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Eu Odeio Terças

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Por Maiara Mello (Valente) – TX

Eu odeio terças-ferias. Sempre acontece alguma coisa ruim que reflete no resto da semana e aquela não me dava sinais de que seria diferente.

Como a maior parte dos universitários, fui estudar em uma cidade diferente da minha. No meu caso, além de parar em uma que está a significativas horinhas de distância, é daquelas que tem apenas um horário de ônibus por dia e sempre de madrugada.  Por isso não retorno para casa com frequência.

Passadas algumas semanas de penitência na cidade universitária, com seminários provas e os maravilhosos trabalhos  em grupo, voltei para casa em um desses pontuais fins de semana. Não aconteceu nada de extraordinário enquanto estava lá, minhas próprias desventuras em série começaram no domingo à noite, quando cancelaram meu ônibus da volta, não deixando outra opção senão  comprar uma passagem para o de segunda, chegando na terça-feira de manhã – o malfadado dia.

A Lei de Murphy não falha. A viagem começou bem, a poltrona ao meu lado ficou vazia, fato que facilitou (e muito) minha permanência no mundo dos sonhos durante toda a viagem. No desembarque, o céu estava com cores bonitas, o clima não estava o inferno de costume (estava até agradável) então eu pensei por uns instantes que essa terça-feira pudesse ser diferente. Fui um trouxa iludido. Reparei na primeira desventura logo no desembarque, já que duas das quatro rodinhas da minha mala estavam destruídas. Eram 7 horas da manhã e obviamente o responsável por esses danos não havia começado o expediente ainda, não teria como resolver isso ainda.

Mas a mala ainda tinha 2 rodinhas, qual seria o problema afinal? Ele estava no fato da minha mala pesar 293854 quilos por causa do monte de tranqueira, das pilhas que roupas que agora estão limpas e de certos tijolos (também conhecidos como livros de faculdade) que minha mãe me deu.  A terceira rodinha simplesmente desistiu da vida enquanto eu atravessava o terminal da rodoviária, tarefa que levou o dobro do tempo.

Ok. Pelo menos esse encosto iria dentro de um carro até a minha casa. Não sei porque raios o uber estava com preço dinâmico naquela hora da manhã, mas solicitei um mesmo assim. Depois de um esforço para enfiar o encosto no banco traseiro no fiat uno (o porta malas estava ocupado e se recusou a abrir, espero eu que com um corpo já que eu desejava ardentemente aquele espaço), ele desceu a avenida principal cheia de lombadas na maravilhosa quarta marcha – ainda ganhei a cortesia de tirar o encosto entalado no espaço entre os bancos.

Fui abraçando a mala como se minha vida dependesse dela até a entrada do prédio e o porteiro foi o meu primeiro anjo do dia pois abriu o portão pra eu manter a minha marcha até o elevador. Minhas preces de “por favor elevador esteja funcionando não preciso de mais uma desgraça hoje” foram atendidas.

Larguei o encosto no meio da sala antes de me largar igual a um saco de batatas no sofá. Meus braços doiam mais do que infinitos treinos na academia. No meio do meu descanso, leio as mensagens e vejo que um dos professores da manhã resolveu dar uma de Papai Noel no auge de maio: prova surpresa naquele instante, cada aluno deveria fazer na sua própria sala, vale metade da nota (a minha era a primeira, logicamente).

Tinha meia hora para ressuscitar e seguir para o matadouro. Vou poupar os detalhes da ida até a faculdade e da execução da prova mas digo que as minhas esperanças de ir embora na hora do almoço foram embora quando descobri que as duas entidades das quais faço parte da gestão marcaram reunião emergencial, uma seguida da outra, coisa que levaria a tarde inteira.

Garanto que senti cada segundo daquela horrorosa tarde de terça-feira se arrastando. Fui pegando as chaves antes mesmo de chegar na portaria porque só queria minha cama. Com esse mantra na cabeça, só foquei no elevador aberto (as pessoas estavam saindo dele) e segui em frente no piloto automático. Nunca mais faço isso. Bem perto do elevador, tropecei em uma maleta largada no hall (estavam consertando a fiação). Acabei caindo. As chaves e o celular foram lançados da minha mão e caíram no fosso do elevador.

Relatei o ocorrido ao porteiro e ele chamou um chaveiro por mim. Resolvi sentar na porta do meu apartamento para esperar, aproveitando cada detalhe da minha existência miserável. Eis um detalhe interessante: tenho um crush na minha vizinha, a mesma que terminou o namoro mês passado, a mesma que parou e perguntou se eu estava bem. Contei a história para ela e a resposta foi a seguinte:

– Não se compara ao seu mas o meu dia também não foi o melhor porque bateram no meu carro. Quer entrar e pedir uma pizza enquanto o seu chaveiro não chega?

Talvez as terças-feiras a noite não sejam ruins ao final.

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