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We are all in this together, mas o High School Musical tem que acabar

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       Autor Anônimo

      Quando ingressei nesse lugar, deram-se polêmicas em torno de uma nota de repúdio, hoje vista como necessária, mas à época congregando tipos machos e mui poetas sobre a tradição (ou seria a falta dela?), em chistes de auto afirmação do ego masculino ubíquo e fragilizado. Hoje os alunos são tangivelmente diferentes, menos coxinhas – diga-se de passagem – apesar de núcleos de monarquistas saudosistas e anarcocapitalistas em busca de um lugar ao sol da ciência. Essa geração parece vir já pouco afeita ao modelo sistêmico em que vivemos e aos poucos vira a cabeça ao seu redor em busca de mudanças, alternativas. Onde se discute, fica comprometido um juízo perpétuo sobre a situação, tendendo a romper com esta. Mas há de se vislumbrar que a situação tem lá seus benefícios, para uma limitadíssima parcela, que cinicamente, ou por uma conveniente ignorância, estampa o joie de vivre.
Se a universidade está mais diversa, há de se pensar que identidade queremos. Ou mais precisamente, que alternativas a essa identidade de massa do jurista probo, temperamentado, bem sucedido, branco e heterossexual temos. Não sem horror vejo essa diversidade sacrificada, caminhando-se de toda a parte para a vala comum do insignificante burocrata. Se o direito é frequentemente apontado como instrumento de manutenção do status quo, quem manuseia esse instrumento está condenado a ser a ideologia encarnada em pessoa? Suspeito que muitas vezes falta critério individual em desvendar o justo, e ficam todos pautado por um legalismo que privilegia forma sobre conteúdo e não orientado para nenhuma mudança, apenas fazem o trabalho diviso e especializado, repetindo máximas sobre a realidade das coisas, em um suspiro de fim da história. Toda essa turbulência institucional recente, incrivelmente, obedeceu alguma forma prevista em lei, houve até mesmo em nossa faculdade um escandaloso evento “Os fundamentos legais do impeachment”. Então há de se pensar a quem a lei está a serviço, e que tipo de desdobramentos causa na vida real. Não que ninguém se oponha pronunciadamente a mudanças, mas também são pouco suscitadas, quando são. Fica como fato dado, infelizmente “não contemplado na minha especialidade”.
E que subjetividades são permitidas por esse engessamento? Uma que prescinde de individualidade e me faz ter a sensação recorrente de conversar com a mesma entidade em diferentes corpos. É o verdadeiro sein liberalóide que troca meios pelo fim e faz seus entes chafurdar na absoluta falta de significado, já que o esquema é ensimesmado, tautológico. E quem são essas pessoas? É o sujeito que dirige carros de luxo, regala os dentes nos restaurantes top de Ribeirão Preto, tem o orgulho pequeno burguês de estar na usp, seja aluno ou professor (quanto custou sua escola particular em 17 anos?) se expõe em viagens internacionais de forma instantânea nas redes sociais, em um solilóquio assistido e dedado, que vence pelo like fetichista e autopenetratório, e fala das coisas mais estapafúrdias dando a elas ar de algo universal e verdadeiro, como se a pequena burguesia fosse uma realidade disseminada. E fazem isso sem exitar, pois o arcabouço simbólico talvez seja limitado ao solipsismo de suas vidas tristes. Se a ideologia de uma época é a de sua classe dominante, quando fazemos o movimento de mostrar a fragilidade e egolatria desse novo sujeito, hedonista e declaradamente esteta, não podemos vacilar em romper com o esquema que este reproduz e que ele nos alimenta por um tubo até sermos mero foie gras de sua orgia ridícula.
E onde fica operar o Direito? Enquanto ferramenta de criação, o Direito tem que ser forma de pensar o social e sobre este agir, não uma burocracia cínica que só serve para encher os bolsos desses yuppies que dominam a pauta e querem tornar toda a gente liberal. Vá para o inferno com a sua start-up, sua geração de valor, seu parasitismo financeiro, precisamos de soluções para uma sociedade cada vez mais polarizada e perdida na falta de informação, no elitismo cruento, e não um direito que trate esses sinais de contradição sistêmica como mera crise e faça perder o conflito essencial de vista. Há de se reconhecer que existem contradições ínsitas, e são questões propriamente de poder. Democracia é quem puder fazer o que quiser? É esse estado de anomia onde só existem liberdades negativas e nenhum papel do Estado? Essa teoria liberal que coloca o centro da agência no sujeito, e de seu sucesso em alguma espécie de virtuosismo, de forma meritocrática, não passa de uma racionalização auto serviente dos beneficiários.
Não com surpresa me deparo com propagandas de cursinhos anunciando os salários, aliados a imagens viagens e roupas de luxo. Quero adêvogar e usar o conjuntinho très-chic: groundbreaking, darling. Minha sola vermelha lacrou tanto hoje no fórum que talvez eu consiga uma cadeira de rodas! Loubotin também é ajudar o próximo!
Esse conjunto balzaquiano de personagens que todos os dias desfilam na minha frente me dão a verdadeira náusea. Vai de encontro com o que Allain de Botton descreve em seu Status Anxiety, onde o sujeito é descrito nessa busca incessante e reificada de realização, onde simplesmente se vence, no intransitivo. Não se busca sobreviver, mas é preciso prosperar e demonstrar, se fazer superior ao outro. Ir na exata direção oposta daquilo que mais se teme em si, a pobreza – que se não é material, é de espírito. São as pessoas da sala de jantar, ocupadas em nascer e morrer, e talvez no meio tempo, nos infernizar com o engodo de sua mediocridade e personalidades auto complacentes e inseguras. Então que joguemos uma moedinha na fonte e esperemos que esse sujeito morra entre nós, apesar de constantemente vir nos dar aula.

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