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Massacre Azul e Rosa

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Arthur M. F. Valença (Graal) – TXI

Saudações, meu caro leitor. Você já foi alguma vez chamado a falar de algo que lhe escapa totalmente da alçada? Problema cuja solução é de uma magnífica complexidade, de maneira que, ao contemplar a simples hipótese de dar resposta ou análise a ele, uma agonia lhe invade as entranhas da alma e o faz duvidar de toda a sua competência e, até mesmo, da sua existência enquanto ser racional? Ora, o tema sobre o qual eu e você nos debruçaremos – e com isso já lhe transmito parte dessa responsabilidade intragável – é um dessa natureza destruidora. Destrói-me não só pelas exigências que me são postas, mas também pela concretude dos fatos que foram narrados. Destrói-nos pela suas consequências devastadoras e pela ausência de certezas que nos deixam como transeuntes sem rumo que, ao receber um esmurro realista e repentino, já não conseguem se lembrar de onde vieram e nem aonde iriam.

Pois bem, leitor. Acredito que você, informado que é, já tenha imaginado sobre o que iremos falar. Pois o sentimento de impotência é inelutável, o que me faz acreditar que é o mesmo que você já sentiu. “Estamos todos no mesmo barco”. Por isso é que devo dizer que me esforcei em escrever um texto impessoal, direto, com vista aos fatos e de carga teórico-argumentativa pesada. Porém, mesmo lendo notícias, análises e  teorias diversas, não pude me desprender do meu subjetivismo e nem da minha incerteza. Decidi, assim, por uma crônica o mais pessoal possível. Primeiro pela minha inaptidão de construir análise que dê conta da verdade e, segundo, pela necessidade de convidá-lo à discussão e à crítica. Pois eu irei cometer erros analíticos e precisarei ser complementado. Faço-lhe um convite, portanto, à antítese e à promoção de uma visão amplificada, já que socializada. Comecemos, então

Dois sujeitos adentram uma escola pública em Suzano de nome Raul Brasil em dia de aula. Portando armas letais e não letais começam o empenho em promover uma chacina espetacular. Espetacular não só pela magnitude, mas pela expressividade midiática a que almejam. Deixaram 10 mortos e 11 feridos, segundo último número visualizado por mim, e milhões de espectadores em choque. Diante de tal situação, muitas foram as opiniões que correram as diversas plataformas de comunicação. Os sujeitos intérpretes se dividiram em inclinações, por vezes absolutas demais.

Alguns opinantes relevaram a figura dos dois homens responsáveis, trazendo à tona as suas histórias – em especial a do menino que havia sofrido Bullying – seja para acusá-los como seres abomináveis ou subjetivá-los como indivíduos que também sofreram dores, não para justificar sua conduta, mas explicar suas causas. Alguns, ainda, tentaram contar a história das vítimas e dos heróis que emergiram da situação. Objetivando não dar vazão à espetacularização do ocorrido, silenciava-se, ao máximo possível, a voz dos atiradores, e microfonava-se as vozes dos alunos mortos e feridos e de funcionários que impediram que a tragédia alcançasse maiores níveis. Além disso, entrou em pauta a questão política do porte de armas. Seja para defender que os estudantes e funcionários deveriam ter tido armas a fim de se defender, ou chamando a atenção para o fato de que, havendo a  descriminalização do porte, a situação se agravaria, desembocando em novos desastres e de maiores proporções.

Não sei em qual desses perfis opinativos você se encaixa, leitor. Mas gostaria de dizer que a demonização da opinião alheia é um ato equivocado. A situação é de uma complexidade imensurável, de tal forma que as interpretações também não podem ser reduzidas a verdades inequívocas. Irei colocar aqui aquilo que pude concluir de minhas reflexões e leituras, e que compreendi mais adequado, tentando não desconsiderar todas as faces do problema.  

Penso que o maior erro cometido por aqueles que se debruçaram sobre a figura dos atiradores foi o de pensar estritamente a nível individual. De fato, a maior parte das análises enfocaram na extrema culpabilidade ou na atenuação dela, tendo em vista o Bullying experimentado por aqueles ao longo da sua formação escolar. É lógico que essas experiências de humilhação constante acionam construções psicológicas danosas que, por óbvio, contribuem sim para o ocorrido. Acreditar em algo diferente disso seria incorrer em erro. Entretanto, o mais importante aqui não é o quanto o Bullying influenciou especificamente aqueles dois indivíduos. Até porque não acho que mensurar isso seja possível. Antes, é necessário dar um passo para além disso, e entender o porquê de o Bullying ter engatilhado esse tipo específico de reação, tendo em vista as estruturas sociais e de dominação da qual estavam imbuídos, e o papel social que ocupavam.

A principal estrutura de dominação que importa aqui, acredito, é a discussão de gênero e corpos. Quando pensamos nas diversas experiências que se assemelham ao desastre de Suzano – e aqui me refiro ao emblemático desastre de Columbine e os muitos outros que o seguiram até hoje –  a variável de maior predominância é o fato de serem os atiradores, homens – e geralmente brancos. Do corpo masculino é exigido, desde a tenra idade, a firmeza, a rigidez e a dominação frente aos demais. A aplicação da violência é, em regra, a reação mais adequada a toda situação que envolve o corpo masculino. Violência essa que não se restringe à agressão física. Na verdade, esta última é, na maior parte das vezes, a instância de violência final. Ora, entendo violência como o instrumento de manutenção do domínio simbólico – simbólico, já que estrutural com vista na sua aplicação material, e não porque ideológico-, em todo tipo de relação de poder. A preponderância do discurso masculino é uma constante exigência das instituições sociais. Por isso mesmo, quanto mais as sociedades conservam as estruturas de dominação de gênero e corpos, mais violência é exigida dos corpos masculinos – e submissão dos corpos femininos.

O Brasil é uma sociedade extremamente conservadora em muitos aspectos. Mais do que isso, tem vivenciado uma onda de reforço do conservadorismo, tendo em vista os contornos políticos pelos quais temos passado. Sem querer me estender muito nesse ponto, caro leitor, chamo a atenção à luta pela restauração da família brasileira, externalizada, inclusive, em um ministério da família. Ora, a família é a instituição mais importante no aprendizado das estruturas sociais de dominação dos corpos. É nela que aprendemos a falar e nos posicionar hierarquicamente. Na família aprendemos que existem espaços distintos para o corpo masculino e feminino. Que o homem forte defende a sua casa e protege os seus filhos e mulher. Que o homem forte é aquele que consegue competir com os demais homens pelos melhores cargos e salários, e vencer. Que não tem vergonha do seu corpo, já que possui o maior pênis de todos e, por isso, conquista o desejo de todas as mulheres.  O homem forte é ativo, pois é quem dita as regras da relação sexual falocêntrica ao penetrar a mulher e “comê-la”. As dicotomias da linguagem – ativo e passivo, “comer” e “ser comido”, dominador e dominado – se impõem de tal maneira que é impossível conceber um homem submisso – quanto mais dois homens que se relacionam entre si, pois em uma relação heteronormativa, um deles deve ser passivo e dominado. É inimaginável pensar em um corpo masculino dominado por hierarquias, que não as já estabelecidas no meio social. Em uma sociedade tradicional, um homem que é humilhado pelos demais e não consegue incutir a violência necessária para superar a dominação alheia – ainda mais se for uma mulher a dominadora – é um fracassado.

Além daquela estrutura social de dominação, quero chamar a atenção para a questão política do porte de armas. Veja, meu caro, o fato relevante nesse contexto não é a descriminalização do porte de armas em si. Mas o que essa descriminalização significa enquanto acirramento do conservadorismo no Brasil. Sabemos que o grande jogo de influências que se dá no País não é somente a questão de o cidadão poder se defender de quem o ameaça – e especificamente quem ameaça a sua propriedade. Antes, é a possibilidade de o homem defender a sua família da ameaça externa. É reforçar a condição do corpo masculino de se impor frente às ameaças que lhe roubam o domínio. É possibilitar o maior controle e a segurança do seu lar e a conservação estrutural do domínio em sua casa. O leitor poderia argumentar que o porte seria concedido a todos, homens e mulheres. Porém, retomo aqui a estrutura hierárquica de uma família tradicional, em que a divisão das funções exalta a figura do homem como protetor do lar. Assim, associados o porte de armas e o conservadorismo explanado, podemos entender a relação de domínio e as dinâmicas corporais e de gênero nesse contexto.

Então veja, leitor: há dois agravantes nesse panorama. É um corpo masculino que está sofrendo com a humilhação na forma de Bullying, o que aciona os mecanismos de dominação de gênero e corpos e, mais do que isso, é um corpo masculino fracassado dentro de uma sociedade conservadora. Sociedade conservadora que encontra a sua manifestação física no porte de uma arma que serve à defesa do domínio corporal masculino e à conservação das estruturas de gênero e corpos.

Os atiradores são indivíduos cujos conceitos de dominação o fazem apelar à violência física como o fôlego da reestruturação do seu poder masculino. A espetacularização e a fetichização pelos massacres é uma resposta, para eles, adequada à humilhação que entendem ser o pior de todos os flagelos de sua identidade como homens dominadores. O correr de suas imagens violentas na mídia é o sucesso de sua empreitada. A transformação deles de um nada humilhado em um homem violento e perigoso, que causa o medo e impõe domínio, monstros com porte de arma, vingadores de uma humilhação até então inescapável; essa imagem, é a realização mais satisfatória de seu esforço. E o suicídio, que é algo que muito ocorre nessas situações, é o encerramento perfeito. É como o homem que pela sua morte salva a pátria. Como um herói dos oprimidos. O salvador da masculinidade na sociedade conservadora.  

Uma pausa aqui para que possamos digerir o que foi dito. As conclusões que enunciei por enquanto são: o mais importante não é uma questão individual do flagelo do Bullying e da influência psicológica no fato ocorrido, mas o que o Bullying representa enquanto transgressão da identidade corporal masculina em um panorama de gêneros e corpos; a discussão do porte de armas não se restringe somente à eficácia de suas descriminalização ou não, mas o que ela simboliza enquanto reforço das estruturas conservadoras de domínio, e nesse caso, domínio de gêneros e corpos; por último, o fato de que a espetacularização do massacre é o objetivo finalístico dos autores dele, pois a reestruturação da sua imagem como homens dominantes é o que mais almejam.

Sendo assim, mais do que a tragédia de Suzano, há uma tragédia em como a mídia brasileira lidou com o ocorrido, a qual, em minha opinião, leitor, foi um total e completo fracasso. Logo após o massacre de Suzano, foi noticiado um outro massacre na Nova Zelândia. Um homem, em um grau extremo de intolerância – e que bem exemplifica a espetacularização de massacres – , entra em uma mesquita e dispara contra centenas de religiosos que ali prestavam o seu culto. Em vídeo transmitido via Facebook, narra os motivos de seu ato. Invoca o perigo dos imigrantes em um discurso extremado de ódio e intolerância. Diferente do que foi feito no Brasil, porém, a mídia neozelandesa noticiou o fato com a primeira preocupação em  retirar o vídeo de circulação. Depois, anunciou como as investigações estavam sendo conduzidas, ocultando a face dos suspeitos e relevando a história das vítimas sobreviventes e do seu estado de terror. Críticas à intolerância foram feitas e o discurso de ódio foi combatido ao máximo possível. No Brasil, a face dos atiradores foi demonstrada na capa de jornais. A história de como sofriam Bullying foi contada por diversos veículos de comunicação e às vítimas foi dado quase nenhuma voz. Ou seja, a mídia brasileira permitiu que a espetacularização almejada pelos atiradores alcançasse proporções gigantescas. Dessa forma, demonstraram a efetividade dos objetivos daqueles e o fim último de seus atos foi atingido. O resultado lhes foi extremamente satisfatório.

Amigo leitor, depois de tudo que aqui falei, a única coisa que posso fazer é deixar exposta a minha cara a tapas. Calar-me era algo que não poderia fazer. Não sou, por óbvio, o melhor de todos os analistas. A tarefa me foi árdua, mas não está encerrada. Quero incentivá-lo a pensar sobre essas questões. Convido-o à crítica e à transformação social. Deixo como legado o seguinte: é verdade que a culpabilidade desses sujeitos é muito mais complexa do que a dicotomia vítima da sociedade e criminoso. De fato, há uma estrutura muito maior que os indivíduos, que é histórica e dominante, e que, nesse caso, muito diz respeito a gênero e corpos. Além disso, o conservadorismo ascendente, representado ´pela figura da discussão do porte de armas, reforça essas estruturas e contribui para a sua ocorrência. Por fim, é necessário aprender o como a mídia deve lidar com a veiculação dessas informações, de forma a não dar maior magnitude à espetacularização do massacre e abafamento da voz das vítimas. Espero ter contribuído ao debate, e que esse seja só o início de nosso diálogo. Até breve, leitor.

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