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Ninguém se importa, Moçambique!

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Rebeca Silva de Souza – TXI

Não escrevo há um tempo. E por muitos motivos. Seja por falta de tempo, por falta de paciência, por falta do que escrever, por pura procrastinação. Normalmente, minha escrita dá as caras quando quer e como quer. E aprendi, pelo pior dos meios que, minha escrita, quando obrigada a se mostrar, o faz do modo mais medíocre e resmungão possível, destilando seu ódio e pessimismo para tudo e todos. Então, se pergunte o que me levaria de volta a escrita de forma tão espontânea e satisfatória. E eu digo: um sentimento. O sentimento mais covarde e honroso que existe: Culpa. Sentimento este excitado pelo desastre ocorrido em Moçambique, o ciclone Idai que atingiu não apenas Moçambique, mas também países próximos como Zimbabué e Malaui, deixou, até agora, um rastro de quase 700 mortos e parte do país em desgraça. Quando vi a notícia que passou pelas sombras do meu feed, fez-se o silêncio e o silêncio gritou de forma tão alta que despertou minha escrita. Agora o que uma mulher branca pode escrever, sob o pretexto do mais arrogante remorso, sobre desgraça de pessoas negras? Não o farei. Falarei do meu sentimento apenas, quero expor minha culpa. Quero uma válvula de escape para me sentir melhor, preciso ser perdoada pelo que fiz. O que fiz? Ora, cumpri meu papel: olhei notícias das tragédias e não me importei, vi corpos de negros mortos em decomposição nas ruas e não me importei, vi  as crianças gritando em meio às águas e ignorei, vejo um povo rastejando pela cinzas da própria história e então, volto a minha bolha: com  dias perfeitos, a música boa, meus privilégios inerentes, intacta a tragédias .Apenas no fim daquela noite, em um momento de puro ócio, em uma pausa do meu egocentrismo exacerbado, consegui refletir sobre o porquê da minha falta de apatia para aquela tragédia e depois de muito pensar percebi que na mais otimista hipótese, estava acostumada com o sofrimento negro, com  os corpos mortos, com a nação negra sendo dilacerada, com o povo afrodescendente rastejando sobre suas próprias cinzas. Percebi que as lágrimas que caem sobre os rostos deles são tão comuns que não valem a surpresa. E por alguns segundos, me peguei odiando tudo e a todos e sobretudo a mim por não conseguir enxergar além do meu próprio nariz e por não conseguir sentir nada além de exaustão quanto a tragédia ocorrida, por precisar do ócio para conseguir pensar não na tragédia, mas no arrepio que a mesma causou na minha pele branca.

Confesso que fiquei surpresa com minha falta de apatia, não esperava isso de alguém que escreve poesias e precisa de remédios devido ao excesso de emoções. Queria mais respostas sobre a minha condição, logo, fui em busca do porquê disso tudo e minha irrelevante reflexão sobre a história negra começou:

A primeira história sobre crueldade com negros que soube foi na quarta série do ensino fundamental, ouvi dos lábios de minha professora negra, e talvez hoje, vencida pelo tempo, minha memória falhe, mas posso afirmar com quase toda certeza que seus lábios tremiam e que sua voz não era firme enquanto falava  sobre uma escrava da qual não me digno a lembrar do nome, que teve o rosto deformado por possuir um sorriso bonito; a princípio, a cena me causou horror, e o sono foi embora durante alguns dias. Depois, continuando os estudos sobre este período da nossa história, soube de escravos cujos membros eram decepados em lavouras, de homens sendo tratados como objetos, de suicídios vistos como a melhor saída possível. Minha surpresa foi passando a medida que sabia mais sobre a trajetória africana, soube das tribos africanas cujas identidades foram apagadas, e das crianças que eram mortas com o leite materno ainda nos lábios. O tempo mudou, porém, o cenário estudado nunca sofreu abalos fortes, continuei vendo tragédias, e o sofrimento presente na vida do povo africano. A senzala sofreu uma reforma, os senhores de engenho atendem por outro nome, porém o povo negro permanece no mesmo ponto, lutando por sua dignidade, gritando em um mundo de surdos, ainda em desgraça. Porém, algo mudou, há 10 anos havia algo, e hoje não há mais, e eu digo que foi é minha perplexidade, que hoje, não está presente, antes, se meus olhos molhavam cansavam pela tristeza frente ao sofrimento do povo, hoje cansam pelo tédio. Será que não entendem? Já vi isso, já chorei por isso, quero outro filme!

Depois de concluir que minha apatia era devido ao fato de estar acostumada com tudo isso, pensei num motivo para a apatia de todos, afinal, não vi notícias exacerbadas, nem plantões, e não haverá filmes e muito menos dias no calendário que lembrem o desastre de Moçambique. Pensei. Será que já estão todos tão acostumados e fartos quanto eu? Será que estão todos ocupados? Será que estamos todos assim? Que os deuses tenham piedade.

Esta foi minha perspectiva da apatia, mas me recuso a receber essa culpa sozinha, há uma senhora que vale a citação.

Nossa imprensa atual, competente e fiel ao seu papel, traz as notícias que importam para as pessoas que importam. As notícias que nós americanos vemos, advém da Europa, da própria América, e as vezes, da Ásia. Enquanto na África, não sei, o que vem da África, não preciso saber. África, quem? Ninguém se importa, Moçambique! Uma gloriosa memória que nossa imprensa irá sempre cultuar, e nós, seremos sempre a plateia perfeita.

Uma vez dita a questão racial e etnocêntrica, talvez devamos cuidar da questão econômica. Já tive o prazer de ler pesquisas que versam sobre como pessoas ricas sentem menos afeto por pessoas em maior grau de pobreza. Seria uma ótima desculpa para nós americanos, europeus, com nossas riquezas advindas de nós mesmos, sentados de nossos tronos feito de ossos humanos, sentirmos menos pena dos povos lá em baixo?

Seria isso motivo suficiente para justificar nossa apatia frente aos povos africanos? Porque são pobres, porque não é algo chocante, por quê?

E neste momento no qual a história negra apenas surge apoiada sobre o texto de pessoas brancas, nota-se onde estamos: um mundo no qual sofrer por ser negro já é comum e tornar este sofrimento visível é ineficaz. Que me livre o universo de escrever cinco páginas sobre o sofrimento de ser negro, pois não o sei e jamais saberei. Tenho uma breve ideia adquirida pela mais pobre analogia, mas que antes que seja posto um rico para falar dos perrengues do transporte público, ou um homem para falar das dores do parto, se um dia isso funcionar, entrarei com outro texto sobre como sei mais do que qualquer negro sobre as dores de ser negro.

Posto isso, concluo que não me importo, porque não me convém importar, e no dia que for importante, procurarei por coisas mais importantes, fofocas mais importantes, reality shows mais empolgantes, música mais audíveis do que choro de crianças negras morrendo de fome, e tragédias mais bonitas, tragédias brancas e em tons mais cinematográficos .

E ao final do meu simplório e irrelevante texto, quero que esteja claro que o mesmo é egoísta e versa apenas sobre meu próprio mal, e que sou uma dentre milhares que uma vez acostumados ao horror da história negra, são quase incapazes de se apiedar ou de considerar isto uma perturbação.

Talvez, em um momento de pura sorte, no qual outras pessoas nascidas na etnia correta com certo poder aquisitivo em estado de ócio tenham este insight e decidam se comover como eu o fiz da forma mais branda e insignificante possível, talvez no dia em que meus irmãos de privilégio decidam se manifestar haverá mobilização e ajuda humanitária em larga escala, o povo africano será ajudado, e não mais haverá fome, e tudo será perfeito e viveremos na utopia.

Até lá, em um mundo regido única e exclusivamente por brancos, o povo negro vivera suas tragédias, e nós, o povo branco, assistiremos tudo, de uma sala de cinema, armados de um olhar blasé, com a cara de quem já viu o mesmo filme, ao menos uma centena de vezes.

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