápido na rua, olhar três vezes pra trás a cada cinco passos, implorar pra alguém acompanhá-la em todo lugar que ia. A rua era um lugar assustador. O mundo inteiro era. Todas aquelas histórias de mulheres vítimas, que antes pareciam tão distantes, agora pareciam ocorrer na esquina de sua casa. Aconteceu uma vez, podia acontecer de novo.

Seus amigos falaram que ela tinha mudado, estava mais quieta, desanimada, introvertida. Acusaram Ana de não querer saber de mais ninguém e ela só concordava; as noites em claro chorando não eram feitas para serem partilhadas.

O que ninguém entendia era que Ana, aquela Ana, não existia mais. Tinha morrido naquela terça-feira, vítima de violência. Vítima de estupro. E o que Ana não entendia era que ela era apenas uma das várias mulheres que morrem duas vezes, uma das várias que são obrigadas a continuar vivendo como se a vida não tivesse parado ali.

Às vezes Ana chama Maria, Luísa, Isabela, Gabriela, Luana, Beatriz, Mariana. Às vezes Ana tem namorado, é casada, dona de casa, funcionária. Às vezes Ana conhece o agressor, é parente, marido, patrão, amigo. Em todos esses cenários, por mais que haja variação, o desfecho é sempre o mesmo: Ana morre, vítima de violência. E Ana tem que continuar vivendo como se nada tivesse acontecido. Porque Ana, pobre menina, Ana é comum demais, Ana não dá notícia em jornal.

Afinal, a cada 11 minutos uma Ana morre e quem tem esse tempo para se importar com tantas Anas assim?

 

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