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Agnès: da filmologia feminista ao Direito

Ana Flávia Toller (Curta) – TX

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No último dia 29 perdemos Agnès Varda, grande cineasta belga, de personalidade única e obra marcante, sobre a qual fez a seguinte auto-reflexão: “I don’t want to show things, but to give people the desire to see”(“Não quero mostrar as coisas, mas dar às pessoas o desejo de vê-las”).

Nesse contexto, entendo que, geralmente, entre a objetividade e a subjetividade temos uma passagem repleta de percalços.

Entre a preferência a um cinema que aponta o caminho trilhado sem rodeios e aquele que abre um cardápio de hipóteses à la carte, estão desenhadas escolhas e desejos pessoais. Esses desejos são a manifestação ínsita de outra subjetividade, a subjetividade não cinematográfica, qual seja, a subjetividade de vida do interlocutor. Isso definirá se preferirá, afinal, um cinema  mais objetivo ou subjetivo, interessando-se ora por aquilo que vai mais direto ao ponto e outras vezes por aquilo que leva um tempo maior para ser decifrado.

Quando Agnès Varda disse que queria dar as pessoas o desejo de ver, falava sobre ultrapassar o conceito de realizar obras subjetivas ou objetivas. Agnes não veio comunicar que  se identifica com a tag Nouvelle Vague, mas que sempre fez cinema com o propósito de que o seu interlocutor esteja ciente da subjetividade ou objetividade. Seu cinema não é uma forma despropositada e, ainda que esteja envolto por muitas subjetividades, estas não estão lá apenas para inflar o espectro da arte feita como um fim em si mesma. Agnes veio ensinar ao público a construir em si o desejo de ver. Não veio meramente provocá-lo, veio DAR, CONCEDER. “Dar o desejo” é iluminar, é fazer com que de forma direta (objetiva) ou indireta (subjetiva) com o uso político da câmera, o interlocutor recaia no anseio de saber mais, de enxergar além das próprias razões ou das subjetividades construídas em si até então.

E foi assim que Agnes pôde contribuir para a entrega da temática do feminismo. Falar sobre a pauta feminista é falar sobre uma objetividade subjetivada; é falar de fatos que reluzem à realidade de qualquer pessoa (objetivo), mas que são ofuscado por diferentes visões de mundo (subjetivo). Se para alguns parece óbvio e singular o aspecto político e imprescindível do movimento feminista na realidade, para outros, nem tanto. É por isso que o feminismo precisa incidir sobre o básico e imediato, respeitados os recortes de classe. Em período remoto, as Sufragistas, através de seu subjetivismo veiculado por ações concretas, intentaram contra um outro subjetivismo, daqueles que renegavam a imprescindibilidade do posicionamento feminino contra o machismo estrutural. Tiveram que trazer, expor, sangrar e insistir frente a um conjunto intransponível de visões machistas, tiveram que ENSINAR e DAR ao patriarcado uma avalanche informacional e de postura para que se fizessem vistas. Não só ao patriarcado, mas a outras mulheres que sofriam com a desinformação, pois a submissão à força dominante da visão de mundo masculina não lhes despertava  o desejo de ver. Hoje, mesmo com o avanço feminino em diversas áreas de participação social, vive-se o conceito do feminismo deturpado, o qual precisa ser liberto da definição patriarcal do termo. Precisa-se OFERTAR e DAR o desejo de saber, o desejo de enfrentar e combater situações calamitosas nas quais o machismo se engendra subjetivamente, mas com força cultural tamanha que, por vezes, parece ser parte da objetividade. Concretamente falando, estamos diante de restrições à liberdade feminina, atitudes como a do gaslighting, mansplaning, além de situações como o assédio, estupro, o feminicídio, violência doméstica, abuso de poder, ameaça, difamação e injúria. Situações tão presentes no cotidiano, mas que lidam com o abismo estrutural entre: necessidade objetiva de proposição de medidas eficazes ao seu combate x negação estrutural pelas cúpulas de poder da necessidade de uma luta feita por mulheres para mulheres, ou seja, da inclusão das mulheres em órgãos de governo.

Nesse sentido político, o Cinema foi a arma precisa de Agnes Varda, bem como de outras mulheres cineastas (Germaine Dulac e Alice Guy-Blaché , as pioneiras; Mary Doe e Sarah Gavron mais recentemente) que, conforme proposta de Agnes, não vieram mostrar as coisas em si, pois as coisas são fatos, estão aí e podem ser mostradas; elas vieram suprir a necessidade de mostrar as coisas de uma forma que desperte o desejo do outro para o aprendizado, desperte-se, necessariamente, o olhar do outro para efetivamente ver e entender. O cinema, afinal, como uma arma efetiva para o despertar da empatia. .

O ponto é exatamente esse, leitor: lidamos com situações da pauta feminista diariamente, sabemos existir, são fatos. E o cinema, por sua vez, principalmente através da filmografia-feminista vem contar-nos e tenta aprimorar seu papel social, através do ENSINAR A VER. Damos a ele nosso voto de confiança e, então, pretendemos que até o ser humano mais renitente desperte em si, ou aprenda a ter, desejo para desvendar melhor a importância do engajamento político-social das mulheres, para além de críticas vãs e genéricas.

Felizmente, com o passar do tempo, o movimento feminista teve algumas de suas vitórias resguardadas pela lei. No Brasil, pelo menos, a luta é bastante árdua, mas a atenção do legislativo para apresentar soluções a crimes de gênero parece caminhar em direções positivas. No entanto, ainda assim sabemos que  autoridades jurídicas como Delegados, Juízes e Promotores – principalmente do sexo masculino – precisam urgentemente de um contato com Agnes Varda e outras, durante sua vivência, a fim de que sua subjetividade seja tocada, que o cinema estoure suas bolhas pessoais e que eles possam entender definitivamente que um homicídio pode não ser apenas um homicídio, podendo, muitas vezes, tratar-se de um feminicídio; que uma mulher assediada não merece ter seu psicológico duplamente afetado pela culpabilização da vítima, e que uma mulher pode viver em uma situação de dependência tão drástica com seu companheiro que não faz qualquer sentido ser julgada por deixar de denunciá-lo.

Talvez, se o contato dos servidores públicos atuais com a questão do feminismo ocorresse através de bases mais sólidas, de políticas de envolvimento dessas autoridades com as questões da pauta feminista de modo a desinfetar a subjetividade preconceituosa, se a pauta feminista fosse posta com a seriedade que merece – até mesmo pelas próprias feministas, e aqui deixo uma crítica pessoal a algumas vertentes do movimento – poder-se-ia caminhar em progressos menos lentos e melhor colocados.

Por enquanto, nesses caminhos de passos tortuosos procurando por avanços, ainda temos uma Agnes póstuma que sussura na alma das combatentes restantes: “Procurei ser uma feminista alegre, mas sentia-me muito zangada” (As praias de Agnès, 2008).

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