x

Raiva

maxresdefault.jpg

Por Arthur Valença (Graal) – TXI

Tenho raiva, muita raiva. E a maior raiva que tenho é não ter raiva de nada. É não ter raiva de ninguém. É não ter fonte ou objeto do ânimo. É não ter origem ou fim do sentimento, tão nefasto sentimento. É sentir sem sentido. É pesar sem balança. É não ter chão. É não ter teto. Riam de mim, senhoras e senhores, vocês que me questionam: “como pode a fúria não ter objeto?”. E eu lhes respondo: talvez sejam tantos os objetos, que o infinito se tornou em nada. Quando a raiva está em todo canto, como posso chamá-la raiva?

Se não há a que se opor a fúria que sinto, talvez ela não exista. Talvez seja um sentir humano, cotidiano, normal… Inescapável, inelutável, inerente, iníquo, inapropriado, e inominável. Como posso chamar de raiva a fúria da espera prolongada, mas também a fúria do homicida? Como o que mata é o mesmo que espera? Sinto raiva, ou isso que chamam raiva. Posso matar… Ou posso esperar. Espero? Espero… Desespero e espero de novo. Espero até que, alvejando, enfim, um objeto, arremato-o. Pusilânime, aliviado de ter conhecido motivos para esse sentir obtuso. Arranco-lhe o que puder: a paz, a calma, a alegria; furto-lhes todos.

Mas quando percebo que ao lhe roubar a paz, em minhas mãos encontro o ódio; que ao lhe roubar a calma, em minhas mãos encontro o fogo; que ao lhe roubar a alegria, em minhas mãos encontro o vazio e as cinzas. Desmato-o. Desmato-me. Até que não sobre nada, o nada que é a raiva. Até que o nada nos tome tudo, e se torne em nós infinito. Infinita chama, que nos mata e desmata. Mata e desmata. Mata e desmata!!! Raiva que me consome os dias!!! Raiva que me consome o tempo!!! Raiva, sentimento vago, que rarefaz a vida.

Incinera-me! O objeto sou eu! A fonte sou eu! Não tenho raiva de nada além daquilo que chamam Arthur. Raiva de não ser nada. Raiva que a raiva me seja tudo. Raiva da impossibilidade de agir. Raiva da espera. Raiva do homicídio. Raiva de não saber o que há entre a espera e o homicídio. Raiva, pois, ao querer controlar-me, perco o controle. E, ao não querer o controle, descontrolar-me. No fim de tudo espero, já que se sou eu o objeto da raiva, prefiro à espera ao homicídio. Raiva de perceber que a espera me consome, e, ao não matar, mato-me e desmato-me. Até que não sobre nada, além do inescapável e nefasto sentimento.

Ora, senhoras e senhores, façam de mim seu espetáculo. Eu que, ao me afastar, anseio simplesmente que se aproximem. Não quero queimá-los. Sou fogo vivo e ardente, é verdade…, mas a memória me refresca. Lembro-me da mansidão… Lembro-me dos sorrisos… Lembro-me de que cercado, o fogo não se alastra. Se posto limite, ele se extingue. Não me permitam que me auto flagele e, ignorando-me, imponha autoritário a solicitude desenfreada. Afastem-me e se aproximem. Permitam-me que eu me torne menos eu, e me torne mais nós. Só assim, juro que me lembro, só assim preencho-me novamente. O coração-fogo se apaga. O coração-carne se reconstrói. E eu, arquitetado novamente, ascendo a fim de que me torne novamente aquilo que eu chamo Arthur.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s