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CRÍTICA DE MIX$TAKE

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Thadeu Vilas – TXII

O mais novo trabalho do artista salvadorense após o extremamente elogiado Japanese Food (2017) mostra que Giovani Cidreira não tem medo de reinventar sua própria estética. “Mix$take” é marcada por um R&B contemporâneo à la Frank Ocean e Blood Orange, distanciando-se do trabalho anterior, fortemente influenciado pelo cantor brasileiro Milton Nascimento.

A produção desse novo projeto foi concebida com a ajuda do guitarrista da banda Boogarins, Benke Ferraz, e mostra um Cidreira mais minimalista e solitário, características adquiridas com a mudança do baiano para a cidade de São Paulo e com a adaptação deste a rotinas de shows e festivais, situações que vêm moldando suas relações interpessoais.

A primeira faixa prepara o ouvinte para o resto do trabalho e já anuncia uma surpresa àqueles que procuravam o mesmo Giovani de 2017. “Oceano Franco” trata-se de uma poesia que canta amores perdidos e as incertezas da vida (“Talvez eu não te veja, mas estou indo pra guerra / Me dê um beijo, estamos indo sem vela / Tem fogo em nossa porta, amor”), tudo isso imerso em uma batida mais atmosférica da canção “Nikes”, de Frank Ocean, resultando em uma melancólica e dolorosa reflexão acerca da existência. “Sempre o peso de mil corpos por cima de nossas costas / Livres, sempre peço outra cerveja e sempre o filho de alguém morre / Todos os outros vivos seguem”.

Na sequência, “Pode Me Odiar” tem uma poesia que retrata um relacionamento que simplesmente não deu certo, e o cantor reconhece sua culpa nisso, apesar de seu sentimento se manter o mesmo em relação a outra pessoa (“Amo você devagar / São cinco dedos, cinco fases / Pra todos os lados eu vou”). O conteúdo poético adquire maior profundidade graças a um instrumental denso, repleto de sintetizadores e batidas irregulares. Uma canção cheia de saudade e sentimentos dolorosos. “Nunca mais você apareceu distraído / E acreditando em mim / Era tudo, hein / Sem usar palavras, mas acreditava em mim / Pode me odiar”.

Em “Seu Cigano Flow” começa a notar-se uma transição dentro do álbum: o R&B começa a dar lugar para um pop mais energético e a próxima canção explorará esse ritmo ao máximo. “Ngm + Vai Tevertrist” é a música mais diferente do álbum, na qual Giovani abandona seu jeito tristonho de cantar e assume uma postura com vocais fortes e instrumentação que recupera o pop da década de 80 (chegando a lembrar um pouco seu álbum anterior). Ainda nesse pop frenético, mas começando a desacelerar novamente, chega “Mano Sereia”, onde Jadsa e Filipe Castro cantam o suposto aparecimento de um homem peixe, por meio da costura de captação de áudio amadores e gravações de estúdio.

O álbum se encerra com “Casa Vulva” e “Pode me Odiar No. 2.”, fazendo mais uma transição: do pop ao R&B. O projeto termina no mesmo ponto em que começou, uma obra cíclica.

Nesse curto trabalho (23 minutos), Giovani Cidreira exteriorizou todas as mudanças internas decorrentes de sua nova vida e prepara o terreno para seu próximo álbum, que será lançado ainda nesse ano. O isolamento, a saudade e a frustração moldam a obra e ainda ganham mais expressão graças a voz melancólica do cantor. “Mix$take” mostra que Giovani não tem medo de se aventurar em novos estilos, sem perder sua essência. Um EP de transição, não somente de estilo como também sobre a vida pessoal de Cidreira, no qual a fragmentação de pensamentos e batidas não diminui a força poética, mas a aumenta.

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