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Desculpa, moço, mas dessa vez não vou te agradecer

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Por: Ana Paula Araújo (Boto) – TXI

Dia desses me deparei com o pensamento de que eu era uma pessoa muito privilegiada por só me relacionar nos anos mais recentes com caras que respeitavam meu corpo. Que não questionavam minhas curvas nem sugeriam modificações, como depilação, academia, dieta ou cremes estéticos. Mas duas coisas, eu como autora desse texto, preciso pontuar: sou uma pessoa que atende de certa forma um padrão estético – o que, logo, se for fator determinante para a série de fatos que eu for elencar e analisar, muda totalmente o sentido desse texto –, e eu sempre convivi em ambientes privilegiados.
Hodiernamente, estou, sem dúvidas em um ambiente privilegiado, de população muito seleta (que horrível falar assim), e que em sua maioria converge ideologicamente. Pausa. Embora respeito ao próximo não deva ser uma ideologia, mas considerando estímulos e maneira de educação e socialização, ter noção de certos padrões impostos, com certeza, configura um privilégio, leia aqui: acesso a educação de qualidade, no geral.
No passado também, ambientes extremamente privilegiados, quando não, muito elitizados. Isso, infelizmente, não é desnecessário de ser comentado. Estou aqui, construindo-lhes minha imagem, e deixando claro os limites que esse texto vai te impor a certas reflexões: você deve ir além, mas com minha visão de mundo e experiência inserida nesses contextos, só posso lhe oferecer minha realidade, e que, de certa forma, é interessante. Do contrário, eu não estaria te pedindo para perder seu tempo aqui comigo, caro leitor, cara leitora.
Feitas nossas devidas condições, vamos ao fato, o que realmente nos interessa aqui: estava eu refletindo sobre como eu era privilegiada por só estar tendo experiências com pessoas que não estavam exigindo nada de mim em relação ao meu corpo. Felizmente, processo de desconstrução é uma coisa genial: você também se autocorrige. E numa fração de segundo a minha versão mais sensata e menos deslumbrada, me advertiu: não, não! Você não é privilegiada, você só está recebendo o que todas nós deveríamos receber.
Pois bem, nesse momento entra o dilema da questão da minha realidade: será que me deparei com isso exclusivamente por estar numa situação favorável diante de um padrão (não me vanglorio disso, eu só tenho espelho em casa e já assisti televisão umas poucas vezes, infelizmente eu sei o que se passa), ou será que eu realmente estou rodeada de pessoas que, ah, não se importam com isso, por que entendem a falta de respeito imensa que está em volta disso (sem mencionar aqui machismo, gordofobia, racismo, entre outras questões)?
Eu vou apostar na segunda opção. Para poder fazer um apanhado mais geral.
Considerando então, que eu já inserida num ambiente privilegiado, só me relaciono com pessoas que tem esse tipo de pensamento, porque entendem esse fato. Eu deveria agradecer? Não. É a mesma coisa do porquê você deveria dar bom-dia por seu porteiro. Você precisa ser educado (a). Ou agradecer por um copo d’água. Agradecer porque uma pessoa respeita quem você é, e isso inclui suas falhas – sardas (que não falhas são pinturas divinas nos rostos), estrias, celulites, olheiras (só por Deus, estou quase comprando pepino para colocar no rosto), gordura abdominal protuberante, pele mole do braço (eu sei que você tem, e ela balança na hora de dar tchau) – não faz sentido. É falta de amor-próprio. Entendo e não vou te culpar: não fomos acostumadas, e também acostumados, a achar que deveríamos conviver em paz com essas falhinhas. E isso não é tudo bem. Ninguém nunca vai atingir o ideal de um corpo, de vida e de saúde, podemos viver em equilíbrio, mas não é vida se não tem as intempéries no caminho. E sinceramente? Isso é tudo bem sim. Eu só vou te pedir, principalmente se você for mulher e se relacionar com homens, para parar de agradecer por ele te tratar bem como você merece, respeitando sua personalidade e seu corpo, porque, igual mamãe diria, ele não fez mais do que a obrigação.
E se isso não estiver acontecendo? Não vai ser legal. E se você ficar muito feliz por estar com alguém assim, sem problemas. É bom se sentir bem, mas entender o limite entre o que você precisa agradecer e o que as pessoas precisam fazer, por questões triviais de respeito, é muito importante também. Obrigada pelas experiências maravilhosas que tive, entretanto, desculpa, moço, mas dessa vez não vou te agradecer.

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